Crítica: Um Lugar Silencioso Parte II expande o universo, mas perde o senso de perigo

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Crítica: Um Lugar Silencioso Parte II expande o universo, mas perde o senso de perigo

Por Gus Fiaux

Um dos primeiros filmes ao sofrer impacto com a pandemia do COVID-19, Um Lugar Silencioso: Parte II era previsto para chegar aos cinemas originalmente em março do ano passado. Agora, mais de um ano depois de seu primeiro adiamento, finalmente pudemos conferir o novo longa dirigido por John Krasinski e estrelado por sua esposa dentro e fora das telas, Emily Blunt.

Aqui, acompanhamos a Família Abbott em uma nova jornada depois que precisam abandonar o conforto de seu lar enquanto vagam pelo desconhecido – tudo isso em um mundo onde qualquer barulho é letal e o silêncio absoluto é a única maneira de se manter seguro. Nós pudemos finalmente conferir o filme e aqui está nossa crítica desse mais novo projeto de terror!

Ficha técnica

Título: Um Lugar Silencioso: Parte II (A Quiet Place Part II)

 

Direção: John Krasinski

 

Roteiro: John Krasinski

 

Ano: 2021

 

Data de lançamento: 22 de julho

 

Duração: 97 min

 

Sinopse: Após os eventos em casa, a Família Abbott agora enfrenta os terrores do mundo exterior. Forçados a se aventurar pelo desconhecido, eles percebem que as criaturas que os caçam não são as únicas ameaças ocultas pelo caminho.

Novo filme segue os sobreviventes da Família Abbott: Evelyn (Blunt), Marcus (Jupe), Regan (Simmonds) e o bebê recém-nascido.

Um Lugar Silencioso Parte II é bom, mas não supera o original

Quando foi lançado em 2018, Um Lugar Silencioso pegou todos de surpresa como um trem descarrilhado – e no melhor sentido da expressão. O longa dirigido e estrelado por John Krasinski conseguia imprimir um horror pós-apocalíptico muito potente ao explorar um mundo onde a Terra havia sido dominado por criaturas monstruosas que detectavam os mínimos sons, perseguindo e destroçando suas presas sem piedade.

O sucesso foi imediato – em parte, pela ótima experiência que a direção de Krasinski nos proporcionou, criando um mundo cheio de regras e com um forte senso de urgência e perigo, já que o mínimo barulho era letal – como fica bem nítido nos primeiros minutos do longa. E agora, o cineasta retorna a esse universo e o expande em Um Lugar Silencioso: Parte II, embora um pouco da tensão seja dissipada pela narrativa fragmentada e episódica.

O longa começa sendo bem explicativo e introdutório, nos fornecendo um vislumbre de como era a vida da Família Abbott antes da chegada desses monstros. Por isso, contamos com o retorno de Krasinski no papel de Lee Abbott, algo que só fomenta um sentimento mais agridoce e melancólico em relação ao sacrifício do personagem no primeiro filme. E esses dez primeiros minutos iniciais são, por falta de uma palavra melhor, perfeitos.

Aqui é onde o filme consegue colocar em prática tudo que o original tinha de melhor em termos de urgência e tensão – só que dessa vez, amplificado à décima potência e em um período muito mais curto. A chegada das criaturas cria um pavor crescente, que vai culminando conforme as primeiras pilhas de cadáveres começam a aparecer nas ruas. É uma introdução muito digna, que inclusive responde a algumas das perguntas deixadas em aberto pelo original.

Uma das cenas mais desoladoras e brutais do longa.

Porém, assim que a cena acaba, somos transportados exatamente para o momento de onde o primeiro parou. Após terem sua fazenda completamente devastada em um ataque das criaturas, os Abbott precisam encontrar um novo lar e logo se colocam em rumo ao desconhecido, procurando por novas formas de se abrigarem – tudo isso enquanto a matriarca Evelyn (Emily Blunt) precisa carregar seu bebê recém-nascido de cima para baixo.

É nesse ponto que Um Lugar Silencioso: Parte II encontra uma encruzilhada bem devastadora e é obrigado a fazer uma escolha: a sequência pode expandir esse universo, mas ao fazer isso perderia muito do senso de tensão, medo e urgência do anterior. E é exatamente isso que ele faz, partindo de vez para uma construção de cenário pós-apocalíptico que já vimos muito ao longo dos últimos anos.

Aqui, John Krasinski não se preocupa mais com o microcosmo onde os Abbot habitam, embora a relação familiar ainda seja um dos pontos focais do enredo. Em vez disso, ele prefere explorar como as comunidades se reergueram após a chegada dos titãs grotescos, e como há ameaças ainda mais perigosas que esses seres terríveis – sobretudo entre os próprios sobreviventes.

E parte do que fazia Um Lugar Silencioso funcionar tão bem era a atmosfera intimista e controlada onde, mesmo em sua casa, esses personagens se viam confrontados com uma abrupta ruptura com a segurança, o que gerava seus melhores momentos de tensão. Em Um Lugar Silencioso: Parte II, tal ruptura não existe e portanto, o filme se sai melhor como um longa de ação do que como uma história de terror pós-apocalíptica.

Cillian Murphy interpreta Emmett no filme.

Se isso é bom ou mau, vai do gosto de cada um. Particularmente, considero o original um dos melhores filmes de terror dos últimos anos, então confesso ter me decepcionado um pouco em ver que esse elemento é deixado de lado logo após a abertura. Por outro lado, há muito a se gostar aqui: a direção de John Krasinski evoluiu e ele consegue fazer muitas coisas interessantes por trás das câmeras.

desing sonoro também é formidável, embora não evoque tanta atmosfera quanto no primeiro, já que no “mundo exterior”, há mais fontes de barulho. Além disso, Krasinski é realmente um excelente diretor de atores. Emily Blunt está deslumbrante como sempre, mas dessa vez as crianças (Millicent Simmonds como Regan e Noah Jupe no papel de Marcus) têm mais destaque e fornecem atuações muito sinceras – há uma cena em particular envolvendo uma armadilha de urso que é perturbadora e excruciante.

Além deles, temos a adição de Cillian Murphy como Emmett, e o ator está muito bem, criando um personagem que tem múltiplas camadas e que vai crescendo com o passar da trama. Talvez, o único problema seja a forma como o filme é dividido em “núcleos” muito específicos. Isso torna a narrativa muito episódica e faz com que as cenas de cada um desses grupos percam o impacto no constante jogo de montagem.

Dito isso, Um Lugar Silencioso: Parte II é um bom filme, embora não supere o original em nenhum aspecto. É quase como Aliens: O Resgate foi para O Oitavo Passageiro, fazendo uma migração da franquia de vez para a ação e expandindo esse universo, suas regras e seus personagens – mas fez isso às custas da tensão, da atmosfera e do medo que tornou o primeiro um fenômeno imediato.

Nota: 4/5

Um Lugar Silencioso: Parte II está em cartaz nos cinemas.

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sobre o autor Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Crítico, roteirista e mago nas horas vagas. Wouldst thou like to live deliciously? || @gus_fiaux