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Crítica: Rua do Medo 1978 aprofunda a trama e eleva o nível da violência na trilogia

Por Arthur Eloi

O primeiro projeto de Rua do Medo, trilogia de filmes de terror da Netflix, conquistou com horror adolescente repleto de neon, bom humor e homenagens aos clássicos dos anos 1990, como Pânico (1996). Com os irmãos Deena (Kiana Madeira) e Josh (Benjamin Flores Jr.) em busca de descobrir os segredos macabros da cidade de Shadyside, a trama agora revisita os anos 1970 em capítulo mais sombrio e violento com Rua do Medo 1978.

Após Sam (Olivia Scott Welch), a namorada de Deena, ser possuída pela magia da bruxa Sarah Fier, a jovem e seu irmão vão atrás de C. Berman (Gillian Jacobs, de Community), uma das poucas pessoas a ter sobrevivido a um dos mais estranhos crimes da cidade. Para que as crianças entendam com o que estão lidando, a sobrevivente conta sobre o pesadelo que enfrentou durante as férias de verão de 1978 no Acampamento Nightwing.

Ficha Técnica

Título: Rua do Medo: 1978 – Parte 2
Direção: Leigh Janiak
Roteiro: Zak Olkewicz e Leigh Janiak
Ano: 2021
Data de lançamento: 9 de julho de 2021
Duração: 110 minutos
Sinopse: Na cidade de Shadyside, uma onda de assassinatos aterroriza o Acampamento Nightwing, transformando as férias em uma luta pela sobrevivência.

Acampamento Sinistro

No flashback, onde grande parte do filme se desenrola, a trama acompanha Ziggy (Sadie Sink) e Cindy Berman (Emily Rudd), duas irmãs bastante diferentes entre si: a primeira é mais nova e arteira, enquanto a mais velha é controladora e perfeccionista. Nascidas em Shadyside, ambas querem escapar da cidade, que acreditam ser amaldiçoada, mas com visões opostas sobre como fazer isso. Quando a enfermeira do local tenta atacar um dos jovens monitores, e um assassino em série passa a perseguir as crianças, elas percebem que há sim algo de sobrenatural no local enquanto o acampamento se torna palco para um massacre.

Se a Parte 1 se dedicou a homenagear Pânico e outros filmes da reta final dos slashers, a Parte 2 é uma celebração da era de ouro do subgênero de maníacos, muito forte entre o fim dos anos 1970 e a década de 1980. Em especial, é dedicado aos filmes de Sexta-Feira 13, que emplacaram na mente do público a relação entre acampamentos de verão, adolescentes cheios de hormônios, e assassinos impiedosos. Não é coincidência que a Parte 2 de Rua do Medo tem um serial killer de machado e cabeça ensacada, que nem Sexta-Feira 13 – Parte 2 (1981), a primeira protagonizada pelo icônico Jason Voorhees.

Cuidado com o homem do saco: Rua do Medo 1978 tem sua versão do Jason Voorhees de Sexta-Feira 13 – Parte 2

Olhando para outra era das produções de terror, o filme também muda para acertar o tom das novas influências. Assim, o novo capítulo é mais sério e violento, deixando de lado a ironia do antecessor por inocência, o que faz todo o sentido: os protagonistas de 1994 cresceram com cultura pop e filmes assustadores o bastante para saberem como lidar em situações do tipo. Já os jovens de 1978 estão vivenciando horrores do tipo pela primeira vez, o que dá um gosto mais cruel para a obra, em contraste ao espírito aventuresco da Parte 1. Quando o sangue começa a jorrar, as crianças e adolescentes do acampamento não fazem ideia alguma do como reagir.

E o sangue, de fato, jorra bastante. Além de ter uma atmosfera mais pesada, a continuação dobra a violência, sem medo de colocar seu assassino mascarado para descer a machadada tanto jovens com tesão ou nas crianças desavisadas. Ainda é um pouco decepcionante que as poucas cenas gráficas são feitas com efeitos computadorizados bastante medianos, e aqui também não há nenhuma morte absurda que nem no antecessor, ainda que compense com com mais ataques diretos e decapitações.

Cardápio de Vítimas

Tal qual um slasher clássico, Rua do Medo 1978 é repleto de personagens sem sal. Salvo pelas duas protagonistas e pelo jovem Nick Goode (Ted Sutherland), todo o elenco secundário é apagado ou pouco interessante, como o casal rebelde Alice (Ryan Simpkins) e Arnie (Sam Brooks), ou então a valentona Sheila (Chiara Aurelia), que até lembra a maldosa Judy de Acampamento Sangrento (1983), mas sem a acidez que a tornou tão marcante no clássico.

Vale lembrar que, pelo histórico, é raro que slashers tenham bons personagens secundários. É mais comum elencos compostos por jovens detestáveis que o público torce para que virem logo vítimas do assassino, em um sádico ato de prazer voyeurístico. Os secundários não são tão odiáveis assim, e nem muito dignos de empatia, apenas apagados num geral.

O trio principal é melhor, mas também deixa a desejar quando comparado com o carisma do grupo do antecessor. Como Ziggy, Sadie Sink entrega uma performance muito parecida com a sua Max de Stranger Things, acomodada o bastante para não tentar ir além disso. Já Emily Rudd se sai melhor como Cindy Berman, que passa por uma intensa jornada de patricinha surtada à sobrevivente habilidosa.

Jornada de Cindy Berman é um dos destaques de Rua do Medo 1978

Novos Segredos

Assim como uma série de TV que vai se desenvolvendo ao longo de semanas, é interessante ver como Rua do Medo cresce a cada novo filme, tanto na trama quanto na técnica. A direção de Leigh Janiak já era boa no antecessor, mas aqui ela captura o massacre no acampamento com estilo mais consistente e ágil, em extensas cenas de perseguições. Pela abordagem mais sombria deste capítulo, são necessários mais momentos de tensão e violência gráfica, e a cineasta se mostra afiada, mesmo que ainda não acerte o timing ou a construção dos sustos.

O verdadeiro trunfo da Parte 2 é enfim aprofundar o universo da trilogia. O original gradualmente foi demonstrando que há forças maiores em jogo, com magia sombria sendo a responsável pela tradição de crimes macabros em Shadyside.

Rua do Medo 1666, final da trilogia, promete ser ainda mais sombrio

Além do relato de C. Berman, o flashback ajuda a desenvolver algumas outras figuras notáveis da cidade, como a enfermeira Mary Lane (Jordana Spiro), mãe da serial killer/assombração Ruby Lane (Jordyn DiNatale) que já na década de 1970 suspeitava do poder da bruxa Sarah Fier, e também o xerife Nick Goode (Ashley Zukerman). Como parte do seu ofício, o policial ficou na cola de Deena e Sam na Parte 1, mas entender que ele já viu o poder do oculto de perto ressignifica suas ações no longa anterior, podendo se tornar um aliado valioso ao grupo no futuro.

Rua do Medo 1978 é um pouco menos carismático que seu antecessor, mas altamente divertido e muito mais sombrio ao mostrar um dos maiores massacres da cidade de Shadyside. Ao mesmo tempo que homenageia a ambientação mais marcante dos slashers oitentistas, o filme também expande sua própria mitologia de forma bastante intrigante. Com apenas mais um capítulo pela frente, a conclusão tem muito nas mãos para revelar sobre o pacto de Sarah Fier e a maldição que a bruxa lançou na cidade. Ao que tudo indica, Deena sentirá tudo isso na pele – literalmente.

Nota: 3.5/5

Rua do Medo 1666, o fim da trilogia de terror estreia na Netflix em 16 de julho. Confira também outros filmes de horror que chegam à plataforma no segundo semestre de 2021:

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sobre o autor Arthur Eloi

Repórter entusiasta de filmes ruins, jogos de tiro e de horror em todas as suas formas. Dá notas duvidosas para obras questionáveis • @ArthurEloi117