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[CRÍTICA] WandaVision lança um feitiço renovador para o Universo Marvel

Por Gus Fiaux

Atenção: Alerta de Spoilers!

Na última sexta-feira (05), foi ao ar o último episódio de WandaVision, concretizando assim a primeira série do Universo Cinematográfico da Marvel a ser exibida no Disney+. Na história, somos jogados na “vida perfeita” de Wanda Maximoff e do Visão, enquanto eles tentam passar por um casal comum na vizinhança suburbana de Westview, mas as coisas logo começam a ficar tensas e misteriosas.

A série é o projeto mais peculiar e estranho da Marvel Studios nos últimos anos, combinando as cenas de ação que conhecemos e amamos com uma estética que homenageia os sitcoms mais populares da televisão norte-americana. Mas tudo isso é fachada para uma densa história envolvendo luto, aceitação e descoberta. Aqui, você pode conferir a nossa crítica de WandaVision!

Ficha Técnica

Título: WandaVision

 

Criação: Jac Schaeffer

 

Direção: Matt Shakman

 

Ano: 2021

 

Número de episódios: 9

 

Sinopse: Wanda Maximoff e Visão, dois seres superpoderosos vivendo vidas cotidianas no subúrbio, começam a suspeitar que as coisas não são exatamente o que parecem ser…

WandaVision lança um feitiço renovador para o Universo Marvel!

Quando a Marvel Studios anunciou a produção de várias séries originais para o Disney+, os fãs ficaram curiosos e empolgados com o que viria em diante. Se, por um lado, havia a possibilidade de explorar personagens que nunca tiveram muito destaque nos cinemas com um maior tempo de tela, muitos também acreditavam que a “fórmula” do estúdio poderia se desgastar facilmente em uma narrativa de cinco a seis horas.

Entre atrasos, adiamentos e futuros incertos, WandaVision abriu alas nessa iniciativa. E seja por uma decisão de cima da Disney ou por um acaso do destino, não podia ser uma escolha melhor, tanto para a série em si quanto para a longevidade da expectativa das séries que estão por vir. Em seus primeiros episódios, a trama já se provava bizarra, esquisita e estranha, enquanto éramos jogados em um universo que nada se parecia com aquele que já conhecemos.

Para situar os perdidos (mas saibam que a crítica conterá spoilers, caso ainda não tenha visto), WandaVision segue a vida de Wanda Maximoff e do Visão. Os dois são um casal exemplar que se mudam para o subúrbio, enquanto vivem o sonho americano à máxima potência. Eles precisam esconder seus poderes, mas contam com vizinhos bem divertidos e simpáticos. E ainda assim, os problemas e os mistérios os encontram.

Essa premissa parece ser bem básica e não dá muitos detalhes da história. O que temos nos primeiros capítulos, no entanto, é uma completa desconstrução do “gênero dos super-heróis”, conforme transitamos no esquisito limiar entre a comédia sitcom, o suspense, o drama familiar e até alguns leves toques de horror. A realidade perfeita de Wanda Maximoff é revelada, e logo percebemos como a heroína está processando seu próprio luto.

Luto aliás que é o principal tema da série. Ao longo de todos os nove episódios, conseguimos ver a heroína passando por todos os estágios, da negação à aceitação, em uma crescente impressionante. Vindo de uma produção da Marvel, que é bem conhecida por “aliviar” os temas e tramas de seus filmes, é uma construção de personagem surpreendente e madura, que revela com maestria o estado fragilizado de Wanda após Guerra InfinitaUltimato.

E tudo isso só é possível graças ao brilhante trabalho de Elizabeth Olsen. Provando que não deve em nada a outros atores de peso da franquia, ela consegue transitar por uma gama de emoções em um piscar de olhos, transmitindo a veracidade em seu olhar a cada virada dramática. Nos primeiros episódios fica nítido o trabalho de Olsen, sobretudo nas cenas em que algo provoca um “glitch” em sua realidade perfeita.

Porém, a série definitivamente sabe se desconstruir e reconstruir, como bem visto após o quarto episódio. Dali em diante, mesmo o modelo da sitcom ganha novos ares com a introdução do que está acontecendo no “mundo de fora”, através de figuras como Monica Rambeau, Jimmy Woo Darcy Lewis. É aqui que WandaVision poderia ter escorregado e perdido a vista na quantidade de seus personagens, mas isso definitivamente não ocorre.

Os mistérios e segredos continuaram com força semana a semana, levando fãs a criarem milhares de teorias das mais plausíveis às mais absurdas (o que certamente levou a um alto grau de frustrações com os últimos episódios). Ainda assim, WandaVision mostrou a que veio ao não apelar para o megalomaníaco e gigantesco, mas sim por retratar a vida e os dilemas pessoais de Wanda e dos personagens que a cercavam.

Nesse sentido, uma salva de palmas especial para Kathryn Hahn, que surgiu no papel da vizinha enxerida Agnes, mas pouco a pouco foi revelando seu verdadeiro rosto. Quando descobrimos que ela era Agatha Harkness, a série dá outro 180º e se propõe a seguir em outra direção, nos apresentando a uma Feiticeira Escarlate mais próxima aos quadrinhos, colocando-a no rumo da Magia do Caos.

E é bem curioso que a série consiga fazer um estudo de personagem tão dedicado, usando outros personagens para compor a jornada de Wanda. Se pegarmos o próprio Visão, ele não possui um grande arco próprio (mesmo tendo o nome no título da série), mas é essencial na transformação de sua amada. Diga-se de passagem, ele é o protagonista das duas melhores cenas de diálogo da série, que acontecem respectivamente nos episódios 8 e 9.

E mesmo que os elogios sejam fartos, é importante dizer que a série não é perfeita. A começar, há um medo bem nítido em ser tão ousado. Por isso, o quarto episódio (que mostra mais da S.W.O.R.D. e do que acontece do lado de fora de Westview) acaba se saindo como o ponto fraco da temporada, por ser apenas uma exposição mastigadinha que poderia facilmente não estar ali.

Outro ponto digno de debates é o Pietro Maximoff de Evan Peters, que levantou uma série de especulações e teorias por parte dos fãs, que iam desde a exploração do Multiverso à presença de um certo cramunhão conhecido das HQs. E por mais que a série não tenha culpa das expectativas depositadas sobre ela, a conclusão desse enigma em específico passou longe de ser satisfatória, pregando uma peça questionável no público.

De uma forma ou de outra, WandaVision ainda é um projeto muito válido, especialmente para aqueles que dizem aos quatro ventos que “a Marvel sempre faz a mesma coisa”. Se algo foi provado ao longo dos nove episódios é que não é bem assim, e que o estúdio está disposto a encontrar novas narrativas e novas propostas, sem necessariamente retratar super-heróis como o pináculo da bondade, justiça e altruísmo.

E é justamente isso que vemos aqui na jornada da Feiticeira Escarlate: uma heroína fragmentada e quebrantada, que graças aos seus poderes consegue encontrar um “atalho” para livrar-se de toda a dor que sofreu desde a infância. É através disso que a série criada por Jac Schaeffer e dirigida por Matt Shakman (aliás, uma dupla excepcional) consegue mostrar como domina bem essa personagem e toda sua construção dramática.

Que WandaVision seja apenas o começo de uma nova era para o Universo Cinematográfico da MarvelKevin Feige já declarou em entrevistas como o “futuro está no streaming” e podemos ver isso nitidamente nas próximas séries anunciadas. Com sorte, o feitiço lançado por Wanda Maximoff nos mostrará que é possível contar histórias tão boas, complexas e bem-fundamentadas nas próximas produções televisivas da Marvel Studios.

WandaVision está disponível no Disney+, com seus nove episódios.

Abaixo, relembre todas as sitcoms que inspiraram a série:

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sobre o autor Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Crítico, roteirista e mago nas horas vagas. Wouldst thou like to live deliciously? || @gus_fiaux