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[Crítica] Eu Me Importo: Drama imperdível da Netflix é ofuscado pelo medo de não agradar

Por Gabriel Mattos

Nossa sociedade cultiva uma crença velada no poder do esforço. Aprendemos desde cedo que, se trabalharmos sem parar, conquistaremos nossos objetivos. Mas será que em mundo tão complexo quanto o nosso isso é mesmo verdade? Eu Me Importo, o novo drama da Netflix, vem para confrontar com bastante sutileza essa ideia, mas acaba se entregando a um punitivismo incompatível com a mensagem da narrativa.

Rosamund Pike carrega o drama cômico de Eu Me Importo

Ficha Técnica

Título: I Care a Lot

Título alternativo: Eu me importo

Direção: J Blakeson

Roteiro: J Blakeson

Ano: 2020

Data de lançamento: 19 de fevereiro (Netflix Brasil)

Duração: 119 minutos

Sinopse: Uma golpista extorque o dinheiro de inúmeros idosos até se envolver com uma senhora com ligações muito perigosas.

Ninguém está a salvo da determinação de Marla

Uma mulher nada exemplar

A premissa do filme por si só é bastante original. Marla Grayson é uma respeitada cuidadora de idosos, mas por trás dessa fachada de simpatia se esconde uma verdadeira predadora que rouba todos os pertences de suas vítimas para que apodreçam em um corrupto lar de idosos. Quase um filme de terror, não é mesmo? Mas o mais assustador é que está tudo dentro da lei.

O que torna Marla uma personagem tão interessante é que ela passou tanto tempo triturada pelo sistema capitalista que aprendeu segredos para usar suas instituições contra ele. Ela não é a verdadeira vilã nesta situação. Os problemas são a burocracia inconsequente do sistema judicial e a solidão de uma terceira idade desvalorizada. Ou pelo menos é isso que ela quer que você pense.

Eu Me Importo tem a sacada genial de explorar a perspectiva de uma golpista sem romantizar suas ações. É possível traçar uma lógica minimamente moral em suas ações, mas o público não é encorajado a apoiá-las. Uma abordagem importante para tratar de assuntos socialmente abomináveis.

Rosamund Pike não é flor que se cheire.

O toque especial para nos convencer de que Marla merece o mínimo de simpatia foi a escalação certeira de sua atriz. Quem melhor para interpretar um lobo em pele de cordeiro do que a talentosíssima Rosamund Pike?

Sem nenhum esforço, Rosamund entrega mentiras com o olhar confiante de quem fala a verdade. Enfrenta a fúria de suas vítimas com a tranquilidade desconcertante de quem sabe que irá ganhar. A atriz foi premiada ao interpretar a dissimulada Amy Dunne em Garota Exemplar e está preparada para alcançar o mesmo prestígio com Marla.

Em toda cena, ela dá um show. Todo mundo dança conforme a música de Marla Grayson. Quase como a Wanda em WandaVision, Marla constrói meticulosamente a sua própria realidade. Convence pessoas de que estão loucas no seu ápice de sanidade, mas em sua ganância ela comete um erro imperdoável: mexer com a pessoa errada.

Peter Dinklage é um dos gangsters mais intimidadores da ficção, sem muito esforço.

Caça e Caçador

E essa pessoa é o gangster russo Lunyov, vivido pelo ator Peter Dinklage — o Tyrion Lannister de Game of Thrones.

O roteiro do filme foi construído de modo muito inteligente para não deixar o espectador muito confortável. Sempre que se estabelece um status quo, surge algo ou alguém para destroná-lo. É uma construção elegante que, enquanto reforça o argumento social que o filme arquiteta com capricho, mantém um ritmo de narrativa que vicia sem sobrecarregar.

Isso nunca fica tão evidente quanto no momento em que Lunyov é introduzido. Quando a narrativa começa a se estabilizar com seguidas vitórias de Marla Grayson, surge o personagem de Peter Dinklage para bagunçar as coisas. E quem assistiu outros trabalhos do ator sabe exatamente o que esperar: uma atuação certeira e cheia de intensidade.

Ele tem uma presença de palco quase que oposta à de Rosamund Pike. Enquanto ela parece contida e calculista, ele traz um olhar insano, pronto a estourar de fúria a qualquer momento. Quando os dois contracenam é impossível tirar o olho da tela. É uma dinâmica envolvente de dominação alternativa que te deixa ansioso para descobrir como eles irão se superar.

A sinergia de Rosemund Pike e Peter Dinklage é surreal

Apesar dessa doce perseguição, fica nítido que o olhar do filme tem os seus preferidos. Há uma tentativa nada discreta de estabelecer uma relação de empatia muito maior com Lunyov. Fica subentendido que ele supera Marla nas atrocidades, mas por ser construído como uma pessoa muito emocional, somos levados a diminuir os seus erros.

Esse é um dos diversos momentos que o filme se arma da nossa empatia para questionar o relativismo da moralidade, um ponto muito presente ao longo do filme. Afinal, a lógica do capitalismo recompensa atitudes cada vez menos morais, como as de Marla, mas enaltece atitudes emocionais, como as de Lunyov.

Medo de incomodar

Ao longo de quase duas horas de filme, as situações cada vez mais ridículas e inescrupulosas que Marla se submete para ganhar na vida parecem tecer uma clara crítica à ideia de meritocracia.

Tudo é permitido no jogo da meritocracia.

O diretor parece dedicado a usar o argumento lógico de “Reductio ad absurdum” — que é um termo almofadinha para redução ao absurdo. Ele se propõe a explorar uma hipótese até suas consequências mais extremas para convencer o público que essa ideia não tem nenhum cabimento e, até os minutos finais, estava quase conseguindo.

Quando Marla afirma que tudo que alguém precisa para obter sucesso é “muito trabalho, coragem e determinação para nunca desistir”, sabemos que ela está mentindo. Sabemos todas as atrocidades imorais que ela fez para alcançar sucesso. Ela está caçoando do sistema que permite que pessoas como ela existam. E esse teria sido o desfecho perfeito para uma narrativa torta.

Entretanto, o filme não termina aí. Não teria sido um final que agrada a todos. Então roteirista se esforça para incluir um desfecho palatável para uma sociedade punitivista. O bem precisa vencer no final. Chega a parecer infantil depois de um argumento tão refinado.

A impressão que fica é que J Blakeson tentou amenizar sua mensagem para ficar mais agradável às grandes premiações. Mas se Parasita mostrou alguma coisa no último Oscar é que é preciso transgredir para poder ganhar.

Atuações sólidas são desperdiçadas por um medo de incomodar do diretor

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sobre o autor Gabriel Mattos

Redator que joga mais Switch do que deveria e já leu todo o novo cânone de Star Wars, até os livros ruins. • @gabeverse