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Loki: Entenda a sexualidade e o gênero fluído do personagem

Por Gus Fiaux

Nos últimos dez anos, o Loki acabou ganhando muita popularidade, tanto dentro dos quadrinhos quanto fora deles. Seja por sua adaptação no Universo Cinematográfico da Marvel (onde é interpretado por Tom Hiddleston) ou pelas várias fases do vilão/anti-herói ao longo dos anos, ele teve sua origem desconstruída e desmistificada, sendo lentamente transformado do Deus da Trapaça no Deus das Histórias.

Porém, um elemento que ainda permanece nebuloso para muitos fãs que não acompanham quadrinhos é a própria sexualidade do personagem, bem como sua identidade de gênero – e isso pode causar uma confusão em quem for assistir ao terceiro episódio da série solo de Loki no Disney+. Pensando nisso, explicamos neste breve artigo como Loki Laufeyson se tornou um ícone queer dos quadrinhos – e como isso tem base na própria mitologia nórdica!

A sexualidade de Loki

Nas histórias mais clássicas da Marvel, as relações de Loki Laufeyson com outros personagens, incluindo as românticas, eram pouco elaboradas, visando reforçar sua função puramente maléfica. Com o passar dos anos, o vilão ganhou um desenvolvimento diferente, de modo que alguns relacionamentos começaram a florescer aqui e ali – sempre mostrando todo o lado vil e cruel do personagem.

Porém, desde que ele morreu nas páginas de O Cerco, o personagem voltou à vida com novas versões e histórias. De começo, ele era Kid Loki – uma versão jovial e bondosa do Deus da Trapaça, tentando se livrar das amarras de seu passado sombrio. Depois, essa versão foi substituída por Ikol (ou Loki, o Agente de Asgard), um novo anti-herói ainda mais identificável que, apesar dos impulsos vilanescos, tentava se tornar uma versão nova de si mesmo.

E foi justamente quando ele se transformou em Ikol que a Marvel começou a trabalhar melhor a sua sexualidade nas HQs. Loki então passou a ser descrito como pansexual: ou seja, ele sentia atração por pessoas de todos os gêneros. Basicamente, Loki se interessa por pessoas e não por seus órgãos genitais ou gêneros. Ele está disposto a ter todos os tipos possíveis de relacionamentos (com seres humanos e/ou humanoides), o que casa com seu lado mais hedonista.

E antes que você comece a xingar nos comentários e falar sobre o “absurdo que é a mudança de sexualidade” do vilão – que nem foi bem uma mudança – é importante determinar que isso vem da própria mitologia nórdica e está bem atrelado à própria identidade de gênero dessa deidade. Nas lendas e mitos, Loki era capaz de assumir várias formas diferentes e ter relacionamentos com vários seres diferentes – incluindo gigantes de gelo e até mesmo cavalos.

É importante deixar claro que, no espectro da sexualidade humana, pessoas pansexuais não praticam sexo ou têm relações sexuais com seres de outras espécies do reino animal. Uma pessoa pansexual é unicamente alguém que não se importa com rótulos de gênero na hora de escolher seus próprios relacionamentos ou até mesmo ao se atrair por outras pessoas.

O gênero de Loki

Nos quadrinhos, o Loki seguiu de perto sua versão mitológica durante o Renascer dos Deuses da Marvel, uma importante fase dos quadrinhos do Thor onde várias deidades nórdicas voltaram à vida, após suas mortes brutais ocorridas no Ragnarök, o “fim do mundo” para os asgardianos e nórdicos. Loki também havia morrido no evento, mas retornou com uma forma bem diferente.

Agora, ele era Lady Loki, assumindo para si o corpo de Sif e tornando-se uma mulher. Nessa época, o personagem passou a ser tratado no feminino, ainda que conservasse muito da personalidade ardilosa e cruel do Deus da Trapaça original. E é importante lembrar que essa não foi a primeira (e nem a última) vez que Loki assumiu formas de outros gêneros. Como um mestre dos disfarces, ele sempre usou esses recursos para seus planos.

Contudo, foi apenas na fase da Lady Loki que começamos a ver um lado do personagem que realmente gostava de se transformar, e não o fazia apenas para pregar uma peça em alguém. Embora a ideia de assumir o corpo de Sif tenha sido concebida originalmente para que ele pudesse importunar Thor (que era apaixonado pela guerreira), Loki foi se mostrando cada vez mais confortável em seu corpo feminino.

E nos últimos anos, com o avanço das discussões de pautas sociais mais dedicadas à identidade de gênero, o vilão acabou tendo essa parte de sua vida mais explorada nos quadrinhos. Nos mesmos quadrinhos que confirmam a sua pansexualidade, tivemos a relação de que ele é gênero-fluido. Ou seja, ele pode “fluir” tanto entre o masculino e o feminino (e até outras expressões) ao seu bel-prazer.

Com isso, Loki pode se sentir confortável tanto sendo homem quanto mulher, sem que seja apenas por disfarce ou ilusão. E mais uma vez, isso está presente na mitologia nórdica desde os primeiros mitos sobre essa figura divina, quando ele era revelado como um trapaceiro que assumia diversas formas e vivia “diversas vidas” diferentes. Tudo isso tem uma base consolidada e não é de hoje que a própria Marvel explora esse assunto.

Loki no Universo Cinematográfico da Marvel

Agora, o personagem finalmente está ganhando destaque no Universo Cinematográfico da Marvel, mesmo tendo “roubado a cena” durante anos. No começo deste mês, tivemos o lançamento de Loki, a primeira série solo do vilão que segue uma “variante” do Deus da Trapaça que fugiu de seu destino e agora causa problemas pela linha temporal, até entrar na mira do Agência de Variação Temporal.

A primeira revelação feita sobre o personagem aconteceu antes mesmo da série ser lançada, graças a uma imagem dos créditos finais que mostra um “cartão de identificação” do personagem. Em uma parte dedicada ao sexo do personagem, está escrito apenas a palavra “Fluido” – um indício de que ele não é necessariamente macho ou fêmea, e pode variar entre esses aspectos.

Porém, no terceiro episódio da série tivemos uma segunda revelação, em uma conversa entre Loki Sylvie. Lá, a variante feminina do Deus da Trapaça questiona se Loki já teve alguma princesa ou príncipe como pretendente, ao passo que a divindade só responde: “Um pouco dos dois. E acho que você também”. Assim, é confirmado que, no Universo Cinematográfico da Marvel, Loki se relaciona com homens e mulheres.

Em seu Twitter pessoal, a diretora Kate Herron explicou que isso é uma forma de mostrar que o personagem é bissexualou seja, ele sente atração sexual e romântica pelos dois gêneros, masculino e feminino. Porém, é importante tentar definir qual é a principal diferença entre pessoas pansexuais e bissexuais, e por que isso pode ter sido alterado no MCU.

Bissexual ou Pansexual?

Embora as próprias comunidades bi e pan não cheguem a um consenso sobre suas diferenças e semelhanças, a ideia mais aceita é que pessoas bi se atraem por mais de um gênero, enquanto que pessoas pan se atraem por outras pessoas independente de seus gêneros. Por isso, há uma pequena mudança nessa adaptação, embora em teoria isso não traga grandes mudanças para o personagem.

Contudo, precisamos lembrar que Loki é uma produção da Disney encaixada na grade de programação do Disney+ e, por isso, é pouquíssimo provável que a sexualidade ou a identidade de gênero do personagem seja explorada além de breves linhas de diálogo, tendo em vista que o estúdio ainda é bem conservador no que diz respeito a esses temas e questões. Por outro lado, é um primeiro passo importante – afinal, é a primeira produção do MCU protagonizada por um personagem LGBTQIA+.

Loki é exibido semanalmente no Disney+ às quartas-feiras. Caso você não assine o streaming, pode fazer isso aqui!

Abaixo, fique com os easter-eggs e referências do terceiro episódio da série:

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sobre o autor Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Crítico, roteirista e mago nas horas vagas. Wouldst thou like to live deliciously? || @gus_fiaux