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Fantaspoa: Entrevistamos João Fleck, criador do Festival de Cinema Fantástico nacional

Por Gus Fiaux

Criado em 2005, o Festival Internacional de Cinema Fantástico de Porto Alegre – o popular Fantaspoa – é um dos maiores meios de divulgação de filmes de gênero no América Latina. Em suas dezesseis edições, milhares de produções foram exibidas, entre curtas e longas-metragens, alcançando um prestígio não apenas no Brasil, mas em todo o mundo. Agora, estamos prestes a receber a 17ª edição do Fantaspoa, e, para celebrar, entrevistamos João Pedro Fleck, um dos fundadores e curadores do evento.

Fleck é produtor e já trabalhou na produção de vários filmes de gênero fantástico no Brasil, o que engloba produções de horror, fantasia e até ficção científica. Desde o ano passado, ele tem experimentado uma dinâmica bem diferente com a realização do Fantaspoa, devido à pandemia do Coronavírus. O festival foi levado para o meio online, com transmissão gratuita dos filmes a partir da plataforma de streaming nacional Darkflix.

Nicolas Tonsho (esq.) e João Pedro Fleck (dir.), organizadores do evento.

Ao ser questionado sobre a 17ª edição do evento – que acontece dos dias 9 a 18 de abril , Fleck falou sobre como a experiência está sendo bem interessante. A edição do ano passado havia sido planejada como um evento presencial, mas teve que ser remodelada para o streaming. Porém, neste ano, toda a edição já foi pensada para o meio virtual, o que trouxe novos desafios e aventuras:

“É um evento muito feito para o público, é o diferencial do nosso festival. A gente tem uma curadoria muito dedicada e o que sempre buscamos é ter filmes que as pessoas queiram ver. Foi uma quebra muito grande pra muita gente, essa questão da pandemia. Para um festival de cinema como o nosso, nos deixou completamente sem chão, sabe? Aí a gente analisou muito como fazer e a gente conseguiu ser muito rápido e proativo e adaptar o festival de 2020. A grande diferença para 2021 é que a gente concebeu o festival online desde o primeiro momento, quando a gente fez a convocatória, a gente não fez para um festival físico, como era 2020. A gente fez uma convocação para um festival online, o que muda toda a estrutura do evento.”

João Fleck também falou um pouco sobre a experiência com a edição virtual e como o público está reagindo a isso. Ele citou um dado oficial da Associação dos Exibidores, de que o público das salas de cinema caiu cerca de 79% em 2020, por conta dos cinemas seram locais de fácil contaminação por Covid-19. Mas segundo ele, essa transição do Fantaspoa para a Darkflix gerou um interesse maior no evento:

 “A gente tinha, até 2019, um público que marca ao redor de 10 mil espectadores nas salas, sabe? […] A gente tinha salas que tinham até menos de 100 pessoas. Agora, como a gente tá no meio virtual, recebemos cerca de 67 mil espectadores. Então um crescimento assim seria o equivalente de 6 vezes o público que a gente coloca numa sala.”

Esse número certamente chama atenção e, por conta disso, foi válido questionar se a organização do evento pensa em continuar na internet mesmo após o fim do isolamento, ou talvez criar um modelo híbrido, dividindo salas de cinema e exibições no streaming. Fleck foi direto ao responder que isso pode gerar alguns problemas, sobretudo com os diretores e produtores que enviam seus projetos para o festival:

“A questão híbrida é que gera algumas dificuldades até maiores que o online. Porque assim, quando a gente faz um festival físico, a gente, no Fantaspoa, libera duas ou três exibições de cada filme. Então o público desse filme no país é quem está na sala naquele momento. Quando a gente passa para o festival online, estamos num modus operandi totalmente diferente. A gente tá conseguindo uma liberação pra exibir num formato que se chama free-VOD, que é gratuito durante o festival. É uma permissão exclusiva para o festival exibir nesse formato. A gente não tem muita noção de qual seria a receptividade dos diretores, produtores e distribuidores em liberarem exibições dos mesmos filmes nesses dois formatos. Da nossa parte, a vontade seria total.”

Apesar disso, ele mantem uma expectativa positiva para o futuro, afirmando que adoraria levar parte do evento para o meio virtual, mesmo que não seja algo integral como tem acontecido desde o ano passado: “O que eu acho bem possível é que, em 2022 ou 2023, o Fantaspoa volte a acontecer nas salas de cinema normalmente e a gente consiga levar uma parte do festival, um ou dois terços, toda a programação de curtas e mais alguns longas, para sessões selecionadas na internet“.

Cartaz da 17ª edição do Fantaspoa.

Falando no contexto de pandemia, João falou sobre como isso pode influenciar as produções, sobretudo as que são enviadas para o Fantaspoa. Produtor de Antologia da Pandemia – um longa composto por vários curtas-metragens que refletiam os medos e preocupações iniciais de seus realizadores com a pandemia do novo Coronavírus – Fleck disse que isso ainda não estourou da forma que esperamos, visto que os filmes levam cerca de 18 meses para serem concebidos, escritos, filmados e lançados:

“A maioria das produções que a gente está exibindo ainda não reflete isso porque esses filmes ainda vão chegar. Eu até estou com um pouco de receio  porque são uns filmes que vão começar a chegar no mercado e nos festivais de cinema a partir de julho deste ano. Esses filmes levam cerca de 18 meses entre a concepção até a finalização, então eu acho que a gente vai ver um estouro de produções muito independentes (que a gente chama de ultra-independente),” disse. “É algo que, independente de como seja a situação, acho que a temática vai ser predominante nos festivais de 2022, mas não em 2021.”

Quando questionado sobre o papel do Fantaspoa na divulgação do cinema de gênero fantástico, o organizador trouxe à tona memórias de alguns filmes que marcaram a história do festival. Ele cita Encarnação do Demônio, o último longa-metragem de José Mojica Marins, o nosso eterno Zé do Caixão. Além disso, ele lembra de como o festival foi muito importante na divulgação de um grande nome do horror nacional, Rodrigo Aragão (que retorna este ano ao evento com seu mais novo filme, O Cemitério das Almas Perdidas).

Segundo ele, o evento visa a construção de um mercado cinematográfico autossuficiente para o Brasil:

“O nosso objetivo é sim, exibir filmes, ter uma curadoria super diferenciada, exibir filmes que sejam do gosto do público para que as pessoas continuem voltando interessadas – mas mais do que isso, a gente tem essa preocupação com o desenvolvimento de uma indústria cinematográfica se não sustentável que, no mínimo, consiga se manter mesmo assim, para que existam produções futuras que continuem voltando ao festival.”

Ele ainda explicou a relação carinhosa que nutre por vários dos realizadores que passam pelo Fantaspoa, o que ele declara ser um dos pontos fortes do evento: “A gente tem a criação de um laço com essas pessoas. Muita gente exibe os filmes aqui e continua participando, depois cria parceria de trabalho, depois volta para o festival como um jurado, não é como se o pessoal viesse, exibisse o filme e acabou ali, sabe? A gente tem uma tendência muito forte de conectar as pessoas”. 

O Cemitério das Almas Perdidas, novo filme de Rodrigo Aragão, é um dos lançamentos da 17ª edição do Fantaspoa.

Além disso, ele também falou da importância do Fantaspoa enquanto difusor da necessidade de mais festivais de cinema voltados para gêneros fantásticos no Brasil. Fleck citou dados alarmantes ao dizer que muitos filmes feitos no Brasil acabam sendo engavetados por falta de recursos para distribuição: Mesmo em 2021, lamentavelmente, pelo menos 30% a 50% dos filmes produzidos no Brasil anualmente nunca são vistos por ninguém.”

Porém, Fleck percebe que o Fantaspoa, desde que foi criado em 2005, serviu como pontapé para que outros festivais fossem inaugurados ao redor do país, gerando um interesse muito grande em filmes que normalmente seriam só engavetados e esquecidos:

“Se você procurar agora, em 2021, termos como festivais de cinema de gênero fantástico, festival de horror no Brasil, festival de ficção científica e fantasia, a gente tem pelo menos umas 20 iniciativas acontecendo simultaneamente. Então pensa: quando a gente realizou, não tinha nada e passados 17 anos, não apenas através da gente, mas em parte pela iniciativa do Fantaspoa, se abriram janelas para exibição no Brasil. E essas janelas se espalharam pela América Latina”.

Nesse sentido, ele também mencionou nomes de cineastas de uma “nova geração” que estão podendo apresentar as suas obras ao mundo, como Raphael Borghi (diretor de Desalmados), Armando Fonseca (co-diretor de Skull: A Máscara de Anhangá) e Matheus Marchetti (de O Bosque dos Sonâmbulos e do vindouro Verão Fantasma). Não apenas isso, Fleck também contou como o cineasta argentino Demián Rugna (diretor de Aterrorizados, filme disponível na Netflix) já declarou seu amor ao evento, dizendo que seu objetivo central ao finalizar um longa é poder exibi-lo no Fantaspoa.

“Quando a gente cria um local de exibição que o principal objetivo de um diretor é exibir o filme dele no seu evento, você sabe que fez as coisas muito certo. Porque a pessoa não tá fazendo filme pra ser um produto, ela não tá fazendo pra ganhar dinheiro, isso tudo pode acontecer e isso é o que a gente quer que aconteça. Mas essas pessoas veem efetivamente a participação no Fantaspoa como um dos momentos de maior celebração do filme.”

O organizador ainda deu um recado para o público da Legião dos Heróis, especialmente para quem tem mais interesse de conhecer o Fantaspoa através da sua 17ª edição:

“Para o pessoal da Legião dos Heróis, o que podem fazer é acompanhar as atividades de formação, todas gratuitas. O Festival em si acontece de 9 a 18 de abril. A gente vai estar exibindo um total de 160 filmes, a grande maioria deles exibidos pela primeira vez se não no mundo, pelo menos na América Latina e em território brasileiro, então é um material muito novo, é uma variedade de um total de 40 países.

 

Para quem não conhece o Fantaspoa, poder acompanhar o evento online é a coisa mais bacana que vocês vão poder estar fazendo na vida de vocês nesses dez dias. Além disso, o pessoal pode ficar ligado, a gente vai ter uma festa especial de lançamento no dia 9 de abril, online pelo zoom, para trazer esse envolvimento e essa comunidade que a gente tem no Festival para o evento online.”

A décima sétima edição do Fantaspoa acontece dos dias 9 a 18 de abril, com 160 filmes em cartaz, entre curtas e longas, produções nacionais e internacionais. Todos os filmes estarão disponíveis gratuitamente no Darkflix.

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sobre o autor Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Crítico, roteirista e mago nas horas vagas. Wouldst thou like to live deliciously? || @gus_fiaux