Crítica – Homem-Aranha: Sem Volta para Casa evidencia o melhor e o pior do Universo Cinematográfico da Marvel

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Crítica – Homem-Aranha: Sem Volta para Casa evidencia o melhor e o pior do Universo Cinematográfico da Marvel

Por Arthur Eloi

Homem-Aranha: Sem Volta para Casa marca a volta de muita gente para os cinemas, depois de quase dois anos longe das telonas. Não que seja o primeiro filme dessa fase de reabertura – sequer é o primeiro da Marvel em 2021, que exibiu Viúva Negra, Shang-Chi e Eternos antes disso. Mas o final da trilogia estrelada por Tom Holland é, sem dúvidas, o maior evento do ano.

Como de costume, Kevin Feige e sua equipe entenderam a missão, e o longa chega aos cinemas pronto para fazer todo fã pular da cadeira, comemorar e chorar com uma boa dose de reviravoltas e novos desdobramentos para a Fase 4 do Universo Cinematográfico da Marvel. Sem Volta para Casa consegue tudo isso, e é sem dúvidas o melhor filme da versão atual do herói — eufórico ao ponto de te fazer esquecer que o padrão não é lá muito alto.

Ficha técnica

Título: Homem-Aranha: Sem Volta para Casa (Spider-Man: No Way Home)

Direção: Jon Watts

Roteiro: Chris McKenna e Erik Sommers

Data de lançamento: 16 de dezembro de 2021

País de origem: Estados Unidos

Duração: 2h 28min

Sinopse: Com a identidade do Homem-Aranha revelada, Peter Perker pede ajuda ao Doutor Strange. Quando um feitiço dá errado, inimigos perigosos de outros mundos começam a aparecer, forçando Peter a descobrir o que realmente significa ser o Homem-Aranha.

Verdades distorcidas

Pouco após a identidade secreta do Homem-Aranha ser exposta ao mundo, Sem Volta para Casa mostra Peter Parker (Tom Holland) tendo sua privacidade invadida, e sua relação com MJ (Zendaya) e Ned (Jacob Batalon) afetada pela grande revelação e por uma enxurrada de mentiras criadas pelo Mystério (Jake Gyllenhaal).

Após descobrir que essa polêmica arruinará o futuro do grupo, o jovem recorre ao Doutor Estranho (Benedict Cumberbatch) para tentar descobrir uma forma de apagar os eventos recentes da mente da população. Tal qual a pata do macaco se dobrando, o desejo de Parker vêm acompanhado de consequências severas, rompendo as barreiras das dimensões paralelas, e resultando em uma crise que traz vilões dos Homens-Aranha de outros universos para atormentar o Teioso do MCU.

Zendaya e Tom Holland agora trazem toda a química que faltou nos filmes anteriores

Em muitos aspectos, Sem Volta para Casa parece feito sob medida para agradar todos os críticos do herói de Tom Holland. Por mais que todo o material promocional indique que o rapaz terá Stephen Strange como novo mentor, acontece que Parker enfim assume o protagonismo de sua própria narrativa.

Salvo por interromper o feitiço do Doutor Estranho com seu falatório, o jovem não mais erra por acidente ou por descuido, mas sim toma decisões arriscadas e até luta com Strange para defendê-las — como vimos nos trailers –, mesmo que os resultados passem longe do esperado. Depois de dois filmes com um protagonista omisso, apoiado em Tony Stark (Robert Downey Jr.) ou até mesmo no Mystério e Nick Fury (Samuel L. Jackson), Peter Parker enfim passa a se impor e aprender de verdade, o que reverbera durante todo o filme.

Chega de mentores: Peter Parker enfim começa a tomar suas próprias decisões em Sem Volta para Casa

Por si só isso já faz o longa se destacar em uma trilogia bastante fraca, mas todo o restante da produção melhora. Em especial, a direção de Jon Watts deixa de ser tão medíocre e sem vida, e passa a experimentar com cenas de ação menos picotadas e mais empolgantes, trechos em primeira pessoa, e até mesmo um plano-sequência durante a abertura. O cineasta ainda não tem um estilo muito forte, e comanda tudo de forma funcional, mas aqui dá um passo na direção correta com algo que entretém e mostra sinais de personalidade.

Todo o elenco ganha um pouco mais de espaço para brilhar. Tom Holland mostra que cresceu com seu Peter Parker, indo além do carisma para também representar a angústia, arrependimento e raiva que assolam o rapaz. A MJ de Zendaya fica a altura, e aqui ambos trazem toda a química que faltou nos longas anteriores.

Mas quem realmente faz o filme brilhar são os vilões. A galeria de antagonistas do Homem-Aranha é uma das mais impressionantes das HQS, e teve muita sorte de ser adaptada por atores talentosos ao longo das décadas. Com a crise no Multiverso reunindo muitos desses nomes em um único filme, isso fica ainda mais evidente.

O peso do passado

Com Homem-Areia, Electro, Lagarto, Duende Verde e o Doutor Octopus, Sem Volta para Casa reforça a excelente galeria de vilões do Homem-Aranha

A performance de Alfred Molina como Doutor Octopus é tão natural quanto era lá em 2004, com a mesma nuance entre ameaça e arrependimento que consagrou Homem-Aranha 2. Já Jamie Foxx, que não teve tanta sorte com o lamentável O Espetacular Homem-Aranha 2 (2014), alcança sua redenção ao encarnar uma versão de Electro que é menos azulada e caricata, e que sabe usar todo o estilo e charme de seu intérprete. Até o Homem-Areia de Thomas Haden Church, destaque do controverso Homem-Aranha 3 (2007), ganha mais uma chance nos holofotes sem ser ofuscado por um Venom meia-boca e um Peter Parker dançante. Porém não há dúvidas de que Sem Volta para Casa é o filme de Willem Dafoe.

Sua excelente versão do Duende Verde ajudou a mostrar a força dos heróis nas telonas, quando deu as caras em Homem-Aranha (2002). Ao longo dessas duas décadas de hiato, Dafoe transitou entre queridinhos cult, como Projeto Flórida (2017) e os filmes de Wes Anderson, e obras ousadas e macabras, como Anticristo (2009) e O Farol (2019). No confronto com o jovem Peter Parker, ele traz de volta seu Norman Osborne marcado pelo exagero e crueldade, com vilania insana que não é comum de se encontrar no Universo Cinematográfico da Marvel. Não há ninguém melhor para fazer o protagonista ficar com o sangue nos olhos do que o Duende Verde.

Duende Verde de Willem Dafoe é destaque do filme, e o único cuja maldade pura é capaz de forçar Peter Parker a crescer

Pela sinopse, pelos trailers ou mesmo por essa crítica, é fácil imaginar que Sem Volta para Casa é uma jornada sombria. Não é o caso. A trama até apresenta esse tom, que não ficaria deslocado após todas as desgraças enfrentadas por Peter Parker, mas nunca tem coragem de realmente se deixar levar pela emoção, pela raiva ou pelo desespero. Já é comum que filmes da Marvel Studios sejam conhecidos por seu humor incessante, mas aqui isso se torna destoante.

Não há espaço para respiro, seja para o espectador ou para os personagens. Não há um momento sequer de contemplação, e mesmo após as reviravoltas supostamente mais intensas, a cena seguinte trará uma piadinha ou alívio cômico para quebrar a tensão. E isso fica evidente desde a abertura. Após um breve momento de sufoco, com Parker e MJ sendo atacados na rua após a revelação da identidade secreta do Teioso, o longa mostra a fuga do casal em uma sequência feita para divertir, e logo muda o foco para uma situação mais leve.

Sem Volta para Casa discute o peso do amadurecimento, de tomar as suas próprias decisões erradas e do aprendizado através do sofrimento, mas é desconjuntado demais em tom para que qualquer um de seus argumentos tenha peso. De certa forma, parece um compilado de esquetes – algumas de ação, algumas de comédia – ligadas de forma artificial, com o único propósito de entretenimento com a ilusão de estar lidando com Assuntos Sérios. Nada é sentido, tudo é falado.

Essa contradição, entre propor uma evolução sofrida ao protagonista mas executá-la do mesmo jeito leve e descontraído que os antecessores, dificilmente será sentida pelo público. Não só a Marvel Studios é uma máquina que funciona a todo vapor, como também o longa é confeccionado para deixar o espectador em puro estado de euforia. Transformar a ida ao cinema em um verdadeiro evento é algo que ninguém faz tão bem quanto a empresa.

O retorno dos vilões clássicos traz à tona o peso do legado de quase duas décadas de filmes do Homem-Aranha, de forma que qualquer espectador com o mínimo de investimento emocional nessas adaptações com certeza vai dar pulos de alegria, independente do próprio longa cortar qualquer desenvolvimento para muitas das ideias que levanta, ou correr na contramão do tom mais sóbrio que sua trama pede.

Com o equipamento de Tony Stark fica fácil bater de frente com os vilões do passado, né?

Homem-Aranha: Sem Volta para Casa é tudo que os fãs queriam. Há o retorno dos vilões, uma crise no Multiverso que promete muito material para a Fase 4, e também um futuro realmente promissor para o herói de Tom Holland. Após ser coadjuvante dos Vingadores e de estrelar duas aventuras medíocres, enfim essa versão do Teioso se afirma como protagonista no que realmente soa como uma história de origem. Não há dúvidas de que esse é seu melhor filme, com boas atuações — de Holland, dos coadjuvantes, das participações especiais –, e uma melhora considerável na direção de Jon Watts.

Ao mesmo tempo, é um filme que deixa claro que a Marvel Studios ainda não é tão flexível quanto parece. De nada importa prometer consequências severas em seu universo se nada deixa cicatrizes nos personagens ou no público. Essa dinâmica, de sempre terminar tudo com um sorriso e uma piadinha sagaz, é o fator que limita o alcance dramático das obras, e que terceiriza ao espectador a responsabilidade de encontrar algo mais profundo entre um emaranhado de esquetes com um tênue fio condutor.

Não que o estúdio precise seguir por caminhos mais adultos, cheios de trevas e sangue, mas sim aceitar que despertar sentimentos genuínos no público também é uma forma de entretenimento, tão válida quanto a ação ou o humor. Sem Volta para Casa não confia no seu próprio potencial de emocionar, e afoga toda essa catarse em um mar de referências e nostalgia.

Mas, francamente, nenhum desses problemas vai afetar a experiência cinematográfica, e talvez celebrar a nossa paixão pelo Homem-Aranha reunidos em uma sala de cinema seja justamente o que precisamos para superar um ano tão difícil quanto 2021. Quando a euforia passa, seja logo na saída do cinema, alguns dias depois ou em uma eventual reassistida em casa, vem a noção de que Sem Volta para Casa é emblemático de todo o Universo Cinematográfico da Marvel depois de Guerra Infinita e Ultimato: funciona melhor como evento bombástico para curtir com amigos do que como filme.

NOTA: 3.5/5

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sobre o autor Arthur Eloi

Repórter entusiasta de filmes ruins, jogos de tiro e de horror em todas as suas formas. Dá notas duvidosas para obras questionáveis • @ArthurEloi117