Diablo II Resurrected: Dubladores contam como foi trabalhar com o jogo 

Capa da Publicação

Diablo II Resurrected: Dubladores contam como foi trabalhar com o jogo 

Por Chris Rantin

Lançado no último mês, Diablo II: Resurrected trouxe o retorno do jogo clássico com visuais e efeitos atualizados. Para que tudo ficasse mais interessante, o jogo recebeu uma dublagem impecável feita com grandes nomes como Mario Jorge Andrade e Duda Espinoza, tendo a direção de Christiano Torreão e Marcelo Figueiredo. A Legião dos Heróis foi convidada a bater um papo com essas lendas, que revelaram um pouco dos bastidores da dublagem, os maiores desafios do projeto e como foi participar deste épico.

O desafio de honrar um legado 

Logo de cara, o diretor Marcelo Figueiredo destaca que todo o jogo foi dublado em quase dois meses de trabalho, em um processo que trouxe alguns desafios para a equipe:

“A gente começou o processo de pré-produção por volta de dezembro de 2020. Foi um mês… um mês e meio, quase dois meses para dublar o jogo,” explica. “Dois meses foi um pouquinho puxado, principalmente porque ele foi gravado online [cada dublador na sua casa, por conta da pandemia de Covid-19]. A gravação online tem suas vantagens de logísticas, mas também tem suas desvantagens nesse sentido. Foi um pouquinho puxado mas não foi desconfortável.” 

Apesar da curta janela de tempo, Figueiredo conta que ainda foi possível respeitar o limite dos atores envolvidos no projeto, garantindo que eles não forçassem muito suas vozes e conseguissem descansar após algumas horas de gravações — o que resultou em um trabalho de altíssima qualidade. 

Lançado em 2000, o legado de Diablo II foi um desafio durante a dublagem de Resurrected

Mas além da corrida contra o tempo, houve outro desafio que pairou sobre a dublagem a remasterização de Diablo II: O legado do game. O jogo foi lançado originalmente em 2000, sendo o segundo capítulo de uma franquia que, posteriormente, se tornaria um dos grande nomes do mundo dos games. Trabalhar em um projeto tão grandioso, exigiu cuidado e pesquisa por parte dos envolvidos.

“No aspecto da produção, você tem uma pesquisa a ser feita e tu precisa ser fiel a história, a origem de uma história que já existe, não apenas a narrativa do jogo em si, mas também a história do jogo em um contexto como um todo,” revela Figueiredo. “Então isso influencia uma série de coisas. Até mesmo o casting [dos dubladores], porque você acaba buscando um certo escopo de atores que já participaram de jogos posteriores da franquia.”

O também diretor Christiano Torreão concorda com isso, ressaltando que o fato de Diablo III já contar com a dublagem brasileira pesou no projeto de Resurrected

“Diablo II já vem carregado de uma história,” conta. “O Diablo III já saiu antes do Diablo II, que não tinha essa dublagem, então corresponder essa expectativa do resultado era uma responsabilidade nesse produto. Nós tínhamos que fazer a dublagem ser num nível Triple-A [de altíssima qualidade] com os melhores e buscar as melhores vozes. E a Blizzard foi fundamental nisso também. Além de nos dar autonomia nos aconselhou e nos guiou nesse processo de escolha das vozes.”

Torreão adiciona que, ao longo de todo o processo da dublagem, houve esse peso de criar algo compatível com a qualidade de Diablo III, mas também trazer uma localização brasileira ao jogo lançado 21 anos atrás: 

“Manter essa identidade, essa unidade em trabalhos tão diferentes, feitos com um intervalo de tempo tão grandes, isso foi um desafio. E eu espero e acredito que tenha sido bem legal,” continua o diretor. “Trabalhamos seriamente para que o jogador tivesse essa experiência da imersão e se sentisse feliz neste universo do Diablo II.”

As diferenças de um jogo para um filme

O processo de dublagem de um jogo é muito diferente de um filme!

Comentando sobre o processo da dublagem de Diablo II: Resurrected, Torreão afirma que dublar um game é muito diferente do que rola em um filme ou série. Além de serem mais demorados, os jogos costumam trazer uma resposta mais intensa do público, visto que eles preferem os produtos dublados para aumentar a imersão na história.  

“É diferente você trabalhar em um projeto de jogo e trabalhar em um projeto de filme. São dois trabalhos bem distintos. Primeiro que o jogo demora muito tempo pra sair,” justifica. “E quando esse jogo lança, o feedback é de um público completamente diferente. Obviamente que os nerds gostam de assistir as séries e filmes e eles também jogam. Mas são dois públicos que analisam a questão [da dublagem] de uma maneira totalmente diferente.” 

Ele continua: “O jogo bem dublado, quando isso é feito com o cuidado necessário para que as vozes complemente a experiência, isso sim é o diferencial. E nos filmes é um ritmo e um mercado muito mais dinâmico.”

Duda Espinoza, marcado como a voz mais recente do Capitão América nos filmes da Marvel, gostou muito do seu trabalho com Diablo II: Resurrected, onde dá voz ao Narrador e ao Greiz. Segundo o ator, sendo uma experiência diferente dos filmes e séries, dublar jogos faz com que ele relembre seu passado no rádio teatro, tendo mais liberdade para atuar e explorar seus personagens.  

“Apesar de você ter a referência do original durante o ensaio, você tem um tempo diferente da dublagem. Até porque geralmente são áudios que não tem labial  [ou seja, a necessidade de encaixar as palavras na movimentação da boca], então você fica mais a vontade. O ficar mais a vontade também me deixa mais livre como ator. Posso ir no meu ritmo e criar um pouco mais,” destaca Espinoza. “A dublagem, especificamente, te dá uma referência de um ator, então você tem que fazer isso muito parecido em tudo, até mesmo nas reações que ele faz. Isso não deixa de ser diferente no game, mas eu particularmente acho o game… Eu me sinto um pouco mais a vontade.” 

Famoso por seu trabalho como dublador e diretor de dublagem, Mario Jorge Andrade ficou conhecido como a voz do Eddie Murphy, um dos seus trabalhos mais elogiados. Em Diablo, ele dá a voz ao Marius e ressalta que um jogo apresenta suas próprias dificuldades. 

“Eu acho que são dificuldades diferentes. Os dois são muito difíceis,” dispara. “Eu concordo com o Duda, quando ele fala que você tem uma chance maior de usar o seu lado ator. Na dublagem você tem que fazer bem feito o que alguém já fez. Não que o game seja algo que ninguém fez, mas é diferente. Você sente algo diferente.” 

O trabalho dos dubladores

Marius, o personagem dublado por Andrade

Ao auge dos seus 69 anos, Mario Jorge Andrade precisou forçar a garganta para trazer a aspereza e vulnerabilidade de Marius, um personagem idoso e assombrado pelo passado. 

“Eu estava fazendo uma pessoa que é muito diferente de mim, muito fora da minha caixinha. Apesar de eu ser velho, ter meus 69 anos, a minha voz não acompanhou minha idade. Eu tive mais dificuldade para chegar até o velho. Mas isso no game, você tem mais chances de criar. O tempo do game é melhor, você faz com mais calma e com mais cuidado,” revela.  

O dublador conta que chegou a se surpreender com o resultado do seu trabalho, vendo como sua voz mudou:

“Eu levei um susto. Nos primeiros dois minutos [que vi o trabalho pronto] eu perguntei: ‘sou eu mesmo?’ Eu juro que cheguei a falar isso com o Christiano. Eu tive a sensação de que tinha alguma coisa ali que não era eu,” conta. “Alguma coisa me tirou da zona de conforto.”

Ainda sobre os desafios, Andrade avalia que, na sua profissão, não há como definir quais partes foram mais fáceis ou difíceis:

“Esse personagem exigiu demais de mim. Acho que não tem isso de algo ser mais difícil ou mais fácil. É muito o momento… Tudo é difícil, na verdade. Se você for um grande trabalho, isso é difícil,” disse. “Acho que todos são difíceis. Na minha opinião tudo o que eu faço usando minha voz é difícil.

Duda Espinoza, sentiu que seu trabalho em Resurrected foi amigável, ainda que exigisse certos cuidados para que ele preservasse sua voz: “Nesse jogo foi bem tranquilo. O anterior também, porque eu fiz o Arcanista no Diablo III, e lá era minha voz normal. Nesse eu fiz o Narrador e esse outro personagem, que teve uma voz mais rasgada, o que é um perigo de você machucar sua voz.” 

Indo com calma e respeitando sua garganta, o dublador conseguiu passar pelo personagem sem maiores problemas. “O desafio nesse [jogo] foi muito mais sereno e tranquilo,” afirma.

No fim, apesar dos desafios enfrentados, Andrade é direto ao exaltar o projeto incrível que foi Diablo II: Resurrected: “Pra mim foi genial. Eu achei genial como [o jogo] foi trabalhado. Achei genial o personagem. Achei genial tudo que foi feito.”

Diablo II: Resurrected já está disponível para Xbox One, Xbox Series X/S, PlayStation 4, PlayStation 5, Nintendo Switch e PC.

Fique com:

Imagem de perfil
sobre o autor Chris Rantin

Jornalista • Editor • Mestrando em Comunicação pela UEL • Instagram e Twitter: @Chris_Rantin • "Eu sou o fogo e a vida encarnados. Agora e para sempre eu sou a Fênix!"