Crítica: Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis é divertido e cheio de coração

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Crítica: Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis é divertido e cheio de coração

Por Leo Gravena

Estreou nos cinemas, nesta última quinta-feira (2) o mais novo filme da Marvel Studios, Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis. Estrelado por Simu Liu, o longa traz no elenco grandes nomes como Awkwafina, Meng’er Zhang, Fala Chen, Benedict Wong, Michelle Yeoh e Tony Leung.

Produzido pelo Marvel Studios, esse é o vigésimo quinto filme do Universo Cinematográfico da Marvel, apresentando um novo herói que deve possuir uma parte importante no futuro do MCU.

Ficha Técnica:

Título: Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis (Shang-Chi and the Legend of the Ten Rings)

Direção: Destin Daniel Cretton

Roteiro: David Callaham, Destin Daniel Cretton e Andrew Lanham

Data de lançamento: 02 de setembro de 2021

País de origem: Estados Unidos

Duração: 2 horas e 12 minutos

Sinopse: Em Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis, Shang-Chi é um jovem chinês criado por seu pai em reclusão, sendo treinado em artes marciais. Quando ele tem a chance de entrar em contato com o resto do mundo, logo percebe que seu pai não é o humanitário que dizia ser, vendo-se obrigado a se rebelar.

Pôster de Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis

Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis é uma viagem emocional cheia de drama e lutas sensacionais

“É disso que o mundo precisa, outro filme da Marvel!” disse uma pessoa ironicamente em um canto da internet, em uma discussão já esquecida pelo tempo, quando o primeiro trailer de Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis foi divulgado. Por algum motivo esse comentário ficou no fundo da minha mente, não por ele ser importante ou minimamente original, mas por como, agora com 25 filmes, as pessoas ainda criticam e reclamam da tão infame “Fórmula Marvel”.

Clichês e tropos sempre fizeram parte do cinema, mas de uns tempos para cá eles adquiriram um contexto ruim. Ao ler qualquer “crítica” pela vastidão da internet você vai encontrar aqueles que firmemente acreditam que se um filme se utiliza de clichês, então ele é ruim, ele não é original e não pode ser bom… Bobagem. Se algo é um clichê, é porque funciona em várias narrativas diferentes – ou Agatha Christie deveria ter deixado de escrever seus mistérios e focado apenas em romances e comédias após escrever três livros nos quais um detetive investiga um assassinato, possui vários suspeitos e temos uma grande reviravolta no final?

Se você é do tipo de pessoa que acredita que um clichê é a pior coisa que um filme pode fazer, que tudo tem que ser original e algo jamais pensado antes na história da humanidade (o que bem, sinto lhe informar, é praticamente impossível nesse ponto), Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis não é para você. O novo filme da Marvel, de maneira nada surpreendente, segue sim a fórmula estabelecida em todos os títulos anteriores do estúdio. Mas o longa também consegue ser muito, muito mais do que isso.

Simu Liu interpreta Shang-Chi no novo filme da Marvel

No filme, o que vemos é um festival de tropos e referências a produções orientais, desde o Wuxia e Xianxia até os filmes de Jackie Chan, passando por diferentes tipos de lutas, cenários e muita fantasia. As principais referências, certamente, são “O Clã das Adagas Voadoras” e “O Tigre e o Dragão”, não apenas nos momentos em que os personagens estão lutando, mas também nas histórias e no drama familiar que movimenta toda a trama.

Mas antes de falar do drama, é importante lembrar que estamos falando de Shang-Chi, o “Mestre do Kung-Fu” nos quadrinhos da Marvel, um personagem criado nos anos 70 após a febre de filmes e séries sobre Kung-Fu e outros estilos de artes marciais vindos da China e do oriente. Então, sim, o filme é cheio de lutas e coreografias elaboradas, mas elas não estão no filme apenas para serem momentos divertidos nos quais os personagens mostram suas habilidades. Aqui, cada luta conta uma história e possui um motivo claro para estar ali.

Desde o momento em que Shang-Chi (Simu Liu) revela-se para o mundo na luta no ônibus – que inclusive é uma das coreografias mais divertidas do MCU em anos – cada vez que vemos o personagem lutando, existe um motivo muito claro na trama para isso. Não são lutas apenas por lutar.

Outro momento de tirar o fôlego é quando vemos Wenwu (Tony Leung) lutando contra a personagem de Fala Chen, inspirada totalmente nas lutas de filmes Wuxia. A coreografia, as cores, a fotografia da cena e os elementos fantásticos são de tirar o fôlego, a maneira como a luta é mais do que uma luta, quase que como uma dança, pode até afastar aqueles que gostam de ação sombria e violenta, mas aqui casa perfeitamente com a proposta do longa.

Tony-Leung e Fala-Chen protagonizam uma das cenas mais belas de Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis.

Falando em Wenwu, o personagem facilmente entra para o ranque de melhores vilões da Marvel Studios até agora – e o carisma de Tony Leung faz com que pela maior parte do filme você até mesmo se esqueça que ele é um vilão (afinal, ele é o líder de uma das maiores organizações criminosas do mundo). Wenwu é um personagem tão bem construído durante o filme que seria muito fácil não torcer para ele em todos os momentos, isso só não é possível porque Simu Liu consegue trazer um carisma gigantesco para o seu protagonista.

Outro fator interessante é como, claramente, Kevin Feige se “desculpa” por Homem de Ferro 3 e a caracterização de Ben Kingsley como o personagem. Como um filme da Marvel Studios e sendo um grande blockbuster, vez ou outra é aparente os momentos em que interferências do estúdio foram feitas, mas no geral, o filme – e seus melhores momentos – são um mérito do diretor Destin Daniel Cretton, que consegue conciliar muito bem essas demandas do estúdio com sua visão criativa para com a história.

E é aqui que chegamos no ponto em que faz com que esse seja um dos melhores quando falamos de filmes de origem da Marvel: a fantasia abundante e ousada do filme. Em nenhum momento Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis tem medo de ser um filme colorido, cheio de vida, com personagens voando e saltando pelo ar, lutando enquanto flertam e aprendendo a atirar com arco e flecha em apenas um dia.

Quando falamos de fantasia, uma frase muito ouvida é a “suspensão da descrença”, que basicamente ocorre toda vez que você assiste um filme ou série de ficção, ou joga um jogo no qual seu personagem possui habilidades especiais. Sua mente é levada para fora da realidade e você foca apenas no que está acontecendo naquele momento e, na maior parte de Shang-Chi, é exatamente isso o que ocorre.

Os momentos em que a história é completamente fantasiosa e cheia de emoção, drama e exageros, é quando ela está em seu melhor. Nos outros momentos, quando o filme tenta se “passar no mundo real”, para trazer essa conexão mais pessoal com o espectador, ele decai sim sua qualidade; não por ser ruim, mas porque os momentos mais fantasiosos são muito bons.

Xialing (Meng’er Zhang), Shang-Chi (Simu Liu)) e Katy (Awkwafina)

Para trazer mais dessa conexão com a realidade – e também dar um tom cômico que é a marca registrada do Universo Cinematográfico da Marvel – temos Katy, interpretada por Awkwafina, a melhor amiga de Shang-Chi que poderia muito bem ter roubado o filme para si caso Simu Liu não tivesse conseguido acompanhar tão bem a excelente atriz. Os dois atores possuem uma química gigantesca em cena, todos os diálogos entre os personagens é rápido, perspicaz e com muitas nuances, eles passam o sentimento de serem melhores amigos e ao mesmo tempo você consegue ver o carinho presente entre eles.

Outro grande destaque é Xialing, a irmã de Shang-Chi interpretada por Meng’er Zhang. A personagem possui um carisma muito único e consegue ter uma história tão interessante quanto a do seu irmão. A presença em tela de Zhang é sentida sempre que ela aparece e é impossível não torcer para ela, o que torna melhor o fato de que devemos ver mais da personagem no futuro.

A relação entre Shang-Chi, Xialing e Wenwu é excelente e o filme trabalha muito bem o conceito de família e como o luto pode destruir uma pessoa. Em seus momentos mais dramáticos, temos um show vindo de atuação vindo de Tony Leung. Simu Liu não deixa a bola cair e mantém o nível ao lado do ator, provando que consegue variar muito bem entre a comédia e o drama.

Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis é um filme sobre a jornada de um herói aceitando suas origens boas e ruins.

É na batalha final que temos o maior problema de Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis como um filme. Sem dar spoilers, após uma luta emocionante e excelente entre Shang-Chi e seu pai, temos outra batalha, desta vez envolvendo monstros gigantes que, diferente de todos os outros elementos fantasiosos do filme, não funciona. O motivo dela não funcionar tão bem é que claramente isso foi uma das “pequenas exigências” do estúdio e toda a sequência parece deslocada de tudo o que o filme estava fazendo até aquele momento.

No fim, Shang-Chi tem tudo para se tornar um dos heróis mais queridos no futuro da Marvel, principalmente se continuar aparecendo em outras produções – como é o esperado. Simu Liu e Awkwafina são uma dupla com carisma de sobra e podem facilmente carregar uma franquia nas costas, seja lutando lado a lado ou cantando em um karaokê.

Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis traz uma história original e não tem medo de ousar ao trazer elementos diferentes do que estamos acostumados a ver em outros filmes de super-heróis, enquanto mantém os elementos que fizeram do MCU um grande sucesso. Uma ótima fórmula para ser seguida no futuro da Marvel.

Nota: 4,5/5

Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis já está em exibição nos cinemas.

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