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[Crítica] Monster Hunter ofusca seu potencial com ação genérica

Por Gabriel Mattos

Monster Hunter é o mais recente em uma grande linha de produções cinematográficas inspiradas em videogames. Há uma certa crença de que filmes desse tipo estão fadados ao fracasso, mas isso vem sendo questionado por longas surpreendentes como Detetive Pikachu e Sonic: O Filme. Infelizmente, Monster Hunter não é uma dessas exceções.

Dirigido, produzido e escrito por Paul W. S. Anderson e estrelado por sua esposa, Milla Jovovich, o filme tenta repetir o sucesso que a dupla alcançou com a série de adaptações de Resident Evil — outro jogo da Capcom. Mas o evidente conflito entre a aventura fantasiosa do material de origem com o desejo de explorar uma ação genérica resultou em um filme perdido que falha em atrair ambos públicos-alvo.

Monstros gigantes invadem a telona

Ficha Técnica

Título: Monster Hunter

Direção: Paul W. S. Anderson

Roteiro: Paul W. S. Anderson

Ano: 2021

Data de lançamento: 25 de fevereiro (Brasil)

Duração: 104 minutos

Sinopse: Uma militar experiente precisa sobreviver a monstros gigantes quase invencíveis para retornar ao mundo real.

Capitã Artemis é uma heroína genérica de ação, mas isso não é necessariamente um problema

Caçada sem fim

Esse não é um filme para amantes de ação.

Depois de uma introdução que sugere uma história regada à fantasia — trazendo um barco encantado navegando, com uma tripulação caracterizada de forma cartunesca, por um oceano desértico — o filme tenta se vender como uma sequência de grandiosas cenas de ação.

Capitã Artemis, a protagonista vivida por Milla Jovovich, é a heroína genérica que você pode esperar de qualquer filme razoável de ação. Não sabemos tanto sobre seu passado, mas hoje ela é respeitada por seus colegas e comanda um pequeno esquadrão entre um punho de ferro e provocações humoradas.

Em uma missão de resgate, toda sua equipe acaba presa em um mundo paralelo ao nosso onde monstros gigantescos são o topo da cadeia alimentar. Chegou a hora de entregar as grandiosas cenas de ação tão prometidas, mas sem introduzir novas dinâmicas, o filme fica repetitivo bem rápido.

São os mesmos dois inimigos, enfrentados com as mesmas estratégicas em um simples cenário desértico que demora milênios para mudar.

O melhor da ação acontece quando o caçador interfere.

Para piorar, na tentativa de nos convencer que esse mundo é perigoso e sério, as cenas de ação ficam tão exageradas que perdem todo o impacto almejado. Personagens são mortos com uma frequência tão frenética que não há tempo hábil para sentir o impacto de suas perdas. Logo, o elenco cai no esquecimento, assim como as cenas de ação tão super valorizadas.

Conforme o filme se aproxima de seus atos finais, a montagem — normalmente imperceptível — acaba atrapalhando diversas cenas de ação. Algumas sequências trazem uma mudança muito brusca entre cortes e a impressão que fica é a de um trabalho fora de sincronia.

Isso sem falar no abuso de técnicas, como slow motion e fade out, que poderiam dar um charme a cenas específicas, mas acabam dificultando a compreensão da ação por seu uso contínuo e fora de lugar.

Os únicos momentos que a ação parece encontrar verdadeiramente seu rumo é quando aparece aliada a toques escassos de fantasia que o filme entrega com bastante relutância.

A floresta quebra um pouco a repetitividade do cenário, mas por pouco tempo.

Fantasia renegada

Mas esse também não é um filme para amantes de fantasia.

O cineasta faz um trabalho incrível em criar um mundo fantástico quando a narrativa exige. O problema é que ele parece determinado a distanciar o público de qualquer conexão com esse lado mais fantástico. Uma verdadeira pena, pois é nesses breves momentos que o filme mostra seu potencial de ter sido algo incrível.

O barco encantado é cheio de detalhes, mas logo dá lugar a mais cenas no deserto genérico. Os figurinos inspirados nos games são incríveis e cheios de vida, inclusive a caracterização de Nanda Costa — atriz brasileira com pequena participação no longa. Há também um gato cozinheiro de CGI cheio de personalidade muito fiel a um personagem do jogo, mas como tudo que é fantasioso nesse universo, logo é abandonado em prol de mais cenas de tiros a esmo.

Quando o filme se entrega a aventura é lindo

Talvez o momento que deixou mais claro o descontentamento do produtor em estar trabalhando com um universo fantasioso, potencialmente enxergado como algo mais infantil, são os primeiros momentos que a personagem de Milla Jovovich interage com o caçador sem nome, vivido por Tony Jaa.

Há uma visão colonialista bastante deturpada que permeia essas interações super desconfortáveis. Nessa cena, por exemplo, mesmo precisando cooperar para sobreviver, eles se enfrentam — especialmente por não falarem a mesma língua.

O caçador nega água para Artemis por enxergá-la como inimiga, uma vez que ela invadiu seu mundo e tentou matá-lo em diferentes oportunidades. Em retaliação, a heroína acha justo atacar um altar religioso, fazendo pouco caso de sua cultura.

A relação entre Artemis e o Caçador expõe as falhas do filme

Ao longo do filme, parece que o diretor se esforça para fazer pouco caso da cultura cuidadosamente cativada pelos jogadores e os amantes de aventuras fantasiosas.

O mais irônico é que as cenas de ação ficam de fato interessantes quando abraçam esse lado mais caricato — é quando vemos espadas de fogo acionadas do nada, grandes ataques flamejantes e o confronto com o adorado Rathalos.

O ponto alto do filme é o embate com a temível fera. Mas quando finalmente somos recompensados com cenas empolgantes com muita magia e variedade, o filme decide teleportar a luta de volta para um cenário desértico genérico com mais armas de fogo sem impacto.

Todo orçamento foi gasto para deixar Rathalos incrível.

A maldição dos filmes de games

Monster Hunter é uma experiência bastante frustrante, pois o filme demonstra seu potencial para gerar algo incrível, mas está constantemente se sabotando em prol de uma ação genérica que não empolga nem entusiastas do gênero.

É um filme de jogo que escancara o maior problema dessas produções. São longas que desdenham de seus jogos de origem, que os encaram como se fossem produções menos dignas, menos interessantes e tentam a todo momento fugir de sua essência.

Quando Hollywood parar de lutar com os videogames e abraçar de vez essa insana diversão, veremos finalmente o surgimento da era de verdadeiras obras-primas cinematográficas inspiradas em videogames. Até lá, teremos Monster Hunter.

Com muita generosidade, Monster Hunter recebe 3/5 estrelas

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sobre o autor Gabriel Mattos

Redator que joga mais Switch do que deveria e já leu todo o novo cânone de Star Wars, até os livros ruins. • @gabeverse