Crítica: Jungle Cruise é uma aventura despretensiosa até demais

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Crítica: Jungle Cruise é uma aventura despretensiosa até demais

Por Camila Sousa

Quem cresceu nos anos 1990 e 2000 com certeza está habituado a filmes de aventura despretensiosos de Hollywood. Se hoje os longas de super-heróis dominam as bilheterias com histórias interligadas e grandes sagas, o cinema já teve como destaque produções cujo maior objetivo era, de fato, divertir, sem um contexto maior. Esse parece ter sido o propósito de Jungle Cruise, novo filme da Disney estrelado por Emily Blunt e Dwayne “The Rock” Johnson. No entanto, o longa comandado por Jaume Collet-Serra (Águas Rasas) confunde os conceitos de ser despretensioso e ser raso.

Inspirado em uma atração dos parques da Disney, assim como Piratas do Caribe, o longa começa com a Dra. Lily Houghton (Blunt) contratando os serviços do capitão Frank Wolff (Johnson) para levar ela e seu irmão, McGregor (Jack Whitehall), em uma missão pela floresta amazônica para encontrar uma árvore com poderes de cura. A sinopse já deixa claro que Jungle Cruise não tem exatamente uma trama original, mas o filme começa bem, especialmente pelo carisma de Blunt, que inicia a história entregando uma personagem com ares de Indiana Jones.

Porém tudo isso cai por terra rapidamente quando o roteiro (escrito por Michael Green, Glenn Ficarra e John Requa) esquece dessa característica de Lily e faz dela uma personagem assustada, que muda de personalidade quando a aventura realmente começa. Blunt até tenta continuar com uma boa atuação, mas é difícil chegar ao final do filme sem imaginar que a própria atriz deve ter se decepcionado com algumas cenas como, por exemplo, quando é constantemente salva pelo personagem de The Rock. O ator, aliás, é um dos poucos que vai bem na maior parte do filme: por mais absurda que seja a trama, o olhar marcante de Johnson faz o público acreditar por alguns segundos que Jungle Cruise pode valer a pena – apenas para depois a produção criar reviravoltas e resoluções sem sentido.

Este é o maior problema de todo o filme: em prol de criar uma “trama de aventura sem pretensão”, não há um cuidado na construção de mundo, de uma forma que o público embarque realmente no que está acontecendo. A todo momento, Jungle Cruise pede por uma suspensão de descrença que ele mesmo não ajudou a construir, e o resultado é uma experiência esquecível, que não tem uma mensagem, tampouco entrega diversão. Nem todo filme precisa ter uma história profunda (ainda bem), mas quando nem a ação, nem a diversão entregam bons momentos, o resultado é uma produção com pouco a oferecer.

The Rock, Emily Blunt e Jack Whitehall em cena

Outro ponto que precisa ser citado é McGregor, alardeado pelo estúdio como o “primeiro personagem assumidamente gay” da história da Disney. Se o objetivo era representatividade, o que Jungle Cruise mostrou foi um personagem caricato e artificial, que lembra as representações LGBTQIA+ das novelas brasileiras no início dos anos 2000. Há apenas um momento do filme em que McGregor fala sobre seus sentimentos, e Jack Whitehall até entrega uma boa cena ao lado de Johnson, apenas para alguns minutos depois estar com os olhos arregalados correndo de alguma coisa. Ao ter uma história situada na floresta amazônica, Jungle Cruise também erra a mão em algo crucial: a construção deste lugar tão importante. Tudo parece falso e criado em estúdio (como com certeza foi) e os efeitos visuais são perceptíveis em diversos momentos. Essa artificialidade se estende também para a representação dos povos originários da Amazônia, de uma forma que chega a incomodar quem é brasileiro.

Há raros momentos em que Jungle Cruise consegue arrancar uma risada, e o mérito disso é pela atuação de Emily Blunt e Dwayne Johnson, que combinam muito em cena – embora o romance forçado entre os dois seja difícil de engolir. Com tantos elementos interessantes para explorar, Jungle Cruise perdeu a oportunidade de ser, de fato, a aventura trivial que gostaria de ser. Até o cineasta mais novato (que não é o caso aqui) precisa entender que diversão não é sinônimo de falta de qualidade.

Ficha técnica

Título: Jungle Cruise

Direção: Jaume Collet-Serra

Ano: 2021

Data de lançamento: 30 de julho de 2021 (Disney+ e cinemas)

Duração: 129 minutos

Sinopse: Capitão de um barco que percorre a floresta amazônica, Frank é contratado pela exploradora Lily e seu irmão, McGregor, para uma expedição com o objetivo de encontrar um misterioso segredo.

Jungle Cruise está em cartaz nos cinemas e disponível no Disney+ pelo Premier Access.

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sobre o autor Camila Sousa

Jornalista por formação e nerd por natureza. Fã de diversos mundos fantásticos por aí e criadora do podcast Podcakes | @cakes_sousa no Twitter e Instagram