Crítica: Falcão e o Soldado Invernal constrói o novo e legítimo Capitão América

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Crítica: Falcão e o Soldado Invernal constrói o novo e legítimo Capitão América

Por Gus Fiaux

Com Falcão e o Soldado Invernal, a Marvel Studios embarca na sua segunda e bem-sucedida incursão no mundo das séries. A produção segue os personagens titulares em meio a um clima de thriller político, enfrentando uma organização “terrorista” e lutando em prol do legado deixado pelo Capitão América

Mas mais do que isso, a nova série do Universo Cinematográfico da Marvel é pioneira dentro da franquia por explorar questões de racismo institucional, preconceito e até mesmo imigração – ao mesmo tempo em que desenvolve Sam Wilson e Bucky Barnes de uma forma nunca antes vista. Com tantos elementos interessantes, a série é um prato cheio para análise e discussão. Aqui está a nossa crítica de Falcão e o Soldado Invernal

Ficha Técnica

Título: Falcão e o Soldado Invernal (The Falcon and the Winter Soldier

 

Criação: Malcolm Spellman

 

Direção: Kari Skogland

 

Ano: 2021 (Disney+)

 

Número de episódios: 6

 

Sinopse: Após os eventos de “Vingadores: Ultimato”, Sam Wilson e Bucky Barnes se juntam em uma aventura global que testará todas as suas habilidades – e sua paciência.

Falcão e o Soldado Invernal constrói o legítimo Capitão América

Dois personagens de grande importância na trilogia de filmes de um certo Sentinela da Liberdade, Sam Wilson e Bucky Barnes sempre apareceram como aliados e amigos de Steve Rogers, dispostos a tudo para auxiliar o Capitão América em suas aventuras. E embora Bucky Barnes tenha tido um grande arco de histórias como o Soldado Invernal, onde foi apresentado como vilão e desconstruído para se transformar em um anti-herói, a verdade é que eles sempre foram personagens mais secundários do vasto MCU.

Isso mudou de vez com o lançamento de Falcão e o Soldado Invernal, a mais nova série produzida pela Marvel Studios e lançada pelo Disney+. Dessa vez, a franquia propôs-se a discutir a existência desses dois personagens, não mais como coadjuvantes e sim como protagonistas de suas próprias histórias. Sam lida com questões familiares e financeiras, enquanto Bucky precisa resolver todo o trauma que ele causou enquanto era um assassino controlado pela HIDRA. 

Porém, essas não são as únicas questões com as quais eles precisam lidar. A série se passa um pouco depois dos eventos de Vingadores: Ultimato – e, portanto, lida diretamente com algumas consequências do filme-evento colossal. Com a despedida de Steve Rogers, o mundo carece de um novo Capitão América, enquanto o Falcão precisa lidar com esse pesaroso dilema moral: afinal, ele foi o escolhido pelo próprio Steve para empunhar o escudo, mas não se sente digno para tal. 

Enquanto isso acontece, o governo norte-americano tem seus próprios planos, entregando o escudo de bandeja para o veterano John Walker. E, no horizonte, uma ameaça ainda mais complexa paira na forma dos Apátridas, uma organização anárquica que luta pela extinção de fronteiras e que acredita que o mundo era um lugar melhor durante o blip – o período de cinco anos em que metade da população mundial estava “morta” por conta das ações de Thanos na Guerra Infinita. 

Desde seu primeiro episódio, Falcão e o Soldado Invernal dialoga tanto em narrativa quanto em estética com um dos longas mais elogiados do Universo Cinematográfico da MarvelCapitão América: Guerra Civil. Em vez de ação muito pirotécnica e cheia de deuses, monstros e alienígenas, a série se propõe a ancorar os pés na realidade, criando um thriller político onde o desenvolvimento dos personagens é o cerne de uma trama cheia de intrigas. 

Isso não quer dizer que o “gostinho” do MCU não esteja ali. O humor nunca abandona a produção e há várias participações especiais e retornos que devem agradar os fãs mais “tradicionais” dessa franquia, mas a série acerta muito bem ao não se escorar demais na nostalgia e nos easter-eggs. Em vez disso, é um grandioso capítulo que terá repercussões gigantescas no que está por vir. 

Dito isso, é impressionante como o coração da série está inteiramente em seus dois protagonistas titulares. Sam e Bucky, como dito anteriormente, nunca tiveram tanto destaque porque nunca tiveram um filme para chamar de seu, mas na série, ambos exercem uma construção impressionante, que nos mostra como a iniciativa da Marvel Studios de produzir séries além dos filmes foi, sem a menor sombra de dúvidas, certeira. 

E embora eles estejam sempre em destaque – abrilhantados pelas atuações magníficas de Anthony Mackie e Sebastian Stan, que possuem uma química inigualável -, Falcão e o Soldado Invernal ainda apresenta vários personagens que compõem um elenco rico e no tom. Wyatt Russell brilha como John Walker, trazendo à tona todo o lado sombrio desse “sonho americano” que não é discutido. Erin Kellyman está excelente como Karli, a líder dos Apátridas, tornando-se uma antagonista facilmente identificável e compreensível. Porém, o show é dado por Daniel Brühl, que está muito mais engraçado e audacioso no papel de Zemo, trazendo um teor caótico para a dinâmica entre Falcão e Soldado. 

Até mesmo as participações “menores” roubam a cena de vez em quando. Emily VanCamp retorna como Sharon Carter, imprimindo uma nova seriedade à personagem – que está drasticamente diferente, deve-se notar. Julia Louis-Dreyfus confere uma graça sarcástica a Valentina Allegra de Fontaine, que deve ser uma personagem recorrente nas próximas produções da Marvel. E, acima disso, temos também Carl Lumbly interpretando Isaiah Bradley, personagem que, apesar de aparecer pouco, representa o “coração” das discussões que a série levanta. 

E embora essas atuações sejam brilhantes, o problema mais notável de Falcão e o Soldado Invernal é a sua linha narrativa. É fácil ver personagens sumindo e aparecendo apenas quando é conveniente, o que faz com que muitas das surpresas – especialmente as que envolvem Sharon Carter – percam o impacto. Não é nada que prejudique a série como um todo, mas seria mais interessante ver um maior desenvolvimento desses personagens orbitais, ainda que a história gire em torno de Sam e Bucky. 

Aliás, falando em narrativa, o formato de seis episódios é algo espetacular e que vai trazer bons frutos para as próximas produções televisivas da Marvel Studios. Embora as duas estejam em par de igualdade no quesito qualidade narrativa, Falcão e Soldado se sai melhor que WandaVision, por exemplo, quando o assunto é coerência é ritmo. Nunca sentimos que a série “estaciona” ou perde capítulos explicando o óbvio, e a trama sempre segue num crescente até os dois últimos episódios, onde a glória de ação e bom-humor da Marvel casa com os temas sérios que a série se propõe a debater. 

No que diz respeito a esses temas, é extremamente simbólico e inspirador que, em um mundo polarizado como o que vivemos em 2021, a Marvel tenha se proposto a discutir abertamente racismo e preconceito em uma de suas obras de maior destaque, enquanto nos apresenta o Capitão América de uma nova geração. Tudo bem que Pantera Negra já tinha uma certa confluência do tema, mas é em Falcão e o Soldado Invernal que isso é trazido à tona com toda a devida importância – afinal de contas, a maior parte de Pantera Negra se passa em Wakanda, onde questões como racismo são secundárias e derivam da política externa ao país. Ainda assim, é maravilhoso ver a participação das Dora Milaje e saber que o traje novo de Sam foi um presente de Wakanda. 

Não apenas isso, mas até mesmo os Apátridas representam uma ameaça bem intrigante para o Universo Marvel com base apenas em sua ideologia. De certa forma, eles não estão errados, embora os meios que usam para atingir seus fins sejam moralmente questionáveis. Nesse sentido, Karli Morgenthau é uma antagonista muito interessante – e aqui, a mudança da personagem em relação aos quadrinhos é muito justificável, já que os criadores e roteiristas da série queriam que ela dialogasse com um público mais jovem e politicamente engajado. 

Por isso, é uma pena que o fim desses personagens na série tenha sido tão apressado e “fechado”. Seria mais interessante ver mais deles em ação em outras produções, tomando cada vez mais força (embora essa possibilidade não seja descartada). De um jeito ou de outro, é impressionante ver como, após tantos anos de críticas do público, o MCU finalmente está numa constante muito boa de vilões que não são apenas carismáticos, mas que também possuem um propósito além de “querer dominar o mundo”. 

E é nessas e outras que Falcão e o Soldado Invernal se prova como mais um acerto – e dos grandes – para a Marvel Studios. A série mostra a importância de um legado e, antes disso, a importância de abrir a roda para que uma nova geração possa usufruir do que já foi construído. É impressionante como a figura de Steve Rogers sempre paira implicitamente ao longo da série, mas essa é uma história sobre Sam Wilson e sobre como ele precisa abrir mão de seus receios para aceitar o que já é seu por direito. 

É ainda mais impressionante ver como essas séries estão abrindo portas para coisas que nunca julgamos possíveis em uma franquia de super-heróis. O nível das discussões, o ritmo compassado e sobretudo o desenvolvimento dos personagens é colocado em primeiro plano, ainda que não faltem agrados para os fãs dos mais de vinte filmes do Universo Cinematográfico da Marvel que foram lançados até aqui. Veremos se essa crescente de qualidade continuará nas próximas produções…

Nota da série: 4,5/5

Falcão e o Soldado Invernal está disponível com seus seis episódios no Disney+.

Abaixo, relembre também os melhores momentos de Falcão e o Soldado Invernal:

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sobre o autor Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Crítico, roteirista e mago nas horas vagas. Wouldst thou like to live deliciously? || @gus_fiaux