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Crítica: DOTA Dragon’s Blood, Temporada 1

Por Melissa de Viveiros

DOTA: Dragon’s Blood, novo anime da Netflix produzido em uma parceria entre as produtoras Studio Mir e Kaiju Boulevard, traz o universo já conhecido do jogo Dota 2 da Valve para uma nova mídia, em uma tentativa de expandir a franquia ainda mais. Quem protagoniza a trama é o Davion, um Cavaleiro Dragão, que se junta à princesa Mirana em busca de parar o demônio Terrorblade

A animação tem a difícil tarefa de agradar aos fãs enquanto conquista um novo público, sem conhecimento prévio destes personagens e do universo onde a história se passa. Apesar disso, o pano de fundo de fantasia tradicional, cheio de magia e ação, permite que a série estabeleça um futuro promissor para a franquia nas animações, mesmo com seus tropeços. Aqui, você pode conferir nossa crítica de DOTA: Dragon’s Blood!

Ficha Técnica

Título: DOTA: Dragon’s Blood

Criação: Ashley Miller

Direção: Park So Young e Kim Eui Jeong

Ano: 2021

Data de lançamento: 25 de março

Número de episódios: 8

Sinopse: Um cavaleiro Dragão em conflito deve usar a força do dragão interior para deter um demônio mortal nesta fantasia épica baseada no jogo online.

DOTA: Dragon’s Blood: Um mundo épico de fantasia perdido entre agradar aos fãs e conquistar um novo público.

O que não falta no gênero de fantasia são histórias voltadas para magia e dragões em mundos inspirados na Europa medieval, e ainda que a fórmula agrade aos fãs, pode se tornar cansativa quando uma obra não tem mais que isso a apresentar. Este, felizmente, não é o caso de DOTA: Dragon’s Blood, que se baseia no universo do MOBA (Multiplayer Online Battle Arena, ou Arena de Batalha Multijogador Online, em tradução livre) Dota 2, desenvolvido e publicado pela Valve. Embora conte com diversos clichês, a história tem mais a oferecer do que apenas uma fórmula pré-pronta, e conquista com seus personagens, ambientação e pela qualidade da produção.

Quando se trata de questões mais técnicas, o anime possui mais acertos que erros, apesar de seus problemas serem difíceis de se ignorar. Produzida pelo Studio Mir, conhecido por Voltron: O Defensor Lendário e A Lenda de Korra, a arte da obra é, em geral, muito bem feita, e conta com cenas muito bonitas e bem animadas. No entanto, existem momentos em que a arte 2D é substituída pelo 3D, principalmente em cenas de ação, onde a mudança é notável e prejudicial ao anime, causando uma sensação de estranhamento bastante incômoda. Além de destoar do 2D que compõe a maior parte da animação, as cenas em 3D deixam muito a desejar em relação à excelente qualidade do restante do anime.

A versão em português da dublagem trouxe nomes muito conhecidos, como Wendel Bezerra no papel de Davion, Duda Ribeiro como Invocador e Fernanda Baronne como Luna. Tanto as vozes, quanto a tradução em si, são muito bem feitas, e a versão brasileira não deixa a desejar quando comparada com a original. Além disso, as músicas da série chamam a atenção, construindo uma trilha sonora não só coerente com o anime, como de grande qualidade.

Já quando se fala da história, a animação apresenta uma premissa simples: um herói caçador de dragões que se envolve com problemas muito maiores do que esperava e se alia a uma princesa na tentativa de impedir um grande vilão. Na prática, porém, a trama mostra ter muito mais nuance e profundidade do que se esperaria a partir disso, embora tropece ao tentar levar os personagens de um ponto a outro em determinados momentos.

No início, somos apresentados a Davion, o Cavaleiro Dragão (o Dragon Knight de Dota 2), que é mostrado como um herói, derrotando um dragão e assim protegendo uma vila da criatura. Seu fiel escudeiro, Bram, o acompanha em suas aventuras, e é o responsável por contar a todos sobre as grandes batalhas do cavaleiro enquanto eles comemoram a vitória em uma taverna. Apesar disso, nem todos se mostram contentes com os feitos de Davion, que se recusou a caçar o Ancivorme, um dragão antigo e muito poderoso, que ele afirma que seria difícil de se enfrentar mesmo com um exército bem preparado. Quando um dos personagens demonstra seu descontentamento e, já bêbado, parte em busca do dragão sozinho, temos o princípio da história de fato, com Davion partindo para salvá-lo e encontrando seu destino ao começar a se transformar em um dos monstros que caçava.

O dilema do herói entre o que se tornou e seus princípios, bem como a própria aceitação de sua nova natureza monstruosa, são desenvolvidos ao longo de toda a série, dando profundidade a um personagem que poderia ser apenas um herói genérico, mas demonstra ter falhas e sentimentos, crescendo no decorrer da história. Davion, no entanto, não é o único exemplo. A série dá a devida atenção aos conflitos internos de cada um dos personagens mais importantes, se preocupando em apresentá-los não somente como pessoas muito poderosas, mas também dando a eles humanidade, conflitos e características positivas e negativas.

Mirana, por exemplo, é introduzida como uma princesa exilada em busca de recuperar as lótus roubadas da deusa da lua, Selemene, e mostra possuir a arrogância da realeza, embora também se mostre leal e busque proteger aos outros, além de ser capaz de ouvir àqueles que se opõe a sua fé e de fazer compromissos a favor da paz. Na narrativa, ela tem o papel de mostrar um lado melhor dos seguidores de Selemene, que poderiam ter sido reduzidos a fanáticos, mas não o são. Ao mesmo tempo, Luna representa a parte mais brutal dos devotos da deusa, embora nenhuma das duas seja reduzida a representações “preto e branco” de bem e mal, e suas experiências ao longo dos oito episódios de Dragon’s Blood as levam para caminhos bem diferentes de onde começaram.

A introdução de Fymryn, personagem original do anime, é coerente com o universo do anime, e a personagem não destoa daqueles que já existiam. No entanto, ainda que fique claro desde o princípio que sua história estará ligada à de Mirana, sua trama a princípio não se encaixa tão bem com as aventuras da princesa, que já encontra Davion no primeiro episódio. A primeira aparição de Fymryn se dá apenas no fim do segundo episódio, e ela só é introduzida de fato quando o casal de protagonistas já está lidando com a questão urgente da transformação do Cavaleiro Dragão. Apesar de interessante, a história dos elfos parece pouco relacionada aos dragões no começo, criando a impressão de que, em determinados momentos, a trama seja desconexa e cansativa, ainda que isso se resolva quando o caminho de Fymryn se cruza com o dos protagonistas.

Do lado dos antagonistas e personagens mais “neutros”, Dragon’s Blood se sai melhor. A história consegue estabelecer o vilão principal como a grande ameaça que é, e Terrorblade consegue se destacar apesar de não ter muitas aparições durante a primeira temporada. Outros personagens de moral duvidosa, como a deusa Selemene e o misterioso Invoker, também roubam a cena com suas personalidades e histórias. Este último é, inclusive, muito bem explorado, e o anime faz um bom trabalho ao contar sobre sua vida e motivações, tornando o personagem mais simpático aos olhos do público.

Isso não quer dizer que a trama não tenha problemas. Existem relacionamentos entre os personagens que mereciam um desenvolvimento melhor, e parecem apressados demais sem um motivo para isso. Outro problema se dá com a mudança brusca de opinião que alguns personagens demonstram em relação a outros, passando de desconfiados a apaixonados ou amigáveis em um período muito curto de tempo, onde nada acontece para justificar tamanha mudança.

O maior problema da produção, no entanto, está na aparente indecisão entre se dedicar ao público já familiar com o universo e conquistar novos fãs para a franquia. Ao mesmo tempo em que muito tempo é gasto estabelecendo os personagens, seu passado e suas motivações, as explicações sobre o universo variam entre muito superficiais ou extensas demais.

O episódio inicial da série começa explicando a origem do universo neste mundo, por exemplo, mas o faz de modo muito expositivo, ainda que utilize a beleza de sua arte para criar um elemento visual interessante. Outros elementos importantes, no entanto, não são bem explicados, e para aqueles que são novos, pode ser difícil acompanhar a série nos momentos em que ela parece assumir conhecimento prévio. A alternância entre esses dois tipos de situação acabam prejudicando a série como um todo, e impedem que DOTA: Dragon’s Blood seja ainda mais notável do que o produto final realmente é.

Em suma, o anime pode não ser considerado extraordinário, mas tem mais acertos do que erros, e ainda que falhe ao ficar no meio do caminho entre os fãs e o público novo, consegue apresentar uma história cheia de personagens cativantes e multidimensionais, em um mundo de fantasia que, apesar de todos os clichês, tem ideias interessantes.

Os fãs de Dota 2 talvez se cansem das explicações, mas não deixa de valer a pena dar uma chance para a produção e conferir como os heróis tão conhecidos foram retratados na telinha. Já para aqueles que não têm conhecimento algum da franquia, ainda que por vezes a trama possa parecer confusa, a produção tem ação, carisma e uma história que compensa por isso. Acima de tudo, DOTA: Dragon’s Blood é um prato cheio para os fãs do gênero fantasia, que vão se deliciar ao conhecer todo um novo mundo em uma história que parece ser apenas o começo de algo muito maior.

Nota: 3,5/5

Os oito episódios de DOTA: Dragon’s Blood estão disponíveis na Netflix.

Abaixo, você pode conferir todos os animes que chegam à Netflix este ano:

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sobre o autor Melissa de Viveiros

Graduanda em Letras na UFMG. || What is infinite? The universe and the greed of men. || @windrunning_