Por que os filmes de Natal são tão populares?

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Por que os filmes de Natal são tão populares?

Por Junno Sena

Uma garota bonita. Um rapaz arrogante. Os dois trabalham juntos em uma loja de presentes e não se suportam. Mas em toda boa história existe um porém —, sem saberem, trocam mensagens um com o outro. E toda a tensão do trabalho somada ao clima romântico das cartas termina com os dois tendo que passar a véspera de Natal na loja de presentes. Familiar, não é mesmo?

E isso não é bem novidade. Quando falamos de filmes natalinos, a fórmula é tão batida quanto a origem dos poderes de alguns heróis. Mas, a sinopse acima é do filme de 1940, The Shop Around the Corner. Protagonizado por Margaret Sullavan e James Stewart, o longa tem aquele sabor do cinema de Natal contemporâneo. Desde um ódio fora de proporção entre dois personagem até o milagre de Natal seguido de uma conclusão romântica. Mas, a pergunta não recai sobre o filme, mas por que essas narrativas são tão populares?

Hallmark e sua febre natalina

Se, em um primeiro momento, a resposta parece se resumir a marketing e publicidade, o motivo desse estilo de filme ser produzido e fazer sucesso é bem mais complexo. E, aparentemente, o que melhor compreendeu essa mina de ouro foi o canal americano Hallmark. Nascido de uma emissora religiosa, o canal mudou algumas vezes de nome, mas manteve, contudo, sua programação cristã, o conservadorismo e a estrutura tradicional familiar. 

Com uma produção massiva de filmes de Natal, o Hallmark ganhou a terceira maior audiência entre as emissoras de TV a cabo dos EUA em 2017, ficando atrás apenas da ESPN e Fox News. A sua programação não se resume apenas a produções natalinas, mas a atenção que o canal deposita no assunto já virou motivo de meme nas redes sociais pelo tom repetitivo das suas narrativas e pelos pôsteres de design idêntico.

A estética verde, vermelho e casal dos filmes da Hallmark

No livro Christmas as Religion (Natal como Religião, em tradução livre) de Christopher Deacy, o autor aponta a popularização desse estilo de filme por ele conseguir medir o “quanto queremos viver essa realidade e o quanto nós queremos nos compreender”. Em outras palavras, Deacy entende esses filmes como um olhar escapista e mágico do que poderia ser o Natal. Como quando passamos horas construindo e enfeitando a nossa ilha em Animal Crossing, ou quando se maratona uma série que já viu por que é confortável ou familiar. É tentar encontrar segurança e possibilidade de mudança no lúdico.

“Os filmes excessivamente sentimentais da Hallmark são projetados para não desafiar ou perturbar seus espectadores, que suspendem a descrença para entrar em uma realidade onde as tragédias só acontecem no passado e o equilíbrio emocional é sempre mantido em favor do romance e da alegria do feriado”, disse o site ScreenRant.

Mas, se Deacy acerta em um aspecto dos filmes de Natal, ele deixa de lado outro: propaganda. E não estou falando do sentido prático e mercadológico do assunto, mas do American Way of Life. Não é de hoje que tratamos sobre o assunto e apontamos o problema que foi a disseminação de um estilo perfeito de vida construído nos Estados Unidos. Mas, nos filmes de Natal há uma elaboração visual, estética e narrativa do que é “ser americano”. Historicamente, você pode ver isso em prática no primeiro filme sobre Natal, Santa Claus, feito por George Albert Smith, em 1898.

Entre ser americano e ser conservador

O American Way of Life e o sonho do natal americano

E essa estética munida de um ideal cristão, conversador e heteronormativo. Uma prova disso é que apenas em 2020 a Hallmark produziu um filme com um casal gay e depois, em 2021, a Netflix fez o mesmo. Outro exemplo é como a maioria dessas produções se aprofundam em relacionamentos que buscam algum tipo de redenção ou afastamento da vida na cidade grande.

Vemos isso quando Ben Affleck contrata uma família para viver o sonho natalino em Sobrevivendo ao Natal ou quando Nina Dobrev viaja até a Costa Leste com a promessa de um amor descomplicado em Um Match Surpresa. Nessas histórias, existe algo quase diabólico e maléfico na cidade ou, pelo menos, na vida agitada e corporativista que ela apresenta. Ela é sobre concorrência, ser solteiro e juventude.

Enquanto o Natal é sobre simplicidade. Em um primeiro momento, a festa sazonal era mergulhada no cristianismo, mas foi resgatada na era vitoriana, com o objetivo de celebrar a família e a caridade. Esses valores ficam evidentes no conto do Sr. Scrooge. Quase sem nenhuma menção a bíblia ou a Jesus nesse estilo de cinema, os bons costumes cristões ficam nas entrelinhas.

Em escolher entre o rapaz rico ou o amor verdadeiro; entre passar o feriado ao lado da família ou voltar para o trabalho. A tradição fica escondida no enredo dos filmes, mas também nos 110 anos que o nome Hallmark existe, uma vez que estão produzindo cartões comemorativos desde 1910, se tornando a empresa mais antiga dos EUA no ramo.

Todas essas festividades tomaram proporções ainda maiores, uma vez que conseguiram se infiltrar em outras culturas. Seja no Brasil com pinheiros sintéticos e filmes com Leandro Hassum até no Japão com especiais natalinos de anime slice of life e animações como Tokyo Godfathers. Comemorar o Natal, seja religiosamente ou não, se tornou a “regra”.

Cena do filme Tokyo Godfathers (2003)

Novos começos

E se isso não explica a popularidade geral desse cinema, sempre tem o olhar escapista que Deacy sugere. Não é mentira que, ao olharmos para esses filmes, o mais bobos e infantis que possam parecer, eles também guardam algum tipo de esperança de mudança. Uma vez que eles explodem no final de um ciclo, isto é, no final do ano.

De alguma forma, eles procuram construir uma narrativa de novos começos em um momento em que todos estão cansados de continuar tentando por estarem exaustos com o resto do ano. Porém, essa possibilidade de recomeço não é algo que parece atingir todos os públicos. Ou pelo menos a indústria tem tentado mudar isso.

Mesmo que os filmes da Netflix, Hallmark e outras produtoras procurem um alívio em meio ao caos do fim do ano, o público que eles tentam atingir é muito segmentado. Até mesmo na produção brasileira, Tudo Bem no Natal que Vem, vemos um elenco majoritariamente branco, uma família tradicional e uma classe social média alta.

Imagem de Um Match de Natal, disponível na Netflix

Em outros casos, é difícil encontrar uma personagem negra em um filme de Natal. E quando é encontrada, na maioria das vezes, optam por personagens com cabelo liso, por exemplo. Sem contar os romances, que como já foi dito anteriormente, é focado em núcleos heteronormativos.

É verdade que a situação tem mudado, com Um Crush para o Natal da Netflix e também Happiest Season com a Kristen Stewart, mas ambos são adições bem recentes ao grande catálogo chamado “Filmes de Natal”. Isso em comparação a 40 filmes de Natal lançados em 2020 pela Hallmark Channel. Se a questão inicial é sobre por que existem tantas produções genéricas sobre o tema e por que nos tornamos tão fascinados em ver diversas Vanessas Hudgens no Natal, ela nos leva a: Por que ainda parecemos tão conservadores sobre o tema?

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sobre o autor Junno Sena

Pós graduando em Antropologia com o raio problematizador ligado no 120. Assiste filme trash para relaxar e dorme cantarolando a trilha sonora de A Hora do Pesadelo. Blaxploitation na veia e cinema coreano no coração. Atualmente mora em Petrópolis, RJ.