Crítica: Cowboy Bebop, Temporada 1

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Crítica: Cowboy Bebop, Temporada 1

Por Márcio Jangarélli

Cowboys do espaço, uma nova recompensa acabou de aparecer! Com lançamento marcado para o dia 19 de novembro, a Netflix deu acesso antecipado à Legião dos Heróis ao live-action de Cowboy Bebop, para acalmar – ou não – os nervos do público antes da estreia.

Dez episódios depois, posso dizer que a série tem sim espírito e é divertida, mas talvez tenha feito apostas seguras demais para uma obra marcada pela originalidade e vanguardismo mesmo duas décadas depois.

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Ficha técnica:

Título: Cowboy Bebop

 

Criação: André Nemec

 

Roteiro:  Christopher Yost 

 

Ano: 2021

 

Data de lançamento: 19 de novembro (Netflix Brasil) 

 

Número de episódios: 10

 

Sinopse: Estilosos e sem grana, os caçadores de recompensas Spike, Jet e Faye rodam o sistema solar em busca de trabalho. Mas será que eles conseguem fugir do passado de Spike?

Blues do quebra-cabeça

O trio principal tem carisma o suficiente para te prender na série

Poucas produções estavam me deixando tão animado nesse ano quanto o live-action de Cowboy Bebop. Você pode dizer, “Mas esse é o mesmo streaming que fez aquilo com Death Note” ou coisas do gênero. E eu concordo, o currículo deles não é dos melhores. No entanto, com uma produção tão empenhada e ligada à equipe original, dava para ter um pouquinho de esperança.

É por isso que eu saí com um gosto agridoce na boca depois de, enfim, assistir à primeira temporada de Cowboy Bebop. Veja bem, não é nenhum Death Note, mas faltou. Coragem? Orçamento? Visão? Uma peça não está completando esse quebra-cabeça e isso incomoda mais do que deveria.

A adaptação é absurdamente fiel ao anime, isso é inegável. Mesmo as mudanças que foram feitas para comportar o formato de série vieram do cosmos de Cowboy Bebop. Então pode ser que você não veja essas duas histórias separadas, mas que elas apareçam juntas – e isso funciona muito bem. Dá para notar um carinho muito grande pela obra original e que a equipe quis aproveitar ao máximo aquele universo.

Visualmente, a produção também funciona, especialmente se você entender logo que, bom, efeitos especiais não serão o ás da série. Até porque, para uma primeira temporada, de algo tão divisivo quanto uma adaptação de anime, o orçamento não deve ter sido dos maiores. Assim, dentro de suas capacidades, Cowboy Bebop possui uma atmosfera muito bonita e fiel à animação, que casa com o ritmo dinâmico e as inspirações pulp do material.

Posso continuar elogiando tanto elenco, quanto trilha sonora e tudo mais porque muitas peças da produção funcionam bem. Claro que existem alguns deslizes aqui e ali, mas nada que comprometa o resultado final. O grande contra de Cowboy Bebop, no entanto, fica na coragem de levar todas essas coisas um passo adiante e na visão total da obra.

Se a série seguisse mais para o lado frenético do material promocional, teria se dado bem melhor

Cowboy Bebop é daquelas adaptações onde ousar é possível. Na verdade, requerido. Um dos charmes do anime está em como o título torce, retorce, mistura e renova seu formato a cada episódio. Você conhece os personagens pelas interações do grupo entre si e com estranhos e o universo através de acontecimentos pontuais e conversa fiada.

Existe uma cronologia, vilões e um plot central, mas eles acabam não sendo essenciais para o desenvolvimento, quando a força principal do anime não está ali. Assim, dá para ter um episódio sobre o passado do Spike, seguido por uma caçada aleatória e outro sobre uma geladeira monstro. 

No fim, você se apaixona pelos personagens, mesmo quando eles aparecem uma vez apenas, pela história como um todo, pelo formato, pela arte… enfim, é assim que Cowboy Bebop te captura.

Claro, pedir algo assim de uma adaptação ocidental, para um serviço de streaming, é muito. Para captar mais público, é preciso um formato mais conhecido, uma construção mais básica, para não assustar quem está entrando na nave para sua primeira viagem. 

Mas a adaptação acaba se dosando demais e isso cria seus piores momentos. É quando a série tenta ser explicativa, clara ou “inteligente” demais que as rachaduras aparecem – enquanto os pontos altos ficam quando a produção resolve arriscar mais.

Jazz das distorções

Eles podem não funcionar tão bem na série, mas essa cena entre Spike e Vicious ficou muito legal

Confesso que é um pouco engraçado ter visto as pessoas passarem meses infernizando a vida dos atores do Jet e da Faye (por motivos que vocês sabem bem o que são) para, no fim, o personagem mais destoante da série ser o Spike. Pois é.

Enquanto, visualmente, o Spike é um dos mais fiéis ao anime, suas motivações, sua história e até sua personalidade foram distorcidos do que o tornou um personagem apaixonável. A série expõe demais o caçador de recompensas para o público, tenta revelar sua psique e seus demônios internos, quando o mistério e o desinteresse são essenciais seus.

Isso não funciona nem se o considerarmos um personagem “original”, para um novo público, porque ele acaba como alguém antipático. Não que o Spike seja simpático no original, mas ele gera uma relação de entendimento, curiosidade e identificação com o público, algo que não acontece aqui.

Devo dizer que é até meio difícil ver alguns momentos do Spike e seu passado. Na verdade, tudo relacionado a isso e, especialmente, ao Vicious, é destoante, caricato de uma forma que não cabe aqui. Talvez a salvação desse plot seja a Julia, mas isso é papo para outra hora.

Jet Black rouba a cena no live-action!

Por outro lado, Jet e Faye são o carisma de Cowboy Bebop, especialmente o capitão da nave, interpretado por Mustafa Shakir. Ele é o melhor personagem dessa primeira temporada e consegue até transformar o Jet Black em algo único para o live-action. Shakir é o coração da Bebop e da série e até os episódios onde ele é o protagonista são os melhores.

Já a Faye da Daniella Pineda teve sim suas mudanças da original, mas não é tanto quanto parece. A ganância, o humor e a confusão da personagem continuam os mesmos e ela possui momentos ótimos, adaptando e até elevando porções da versão original. A jornada com ela é um pouco mais tumultuada do que com o Jet, mas, em certa hora, sua peça encaixa perfeitamente.

Os criminosos e personagens que conhecemos do anime são uma montanha-russa. Algumas adaptações ficaram incríveis, tanto na fidelidade, quanto na originalidade, como a Maria Murdock ou o Teddy Bomber. A Ana e Gren passaram por grandes mudanças de suas contrapartes originais, mas o resultado ficou ótimo. Outros, no entanto, pecam no desenvolvimento, visual ou adaptação, mas não chegam a ser algo terrível; só não atingem o padrão do original.

A Woodcock é uma das personagens originais mais… peculiares e sensacionais da série

Falando em original, as criações da série foram quase todas bem sucedidas. Personagens como a Woodcock ou a Mao são ótimas adições ao elenco de excentricidades de Cowboy Bebop. Mas há, sim, tropeços, como o Santiago, que não acerta o ponto da caricatura da história.

Um pouco mais de orçamento faria toda a diferença no departamento da caracterização. Enquanto não vejo problemas no trio protagonista – o visual deles, ainda que um pouquinho barato, casa com a atmosfera da série – existem personagens ali no meio que parecem, sim, um cosplay pobre. Um em específico está bem triste, para ser sincero.

E mesmo que a atuação no geral siga a linha do exagero – e isso não é ruim, adiciona à identidade da série – às vezes passa um pouco do ponto e fica apenas feio. Não só isso, mas cria um ruído na personalidade desses personagens que não deveria existir. Estou olhando para você, Vicious.

Valsa do equilíbrio

Você termina a temporada interessado em continuar na galáxia da Bebop para mais histórias

Acompanhar adaptações é sempre uma aventura e, nesse caso, o que faltou foi a coragem de tentar um pouco mais. Boa parte do que sai do tradicional ali é mais promissor e legal do que apenas seguir na fidelidade. Inclusive na música! Mesmo que a trilha sonora original seja uma das melhores de todos os tempos, há um pequeno estranhamento com a sua utilização na série, ao mesmo tempo que composições novas parecem mais harmoniosas.

A experiência final do live-action de Cowboy Bebop é estranha, mas divertida. Se você é familiar com o anime, é quase a sensação de ver um daqueles mosaicos feitos com pedacinhos diferentes de vidro. Existe um reconhecimento e nostalgia em partes, mas as peças foram rearranjadas para criar algo novo que você ainda não conhece.

Com seus altos e baixos, Cowboy Bebop é uma boa série e me fez querer ver mais desses personagens, especialmente com os ganchos que são deixados para uma segunda temporada. É uma aventura divertida, curiosa e levemente original – o bastante para crescer no futuro.

Assim, a primeira temporada de Cowboy Bebop leva 3,5 estrelas da Legião dos Heróis. É uma nota pelo contexto geral da série e um voto de confiança para um segundo ano que supere sua introdução.

Nota: 3,5/5

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sobre o autor Márcio Jangarélli

Assessor, redator e jornalista. Madonna de Jakku.