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[CRÍTICA] A Liga da Justiça de Zack Snyder é caótica, mas gloriosa

Por Márcio Jangarélli

Vez ou outra, na cultura pop, surge algo que mobiliza toda uma legião de fãs, seja para apoiar com unhas e dentes uma causa ou para enterrar alguma coisa ou alguém no limbo do esquecimento. Um dos casos mais recentes e poderosos dessa tempestade de emoções é a Liga da Justiça de Zack Snyder, que finalmente está entre nós.

Com quatro horas de duração e a promessa de reescrever o gosto amargo deixado no público com a Liga da Justiça de 2017, esse filme é mais um grande evento do que um “simples” longa de super-heróis. Tive a chance de assistir à première virtual da produção e, depois de digerir um pouco essa epopeia dos heróis DC, posso contar para vocês como o Snyder Cut funciona – e se funciona.

Enfim, uma “nova” história da Liga

A nova versão da Liga é uma vitória dos fãs.

Como alguém que tinha simpatizado com o filme de 2017, o Snyder Cut sempre foi conflituoso para mim. Ao mesmo tempo em que eu achava interessante a proposta de assistir à ideia original do longa, principalmente vinda de um diretor com uma visão tão única quanto o Snyder, sempre me peguei preocupado com as repercussões do lançamento dessa versão na indústria do cinema como um todo. A história sobre as regravações infames de Liga da Justiça também demorou para ser contada, então não parecia algo “necessário”, sabe?

No entanto, no contexto atual das coisas, ainda que minha preocupação sobre o impacto do filme na produção de cinema continue, acredito que essa versão de Liga da Justiça se fez necessária. É uma demonstração de respeito com todo o elenco e profissionais que carregavam uma história que não foi contada da forma correta. E é uma celebração desses personagens tão amados e do que eles representam – algo importante e bem-vindo nesses tempos sombrios.

Liga da Justiça de Zack Snyder não é uma versão estendida do longa de 2017, é outro filme. O diretor mexeu em cada pedacinho da produção e até mesmo as cenas mais famosas ganharam outro contexto, outra cara. Você vai reconhecer muita coisa ali, mas é quase como um sentimento de deja vu; parece que você já viu aquilo antes, porém era só um eco do que está sendo mostrado agora.

O grande acerto de Snyder é se aproveitar desse novo formato, muito mais extenso, para se aprofundar mais em cada um desses personagens, especialmente naqueles que estão sendo apresentados no filme e nunca tiveram uma chance solo. E mesmo os rostos já conhecidos ganham mais camadas, prestam ainda mais homenagem aos quadrinhos e, no fim, é impossível não ter se apaixonado um pouquinho mais por esses heróis e vilões.

Heróis e vilões diferentes

O Ciborgue rouba o protagonismo do filme quando aparece e isso é ótimo.

É engraçado como a mudança de direção afeta de maneira brusca alguns personagens. Enquanto o Batman, a Mulher-Maravilha e o Superman já são conhecidos nessa “personalidade” do Snyder – um Bruce mais capaz, inteligente e sentimental, uma Diana mais guerreira e furiosa e um Clark que ainda está aprendendo seu lugar na Terra – o Aquaman, o Flash e o Ciborgue mudaram totalmente e, devo dizer, para melhor.

O Aquaman do Snyder é mais “rebelde” e pomposo do que o fortão engraçado da outra versão; o Flash é mais sério, inteligente e “incompreendido”, quase como se não conseguisse lidar ainda com a velocidade dos seus pensamentos, e o Ciborgue rouba o filme como ninguém.

Ray Fisher, com uma relação tão complexa com a Warner hoje, entregou um Ciborgue sem igual, verdadeiramente incrível, heroico e emocionante, que eu gostaria MUITO de ver em uma aventura solo um dia, mesmo que as chances não sejam as melhores. Ele chega de manso, em uma abordagem diferente do herói, e vai tomando o filme para si de pouco em pouco. E a relação dele com o Silas Stone do Joe Morton (outro que sempre se destaca quando aparece) é absurda de boa.

Todos os arcos do filme anterior estão repaginados, com mais ação, drama e um humor que combina mais com essa história. O meu preferido talvez seja o da Ilha das Amazonas, que ficou mais brutal e condizente com essas guerreiras e sua postura de batalha. Essa mudança gera um antagonismo muito mais palpável e interessante entre Diana e Lobo da Estepe, incrementando mais sabor na trama.

E mesmo com tantas horas de duração, muita coisa do longa de 2017 foi descartada ou transformada de maneira irreconhecível. Não é uma mudança apenas de temperatura na edição das cenas; trilha sonora, ritmo, tudo foi modificado para criar uma nova experiência – com assinaturas clássicas do Snyder. Você não vai ouvir uma guitarra energética para o Aquaman, mas algo mais lento de condizente com o “nascimento de um rei”, por exemplo.

Mas também não são quatro horas de reedição: muito, muito conteúdo novo foi adicionado, modificando o sentido e escopo da primeira união da Liga. A adição de Darkseid e os Novos Deuses de Apokolips como uma ameaça deixa tudo mais intrigante e tenso. E o “novo” Lobo da Estepe é mais carismático, violento e seu arco é todo explicadinho, fazendo com que o espectador termine o filme sabendo quem ele é, o que são as Caixas Maternas, quem é Darkseid e por aí vai. E Darkseid é.

São quatro horas mesmo?

Mais horas de filme, mas nem tanto assim de Superman.

Meu maior conflito com o filme é, claro, a duração – quatro horas é coisa que nem O Senhor dos Anéis ousou fazer em versões mais comerciais – e as assinaturas por vezes excessivas do Snyder. Ainda assim, fiquei me perguntando: teria como contar essa história, com todos esses arcos de personagem e detalhes para fazer o público compreender esse lado cósmico da DC, em menos tempo? Minha conclusão parcial é de que talvez, e só talvez, diminuindo os slow motion característicos do diretor, cortando algumas cenas realmente desnecessárias e tudo mais, esse filme teria um pouco mais de três horas.

Existem, sim, cenas descartáveis ali, que não são bem sucedidas em construção de mundo, personagem, história e parecem mais um floreio do diretor ou um fanservice. Mas é muito menos do que qualquer um poderia esperar e elas não incomodam.

Fora isso, o longa explora cada minuto de sua megalomania para contar um pedacinho da visão dos Snyder para o universo DC. Muitos críticos colocaram que o filme é mais um prelúdio de outras produções que iriam acontecer; de certa forma é, mas não de uma maneira negativa. É ainda uma história fechada, da primeira união da Liga da Justiça, mas que serviria sim como uma base sólida para um universo expandido gigante.

E, sinceramente? Ao final das quatro horas, como fã desses heróis e das várias versões que cada um deles possui, eu gostaria muito de ver no cinema as possibilidades que o Snyder deixa ali. Algumas delas nós já vimos, na verdade, como o ótimo filme do Aquaman. Se esse universo existisse em paralelo às produções sensacionais que a DC vem entregando nos últimos anos, seria incrível.

E o Coringa?

Até o novo visual do Príncipe do Crime faz sentido.

Eu sei que vocês estão esperando para ouvir sobre o pesadelo do Batman e o Coringa de Jared Leto, por isso deixei para o final. Contrariando a expectativa de muita gente, essa sequência é até curta, não influencia no filme como um todo e, sim, é bem boa

Ela faz você querer ver mais dessa história e da relação do Batman com esse Coringa. Porque, pode ser meio polêmico para alguns lerem isso, mas o Leto está muito bom como o Palhaço, entrega algo bem diferente de tudo o que já vimos desse personagem e não destoa do que ele fez em Esquadrão Suicida. Pois é.

Se você é fã dos filmes do Snyder, é meio difícil não gostar dessa Liga da Justiça. E se você é fã dos heróis DC – e de quadrinhos no geral – também, porque é uma versão muito interessante desses personagens e dá para sentir que foi feita com muita dedicação, respeito e carinho não só pelo diretor, mas por toda a equipe envolvida.

Por tudo isso, Liga da Justiça de Zack Snyder leva 4,5 estrelas da Legião dos Heróis! Existem problemas? Com certeza. Mas nenhum deles apaga a beleza desse universo grandioso dos heróis da DC Comics que o diretor se esforçou para entregar ao público.

E aí, o que você espera do Snyder Cut? Não esqueça de comentar!

Veja agora nossa lista sobre o filme:

Liga da Justiça de Zack Snyder estreia no dia 18 de Março nas plataformas de aluguel Apple TV, Claro, Google Play, Looke, Microsoft, Playstation, Sky, Uol Play, Vivo e WatchBr.

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sobre o autor Márcio Jangarélli

Assessor, redator e jornalista. Madonna de Jakku.