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Crítica: Mortal Kombat funciona ao abraçar o exagero e ser carregado de fanservice

Por Cristiano Rantin

Mortal Kombat é minha franquia de jogos favorita, algo que acompanho desde que era pequeno com muito carinho e interesse. Por isso, recebi com desconfiança a notícia de que teríamos um novo filme live-action inspirado neste universo. Afinal, mesmo que os filmes da década de 1990 sejam considerados clássicos, vistos com muito afeto pelos fãs que abraçaram toda a cafonice deliciosa que tivemos nestas produções, é uma missão difícil adaptar os jogos para as telonas. Ainda mais agora, depois do reboot de Mortal Kombat 9 que revitalizou a lore deste universo, apresentando uma história mais ou menos coerente para uma nova geração de jogadores, conquistando novos fãs e criando o que, para muitos, já são filmes em forma de game. 

A desconfiança foi redobrada quando a primeira sinopse foi divulgada, prometendo um personagem inédito para a história, ao invés de termos um dos quase 100 kombatentes disponíveis nos 29 anos de cânone dos games. Mas então tivemos as primeiras imagens e ficou inegável o cuidado que a produção teve de se aproximar dos personagens que tanto amamos. Levando tudo isso em consideração, assisti ao filme com um pé atrás, com expectativas moderadas e receio, mas uma imensa curiosidade. Felizmente, fui surpreendido de forma positiva, com uma adaptação que me agradou muito justamente por abraçar todos os erros e acertos da franquia. 

Ficha Técnica 

Título: Mortal Kombat

 

Direção: Simon McQuoid

 

Roteiro: Greg Russo

 

Ano: 2021

 

Data de lançamento: 14 de maio (Netflix Brasil)

 

Duração: 110 minutos

 

Sinopse: O lutador de MMA Cole Young (Lewis Tan), acostumado a ser pago para perder lutas, não imagina que vem uma de linhagem rara — nem que esse é o motivo para ele estar sendo caçado por guerreiros de outro mundo enviados pelo Imperador Shang Tsung. Para proteger sua família, ele embarca numa violenta jornada onde treinará para enfrentar os maiores campeões de combate do universo.

 

Coerente aos jogos

Alguns Kombatentes do filme

Vamos começar pelo básico. Mortal Kombat: O Filme não é perfeito. Muitas escolhas ali são um tanto quanto duvidosas e é possível se frustrar com algumas direções seguidas na história. Isso, no entanto, não tira a sensação de que estamos dentro do universo do jogo. Entre exageros e muita violência, o longa entrega uma história razoável que funciona graças ao carisma do elenco, cuidado no figurino e, é claro, no seu fanservice. 

Assim como no filme de 1995, o reboot possui um roteiro um tanto quanto cafona em alguns momentos, cheio de frases de efeito e motivações pouco profundas ou complexas. Isso pode causar um pouco de incomodo para os fãs que buscavam algo sério e sombrio, mas ele funciona ao reconhecer os absurdos — e bobagens — da franquia de jogos que se sustentou em clichês por muitos anos. 

Os vilões são maldosos porque vilões costumam ser maldosos, os heróis são bonzinhos porque heróis costumam ser bonzinhos. Não há um trabalho muito complexo para apresentar o que faz cada personagem lutar, nem o motivo para eles terem se aliado ao lado pelo qual lutam. Nisto, o filme peca por esperar que os fãs dos jogos preencham essas lacunas e completem a história com o conhecimento que eles já possuem dos jogos, uma vez que muitas informações importantes ficam de fora da adaptação. 

Somando com isso, temos atuações exageradas demais carregada de elementos espalhafatosos, que lembram muito as obras dos anos 1990. Mas é justamente por não se levar tão a sério e não tentar forçar a barra ao arriscar uma história profunda, cheia de metáforas e alegorias, que o filme funciona. O resultado é um espetáculo maravilhoso que parece andar na linha tênue entre o exagero de uma sátira e a tosquice desmedida.

Sei que muitas pessoas esperavam um filme sério para Mortal Kombat, mas aqui é importante lembrar que, nestes quase 30 anos da franquia de games, os jogos sempre abraçaram o exagero e as ideias mais toscas, entregando uma narrativa mergulhada em clichês e violência. Sim, temos sangue e desmembramentos, mas isso não significa que a história dos jogos se leve muito a sério — nem mesmo depois do reboot que tentou corrigir alguns dos erros graves da franquia. Afinal, foi justamente isso que conquistou os fãs nessas três décadas. 

Esperar um roteiro profundo e dramático ou atuações dignas de um Oscar em um filme de Mortal Kombat é um erro. Seria o mesmo que esperar sequências de ação explosivas e megalomaníacas em dramas melancólicos. Isso nunca foi a proposta do projeto, como ficou claro desde o primeiro trailer — e desde o primeiro jogo, diga-se de passagem.

Afinal, estamos falando de uma franquia conhecida por ter policiais enfrentando feiticeiros malignos, ninjas reencarnados e Deuses ancestrais lutando lado a lado, demônios, robôs e atores de Hollywood andando por aí para salvar o mundo ou conquistar novos planos de existência. Tudo isso resultando em uma franquia em que personagens morrem e reaparecem sem nenhuma explicação, mesmo depois de canonicamente serem assassinados de formas brutais.

Caso o filme não tivesse abraçado essa bagunça caótica (e por vezes cafona) que tanto amamos, ele provavelmente sofreria críticas por não ser fiel ao material original. 

Pontos fracos

Apesar do esforço de Lewis Tan, protagonista do filme não agrada.

Mesmo assim, existem problemas no filme que tiram um pouco do brilho — e da nota. Ainda que a presença de Cole, o personagem inédito da história, seja justificável, uma vez que ele quem apresenta este universo para aqueles que não conhecem os jogos, ele é de longe o elemento mais fraco do lado dos heróis. 

A despeito do esforço de Lewis Tan, que realmente tenta trabalhar o personagem de uma forma positiva, o excesso de protagonismo e todas as vezes que o roteiro força a história para que ele brilhe é algo desconcertante. Em diversos momentos, a presença de Cole mais atrapalha do que o ajuda, tirando o foco do que os fãs realmente querem ver, especialmente por ele não ser um lutador tão carismático ou interessante quanto o resto dos kombatentes. 

Outro ponto falho no filme são os vilões. Ainda que Mortal Kombat não seja conhecida por trabalhar muito bem os seus antagonistas, é inegável que os jogos entregam vilões tão terríveis quanto carismáticos. E o filme falha ao não conseguir elaborar isso em sua trama. Mesmo com um potencial imenso e com uma caracterização excelente, os vilões aparecem apenas para serem derrotados, desperdiçando personagens que são queridos pelos fãs e que poderiam ter mais tempo de tela. E mencionar isso nem chega a ser um spoiler, visto que praticamente todas as mortes foram utilizadas no material de divulgação do filme, reduzindo a surpresa e deixando as lutas bem previsíveis. Frustrante. 

Pontos fortes

Scorpion no filme

Por outro lado, avaliando os acertos do filme, temos lutas maravilhosas — ainda que com cortes da edição que tiram o peso de algumas sequências –, bons efeitos especiais e atores que realmente abraçaram os aspectos mais bizarros de Mortal Kombat. Não dá pra negar que os atores realmente se esforçaram em suas performances, entregando interpretações divertidas e que prestam homenagem aos principais aspectos dos personagens nos games. Sonya Blade e Kung Lao roubam a cena, fazendo com que você queira ver mais destes heróis em tela. 

Também temos uma sequência inicial belíssima, apresentando a maior rivalidade da franquia — Scorpion e Sub-Zero — sem diminuir a beleza e o drama da tragédia familiar de Hanzo. Com combates bem coreografados e lutas interessantes, os primeiros minutos do filme são, sem sombra de dúvidas, a melhor parte de todo o longa entregando um espetáculo que honra os melhores filmes de artes marciais. 

E então chegamos no principal pilar que sustenta (e sempre sustentou) a franquia MK: A brutalidade sanguinolenta presente dos jogos. Mais do que os figurinos caprichados ou os easter-eggs e referências que estão presentes em cada cena do filme, o maior fanservice do projeto é abraçar as fatalities e brutalities sem ter medo de criar momentos grotescos e pesados, dando um banho de sangue e gore aos espectadores.

Mortal Kombat sempre foi esse festival de violência e ver isso nas telas, especialmente com a recriação das finalizações mais famosas dos kombatentes, é o que sela o filme como uma carta de amor aos fãs. Executando cenas pesadas de uma forma que se encaixe na história, mas sem que isso seja exagerado demais, este é o grande acerto da equipe criativa do filme, que equilibra a coragem de fazer algo tão sanguinário com o cuidado em não forçar a barra e fugir do que os fãs mais adoram.

Apesar de uma trama que parece mais um pré-filme, justamente por focar na introdução do que é Mortal Kombat e no treinamento para o torneio, e que isso seja um tanto frustrante, não consigo negar que é uma boa ideia não correr para contar essa história. A mitologia dos jogos é complexa e intensa demais, algo que não funcionaria muito bem se, logo no primeiro filme, já mergulharmos no torneio dando de cara com todos esses personagens. Especialmente agora, na era dos universos compartilhados que preparam o terreno para os filmes-evento com tramas mais grandiosas. Sim, é um movimento arriscado que pode fracassar e não resultar em uma sequência, sendo reduzido a um mero “vem ai” que nunca virá, mas o longa te deixa com um desejo por mais e funciona ao apresentar e estabelecer conceitos relevantes e personagens importantes da história. 

Cole Young (Lewis Tan), que não existe nos jogos, é uma das figuras centrais do novo Mortal Kombat

Nota

Entre erros e acertos, o filme de Mortal Kombat consegue abraçar o que fez a franquia de jogos sobreviver por quase trinta anos. Sem medo de ser cafona, exagerado e absurdamente caricato em alguns momentos, a produção entrega boas sequências de luta, figurinos impecáveis e o início do que pode ser um universo de sucesso. Carregado de fanservice e da violência que tanto agradou os jogadores, este é um projeto que consegue te fazer querer mais. 

Para o futuro, caso tenhamos uma continuação — e eu realmente espero que este seja o caso — é preciso dosar algumas coisas e explorar mais seus personagens e universo, fazendo justiça ao lore caótico e megalomaníaco dos games. Trazer kombatentes que são os favoritos dos fãs e trabalhar para que eles não sejam figurantes descartáveis também é algo que precisa ser melhorado no futuro. 

Mesmo assim, Mortal Kombat é um filme que agrada e é coerente com sua proposta. Sem tentar ousar ou revolucionar o gênero, o longa acerta justamente por adaptar a bagunça dos jogos em toda sua glória. 

Nota do filme: 3/5.

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sobre o autor Cristiano Rantin

Jornalista • Editor • Mestrando em Comunicação pela UEL • Twitter e Instagram: @Chris_Rantin • "Eu sou o fogo e a vida encarnados. Agora e para sempre eu sou a Fênix!"