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[Crítica] Kid Cosmic e a graciosa comédia da imperfeição

Por Gabriel Mattos

Lembra quando você era apenas uma criança que queria muito ter poderes para se tornar um super-herói? Combater o crime parece algo super irado quando se é jovem, mas as coisas podem dar muito errado. Kid Cosmic é o que acontece quando o sonho se choca com a realidade: um super herói mirim hilário que vai precisar amadurecer para fazer o que é certo.

A primeira série animada da Netflix Animation é um prato cheio para quem cresceu assistindo os desenhos do Cartoon Network. Kid Cosmic vem carregado do humor caótico de A Mansão Foster Para Amigos Imaginários combinado com a ação rápida de As Meninas Superpoderosas para entregar uma experiência heroica perfeita para uma nova geração de crianças.

Imagens: Divulgação/Netflix

Ficha técnica

Título: Kid Cosmic

Produtores Executivos: Craig McCracke e Melissa Cobb

Roteiro: Francisco Angones, Craig McCraken, Justion Nichols, Rob Renzetti, Amy Higgins, Ben Joseph, Kevin Seccia, Tim McKeon, Todd Casey e Dave Thomas

Ano: 2021

Data de lançamento: 2 de fevereiro

Duração: 10 episódios

Plataforma: Netflix

Sinopse: Um garoto se torna super herói e precisa aprender a trabalhar em equipe para defender a Terra de uma das maiores ameaças da galáxia.

Conheça os heróis locais!

Tudo começa quando Kid Cosmic, o garoto esquisitão de uma cidadezinha no meio do nada, descobre pedras vindas do espaço. Elas escondem super poderes incríveis e ele precisará se unir a aliados improváveis para defender a Terra.

O ponto alto do desenho com certeza surge da interação entre esses aliados bem diferentes entre si. Os amigos de Kid têm idades, corpos e vontades bem variados. Como de costume, a diversidade acaba enriquecendo a história acrescentando vivências bem contrastantes mesmo com um grupo pequeno de personagens.

Cada personagem traz sua própria energia para a narrativa e acaba encontrando aos poucos seu lugar no grupo, mesmo que nem sempre seja o lugar que eles inicialmente imaginaram. Essa diferença resulta em relações que parecem sair do controle por vezes e, para alguém que sempre viveu isolado como o Kid, isso pode ser um pouco demais.

“Não pira, só respira!”

Quando nos fechamos para a pluralidade do mundo, ela pode ser assustadora e essa é a fonte de grande parte dos conflitos da animação. A jornada de adaptação de Kid é bem caótica e delicada, como muita coisa nesse desenho. Ele passa por um processo de inveja, aceitação e respeito que mostra uma sensibilidade inusitada, ausente em outras obras similares.

Mesmo que Kid Cosmic seja uma comédia escancarada na maior parte do tempo, os roteiristas não fogem de emoções mais complexas tão importantes para a formação das crianças. Ver o Kid desabrochar é bastante satisfatório e, mesmo que os demais personagens também sejam incríveis, é inegável que ele é o grande protagonista dessa história.

Não é tão comum que crianças sejam escritas com tamanha nuance em animações do tipo, mas os anos de experiência de Craig McCracken garantiram personagens que vão além do óbvio. O próprio Kid remete a personalidade revoltada de Blooregard, o fanfarrão azul de A Mansão Foster para Amigos Imaginários (outra criação de McCracken). Entretanto, seu coração sincero mostra que existe muito além do que as primeiras impressões podem mostrar.

Velha guarda requintada

Essa abordagem mais focada no desenvolvimento emocional dos personagens foi popularizada pelos desenhos mais recentes do Cartoon Network, como Hora de Aventura e Steven Universe. Os produtores de Kid Cosmic souberam aproveitar o melhor de cada momento da indústria da animação. O formato do desenho, por exemplo, não hesita em se adaptar às necessidades da narrativa. Há um episódio todo no estilo documentário e ele é essencial para consolidar o ritmo da série.

O direcionamento dinâmico da era contemporânea da animação opera para revitalizar o que funcionava melhor na velha guarda, agradando assim aos fãs de animação de todos os tempos. Inclusive, o programa bebe da fonte dos maiores nomes da animação.

A comédia do programa lembra a bobagem de Du, Dudu e Edu. O cenário desolado traz lembranças de Coragem, o Cão Covarde. Mesmo assim, nunca fica parecendo que Kid Cosmic quer emular a identidade desses grandes clássicos pela nostalgia, mas sim aprender com as diferenças para testar que combinações podem funcionar na animação.

Na real, Kid Cosmic tem muita identidade própria. A estética toda mistura tirinhas de jornal com gibis antigos, incorporando cores pouco saturadas e um filtro granulado. A música de encerramento é bem energética e sempre com um título heroico para o episódio. Juntando tudo, é como se os gibis de outrora tivessem ganhado vida.

Uma ponte em meio ao caos

Para uma primeira temporada, Kid Cosmic acertou bastante no ritmo. Depois de poucos episódios, parece que você conhece esses heróis há anos. Suas aventuras contra as mais loucas ameaças espaciais vão empolgar desde os mais novos, até os mais velhos. E, aos poucos, o desenho transmite uma mensagem crucial de empatia e respeito pelas diferenças.

Kid Cosmic surge em um momento delicado onde o cenário político mundial é puro caos. A comédia da animação reflete essa energia bagunçada e usa a esperança, inerente aos super-heróis, como uma tentativa de trazer um novo foco à discussão. É necessário guiar essa geração a um futuro de união, sem esquecer das nossas diferenças, mas aprendendo a conviver com elas.

Tudo bem ter errado. Mesmo com a melhor das intenções, todo mundo erra. A jornada de Kid é um lembrete que é importante criar um espaço seguro para aprendermos com nossos erros. Como Papa G diria: “A maldade é o grito de socorro de um coração ferido”. E às vezes, tudo que alguém precisa para se curar é um pouco de empatia.

Nota 4/5

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sobre o autor Gabriel Mattos

Redator que joga mais Switch do que deveria e já leu todo o novo cânone de Star Wars, até os livros ruins. • @gabeverse