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O dia em que a Marvel declarou falência

Por Gus Fiaux

Muito conhecida por sua alcunha da Casa das Ideias, a Marvel Comics atualmente é uma das maiores empresas do mundo, fornecendo propriedades intelectuais importantíssimas para o cinema e consolidando não apenas o gigante Universo Cinematográfico da Marvel como também outras franquias paralelas da Sony, além das várias séries de TV, jogos e até mesmo parques temáticos.

Mas quem vê a editora tão alto na cadeia alimentar de Hollywood nem imagina que em 1996, ela chegou a declarar falência no mercado, devido a vários problemas internos e uma queda absurda na venda de quadrinhos. Essa era obscura e tenebrosa na Casa das Ideias fez com que todo o processo evolutivo da editora passasse por uma grande reestruturação – e só assim chegamos aonde estamos. Quer saber mais? Então venha conosco!

Heróis Renascem, saga publicada enquanto a Marvel estava dando seus últimos respiros – com ajuda de aparelhos.

Por que a Marvel faliu?

A história da falência da Marvel começa muito antes de 1996. Na verdade, começa justamente na década de 60 – no momento em que Stan LeeJack KirbySteve Ditko e diversos outros artistas reformularam a Timely Comics de Martin Goodman e deram a ela um novo nome: Marvel Comics, em referência às “maravilhas” que eram seus super-heróis. Inicialmente, esse grupo começou escrevendo para públicos de todas as idades, criando histórias que podiam ser aproveitadas tanto por crianças quanto por adultos.

A fórmula estava intrincada em vários aspectos: o fato desses heróis serem bem mais “humanizados” e identificáveis que os da DC Comics, as revistas que se ligavam formando um complexo quebra-cabeça de histórias e até mesmo as artes mais voltadas para um movimento contemporâneo da época, deixando de lado a beleza plástica das HQs da Era de Ouro em prol de uma movimentação e uma fluidez maiores. E esse foi o chamariz da Marvel durante anos, o que fez com que a editora emplacasse nomes como o Quarteto Fantástico, os X-Men, o Hulk e o Homem-Aranha.

A mudança no mercado começou a partir dos anos 80, quando os quadrinhos passaram por uma era terrivelmente sombria. De repente, leitores menores não tinham mais espaço em um mundo povoado por WatchmenO Retorno do Cavaleiro das Trevas A Queda de Murdock. Então, o mercado começou a se adaptar para um novo tipo de fã e comprador de quadrinhos: os colecionadores, que não viam problemas em comprar várias edições da mesma HQ apenas por uma capa diferente.

Porém, vários nomes da indústria – dentre os quais, o próprio Neil Gaiman, que estava escrevendo Sandman para a DC/Vertigo, começaram a prever como esse movimento acabaria resultando em uma bolha mercadológica e, de uma hora para outra, essa bolha iria estourar. Dito e feito. Em 1989, a Marvel Entertainment Group foi comprada por Ron Pereleman, um milionário investidor que queria transformar a editora em sua nova galinha dos ovos de ouro.

Para isso, ele começou a comprar e agregar à Marvel várias empresas de figurinhas colecionáveis, brinquedos e mais produtos licenciados. A estratégia era clara: lançar quadrinhos que vinham com figurinhas e outros itens do tipo, para que o público de colecionadores comprasse ainda mais e aumentasse os lucros da Casa das Ideias. Mas para isso funcionar, eles precisaram aumentar consideravelmente o preço dos quadrinhos. As vendas, que estavam lá no alto em 1993, caíram absolutamente e, em 1996, a editora estava dando seu último respiro.

X-Men: Franquia da Fox foi um dos primeiros resultados da venda dos direitos de adaptação da Marvel.

Quando a Marvel vendeu os direitos de seus heróis?

Antes mesmo de 1996, toda a mudança no paradigma dos quadrinhos havia causado um grande caos nas editoras. Como a Marvel era recordista de vendas até então, empresas paralelas – como a própria DC – acabaram seguindo rumos parecidos, mas o colapso do mercado de quadrinhos veio para todas. Em pouco tempo, muitos vendedores especializados de quadrinhos nos EUA estavam fechando as portas com medo de um prejuízo ainda maior. E antes mesmo da falência chegar, Ron Pereleman começou a pensar em planos de contingência.

Ainda em 1993, ele começou a montar o que se tornaria a Marvel Studios, na tentativa de criar filmes de qualidade inspirados nas propriedades da Marvel, aumentando ainda mais os lucros – tudo isso com a ajuda da ToyBiz, uma empresa de licenciamento de brinquedos, e de Avi Arad, que se tornaria um dos maiores produtores do Homem-Aranha da Sony. Ainda assim, vários investidores não ficaram muito contentes com as decisões impulsivas de Ron Pereleman e tentaram removê-lo da presidência da editora.

Foi aí que a falência veio: não como uma certeza, mas como uma forma de tomar controle da editora sem precisar responder a acionistas e investidores. Em 1996, a Casa das Ideias estava falida – ao menos, essa era a tática de Ron. O que ele não contava era a participação de dois membros da ToyBiz: o próprio Avi Arad e também Ike Perlmutter. Em 1998, eles conseguiram salvar a Marvel da falência e ainda tirar Ron Pereleman do poder, colocando outro nome já conhecido dentro da própria editora, Joseph Calamari.

E você deve estar se perguntando: “Mas quando a Marvel começou a vender os direitos dos seus personagens nos cinemas?” A resposta é simples: durante toda a década de 90. Vários acordos eram feitos para evitar o colapso total da empresa – e é por isso que, em 1994, a Fox adquiriu os direitos dos X-Men, além de outras propriedades como o Quarteto Fantástico. No fim da década de 90, foi a vez do próprio Homem-Aranha passar para as mãos da Sony, com supervisão direta de Avi Arad.

Inicialmente, não se via muito futuro para esses filmes, já que boa parte das produções dos anos 80 e 90 baseados em personagens da Marvel era, para dizer um eufemismo, terrível. Porém, tudo mudou com o lançamento de Blade em 1998. O filme não fez muito sucesso, mas mostrou que era possível adaptar esses personagens e não sofrer um grande prejuízo no processo. Com a Fox produzindo X-Men: O Filme e a Sony lançando Homem-Aranha, a Casa das Ideias finalmente estava se recuperando no mercado.

Os Vingadores e a consolidação do império do Universo Cinematográfico da Marvel.

O grande problema é que esses filmes traziam pouquíssimo retorno financeiro para a própria Marvel, já que a maior parte dos lucros ficava nos estúdios que haviam os produzido. Isso evidentemente muda nos anos 2000, quando os primeiros esforços para criar o Universo Cinematográfico da Marvel começaram. Jogando de vez com a Marvel Studios, Ike Perlmutter começou a investir pesado em produções de seus maiores heróis – ao menos, os que ainda não haviam sido vendidos.

Assim veio Homem de Ferro, em 2008 (seguido por sua continuação, em 2010); Thor Capitão América: O Primeiro Vingador, de 2011 e até mesmo uma co-produção entre a Marvel Studios e a UniversalO Incrível Hulk, que também ajudou a pavimentar o caminho da franquia. O caminho até ali foi arriscado, já que a Marvel precisou fazer acordos com bancários para financiar esses projetos – e o colateral do investimento seria justamente os direitos desses personagens.

Em outras palavras, se Homem de Ferro fosse um fracasso, os direitos do herói passavam para a mão dos bancos.

Mas mesmo sendo arriscada, a aposta funcionou. Logo a Marvel Studios se provou um dos produtos mais lucrativos do mercado – afinal, eles produziam os próprios filmes e retinham os lucros. Isso obviamente atraiu o olhar de gente poderosa. Em 2009, a Marvel Entertainment foi vendida para a Disney por US$ 4 bilhões. Eles permitiam que a Marvel tivesse sua própria autonomia na hora de produzir seus filmes, e ainda ajudavam fornecendo a distribuição.

O resultado é esse que vocês veem hoje: o MCU é a franquia mais lucrativa da história do cinema e a Marvel, como um todo, vale mais de US$ 50 bilhões – um baita aumento levando em conta o preço pelo qual foi vendida. Nesse meio tempo, a Disney também “readquiriu” os direitos de vários heróis que haviam sido vendidos anteriormente, trazendo os X-Men e o Quarteto Fantástico de volta ao lar e ainda abrindo uma parceria inédita com a Sony para colocar o Homem-Aranha nesse universo.

A expansão continua e, por mais que os quadrinhos atualmente sejam o produto “secundário” da empresa, atrás dos próprios filmes que adaptam eles, ainda é bem interessante observar como uma empresa conseguiu, em um espaço de duas décadas, sair da completa falência para o topo do mercado do entretenimento.

Fontes: Slate, Den of Geek e Forbes.

Abaixo, conheça os heróis de Midnight Suns, novo game da Marvel:

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sobre o autor Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Crítico, roteirista e mago nas horas vagas. Wouldst thou like to live deliciously? || @gus_fiaux