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[CRÍTICA] Host é uma perfeita construção de medo e pavor

Por Gus Fiaux

As salas de cinema podem ter se fechado em 2020 devido à pandemia do Coronavírus, mas os filmes continuaram a todo vapor, com lançamentos no streaming e em outras mídias digitais. E nesse tempo, muitos artistas perceberam o potencial de criação de uma era tão sombria na história da humanidade, especialmente quando mencionamos o horror. Dessa forma, nasceu Host.

O filme foi lançado originalmente em julho de 2020, através do Shudder, um serviço especializado em terror e seus subgêneros, que infelizmente não está disponível no Brasil. E após tanto falatório, Host finalmente chegou ao catálogo da Netflix brasileira. Pensando nisso, resolvemos falar um pouco do que achamos do filme de horror que redefiniu os medos da pandemia.

Host, sucesso da Shudder, finalmente chegou à Netflix brasileira.

Ficha Técnica

Título: Host

 

Título alternativo: Cuidado Com Quem Chama

 

Direção: Rob Savage

 

Roteiro: Rob Savage, Gemma Hurley e Jed Shepherd

 

Ano: 2020

 

Data de lançamento: 8 de fevereiro (Netflix Brasil)

 

Duração: 56 minutos

 

Sinopse: Seis amigas contratam uma médium para realizar uma sessão espírita durante a quarentena, através de uma reunião no Zoom. Mas elas logo percebem que chamaram algo maligno, conforme as coisas começam a dar muito errado.

O filme inteiro se passa em uma reunião no Zoom.

Host é uma perfeita construção de medo e pavor

As perspectivas esperançosas de futuro nos alcançaram, graças às vacinas e ao notório combate ao Coronavírus em diversas partes do mundo (não que seja bem o caso no nosso país), mas há um ano, todos nós estávamos reféns de um pavor muito intrínseco da humanidade. Quarentena, isolamento social, todas medidas de segurança mais que necessárias, mas que também acabaram cobrando o preço de nossa própria sanidade e saúde mental. E foi desse sentimento que nasceu Host. 

O longa britânico dirigido por Rob Savage foi lançado sem muito alarde, ainda que a ideia de um filme de horror produzido e exibido durante a pandemia tenha chamado a atenção de vários. Poucos dias depois de sua estreia no catálogo do Shudder, o filme virou um verdadeiro fenômeno, com críticos aclamando o trabalho de direção, assim como a construção de tensão e medo criada ao longo de apenas 56 minutos de duração. Nascia um verdadeiro sucesso.

E não parou por aí. O longa ganhou reconhecimento internacional, alcançando até os países onde o Shudder não estava disponível. No Brasil, a estreia demorou (ainda que alguns sites já tivessem anunciado a chegada do filme ao país, sob o título medonho de Cuidado Com Quem Chama). Porém, somente em 8 de fevereiro deste ano, tivemos o lançamento através da Netflix (onde, podem respirar aliviados, continua como Host).

Mas o que colaborou para o sucesso de um filme tão peculiar? Teria sido a própria pandemia e a escassez de títulos lançados no mercado? Suas qualidades são tão nítidas assim ou partem apenas da necessidade da população e dos fãs de horror por algum conteúdo que aborde os medos do isolamento? Bem, isso obviamente influenciou, mas é impossível dizer que o filme não tenha lá sua boa dose de méritos próprios – méritos esses que inclusive devem influenciar uma leva de filmes que ainda estão por vir.

Longa surpreende pela sua afiada direção.

A premissa é bem simples. Um grupo com cinco amigas e um amigo – Haley, Jemma, Radina, Emma, Caroline Teddy – se reúnem em uma chamada no Zoom, serviço de reuniões virtuais que ficou bem popular no ano passado. Eles então contratam os serviços de Seylan, uma médium que irá auxiliá-los a se contatar com o além em uma breve sessão espírita. Era para ser apenas uma brincadeira inofensiva, um evento para que possam se desestressar do cotidiano. Mas tudo muda quando invocam algo que não é nem um pouco amigável.

Não é como se nunca tivéssemos visto filmes que se aproveitam da tecnologia de forma metalinguística para contar suas histórias. No campo do suspense e do horror, temos exemplos que vão desde o desastroso Amizade Desfeita ao excepcional Buscando. Entretanto, o que torna Host tão efetivo é saber conciliar o uso da tecnologia com um contexto maior, uma justificativa que percorre cada segundo do filme e nos fornece um retrato de 2020 melhor do que qualquer cinebiografia meia-boca que definitivamente será feita para angariar alguns prêmios em edições futuras do Oscar.

E ainda nesse sentido, é imprescindível falar da direção de Rob Savage. Mesmo que seu currículo seja reduzido, o diretor se mostra muito eficiente na hora de compor e criar tensão, além de possuir um domínio assustador de seu elenco e da encenação. Afinal de contas, o longa às vezes possui até sete cenários simultâneos, que precisam conversar entre si. Isso, por si só, já é um assombro. Saber que tudo isso de fato foi gravado em computadores normais, através de uma reunião do Zoom, é algo que nos leva a outro patamar.

Em termos de roteiro, a simplicidade não falha. Em vez de um clímax mirabolante ou explicações forçadas para o que está acontecendo ao grupo (como é o caso do já citado Amizade Desfeita), o filme opta por seguir rumos menos complexos e focar no medo sentido pelas personagens e, consequentemente, pelo público. Todas as atrizes e atores do filme estão excelentes nesse sentido, por conseguirem passar uma naturalidade que era exatamente o que o longa pedia.

Imagens aterrorizantes e ótimos sustos justificam o sucesso do filme.

Claro que existem clichês e convenções de gênero aqui e ali. Algumas incomodam, tal como decisões idiotas tomadas por certos personagens, ou até mesmo o final abrupto que puxa o jump scare mais fraco do filme. Apesar disso, Host não deve em nada a qualquer outro filme de estúdio multimilionário que comete os mesmos deslizes e ganha muito mais visibilidade.

E mesmo com esses defeitos, o longa acerta em detalhes infinitamente mais precisos. O uso de filtros, de fundos interativos e até mesmo da perspectiva de uma webcam são elementos magistrais, que tornam o curto longa ainda mais efetivo em sua proposta. Nos colocamos no lugar dos personagens e vemos como eles são reais, o que até humaniza todos os traumas e medos que eles conseguem passar.

Jump scares são bem colocados, mas a atmosfera impera, criando um senso de perigo que espreita a cada canto em cada uma das telinhas – e isso é até incorporado na obra, já que várias vezes nos pegamos prestando atenção em algo quando há outro elemento importante acontecendo em outro lugar. Enfim, poderia passar mais horas falando sobre como o filme é de um esmero e ousadia invejáveis, ainda que seja muito simples em premissa e proposta.

Host é o filme de terror definitivo da pandemia. Perfeito para quem gosta de bons sustos e boas atuações, além de dizer muito sobre o momento que vivemos. É um baita lançamento para o diretor Rob Savage e um ótimo exercício de construção de medo e de pavor. Se ainda duvida disso, assista com a mente aberta (preferencialmente à noite, com as luzes desligadas), afinal de contas… o que poderia acontecer de tão ruim em uma curta chamada de Zoom com os amigos?

Host está disponível na Netflix.

Abaixo, relembre os 10 melhores filmes de terror de 2020 (incluindo Host):

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sobre o autor Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Crítico, roteirista e mago nas horas vagas. Wouldst thou like to live deliciously? || @gus_fiaux