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[Crítica] Círculo de Fogo: The Black traz anime de robôs gigantes à Netflix

Por Gabriel Mattos

Círculo de Fogo: The Black, novo anime da Netflix em parceria com a Legendary Pictures, é mais uma tentativa de dar continuidade ao legado deixado por Círculo de Fogo, de Guillermo Del Toro. Mesmo sem envolvimento direto de seu criador, a produção consegue se reinventar com sucesso, apesar de trazer uma narrativa bem arrastada.

Enquanto o filme original trazia o frescor de um toque ocidental à centenária cultura de kaijus explorada pela cultura japonesa, The Black faz o caminho inverso e acaba atraindo comparações injustas com grandes clássicos dos animes, como Neon Genesis Evangelion. Apesar dos tropeços, The Black estabelece uma base sólida para um futuro brilhante.

Robôs gigantes e Kaijus ficam em segundo plano em The Black

Ficha Técnica

Título: Círculo de Fogo: The Black

 

Criação: Greg Johnson e Craig Kyle

 

Direção: Masayuki Uemoto, Susumu Sugai e Takeshi Iwata

 

Ano: 2021

 

Número de episódios: 7

 

Sinopse: Após eventos traumáticos, os irmãos Taylor e Hayley procuram seus pais em uma Austrália pós-apocalíptica, mas tudo começa a dar errado quando são capturados por um grupo de bandidos.

Dois irmãos em um continente devastado

Uma Austrália Perdida

A princípio, Círculo de Fogo: The Black parece apenas mais uma história genérica de robôs gigantes defendendo o mundo de uma invasão alienígena — ou nesse caso, apenas a Austrália.

A história se passa anos depois dos eventos de Círculo de Fogo: A Revolta. E, apesar de ser possível compreender o enredo sem nenhum conhecimento prévio da franquia, The Black não faz nenhum esforço para explicar conceitos explorados pelos filmes anteriores. Portanto, o recomendado é assistir todas as produções na ordem de lançamento.

A Austrália foi completamente dominada pelos kaijus e, quando os Jaeger falharam, a única solução foi bombardear o continente perdido — dando origem à Zona Obscura. É nessa terra desolada pós-apocalíptica que surgem os protagonistas Hayley e Taylor. Após uma série de tragédias, os irmãos se veem obrigados a partir em busca de seus pais em uma jornada rumo ao desconhecido.

Robôs gigantes trazem grandes barreiras na narrativa

O difícil legado de Del Toro

O grande desafio de The Black é reinserir os kaijus no centro da narrativa depois dos acontecimentos de Círculo de Fogo. O filme não foi pensado para ter continuações e, por consequência, coloca um final definitivo na questão dos kaijus. Mas deixar de combater esses monstros está fora de questão, afinal essa é uma parte essencial da franquia. A questão é: como resgatá-los?

A Revolta escolheu seguir pelo caminho mais difícil ao aceitar o ultimato deixado por Guillermo Del Toro, mas The Black prefere assumir uma ousada abordagem híbrida: trazer os kaijus de volta sem deixar de explorar alternativas científicas para as enigmáticas criaturas.

Com essa base, a narrativa tece uma intrigante rede de mistérios que consegue carregar o interesse do público por grande parte da história, mesmo quando os personagens falham em entreter.

O garoto é um dos maiores mistérios da trama

Se por um lado a mitologia desperta curiosidade, as relações pessoais não podiam ser mais genéricas. E isso é um grande problema quando elas são responsáveis por contrabalancear as grandes cenas de ação.

Círculo de Fogo é sobre superar traumas pessoais, ser vulnerável com outras pessoas e confiar em seus aliados para resolver problemas gigantes. É quase uma meditação em forma de filme de ação. Mas em The Black, os protagonistas esquecem seus traumas quando a história precisa progredir e toda a questão emocional perde grande parte do seu impacto.

Para piorar a situação, o comportamento de alguns personagens não apresenta qualquer consistência. Parece haver uma certa falta de coordenação entre os roteiristas, que afeta especialmente Taylor. Enquanto em um episódio, ele demonstra ser extremamente cauteloso com desconhecidos. Em outro, acaba em problemas por confiar demais. É menos perceptível conforme a trama avança, mas quebra a imersão quando a história luta para engatar.

Mei e os contrabandistas de Kaiju trazem um novo foco à trama

Briga de gente grande

Esse é mais um sintoma do problema constante que a série demonstra em encontrar um tom, que só é resolvido com a introdução dos contrabandistas de kaiju. Os antagonistas trazem um foco muito necessário para narrativa que deixa os riscos muito mais presentes.

Mesmo que não haja muitas batalhas entre kaijus e Jaegers, os contrabandistas trazem uma tensão notável de que tudo pode dar errado caso os mocinhos pisem fora da linha. Muito disso graças a violência passiva de Shane, que controla tudo com grandes ameaças que intimidam ainda mais quando são cumpridas — de maneira similar ao Rei do Crime na série Demolidor.

Seus métodos sofisticados de manipulação incorporam a mitologia da série e ajudam a expandir as noções do que é possível nesse mundo pós-kaiju. Ele domina todos os episódios em que aparece e eleva o anime a um nível de excelência que é mantido até os momentos finais.

E somente nesses momentos finais que temos as tão aguardadas batalhas entre os Jaeger e Kaijus. O anime faz um excelente trabalho em forjar uma questão pessoal entre os irmãos e o monstro gigante que culmina em uma gloriosa batalha final.

As poucas batalhas de Jaeger empolgam

Ao longo de seus sete episódios, Círculo de Fogo: The Black se preocupa bastante em deixar uma base sólida para o futuro da franquia. A maior preocupação dessa primeira temporada é colocar todas as peças no lugar, elevando as expectativas do que está por vir.

Apesar dos problemas, é um anime bem gostoso de assistir. Quando engata, The Black traz um mistério envolvente com batalhas interessantes e personagens promissores. Não vai surpreender os mais céticos, mas vai entreter quem assistir sem muitas expectativas.

4/5

Nota: 4/5

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sobre o autor Gabriel Mattos

Redator que joga mais Switch do que deveria e já leu todo o novo cânone de Star Wars, até os livros ruins. • @gabeverse