Crítica: Amor, Sublime Amor ganha modernização grandiosa pelas mãos de Steven Spielberg

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Crítica: Amor, Sublime Amor ganha modernização grandiosa pelas mãos de Steven Spielberg

Por Arthur Eloi

Steven Spielberg é um dos maiores responsáveis por construir a cultura pop moderna, graças a clássicos como Tubarão, Indiana Jones, E.T. e muitos outros, mas o cineasta raramente se perde na nostalgia. Seja como produtor ou diretor, Spielberg caminha por épicos de guerra, thrillers, aventuras infantis e dramas de espionagem, movido pela paixão pelo cinema.

Nesse vasto e impressionante currículo, que cobre do terror a animação, algo faltava: um musical. O cineasta já manifestou sua intenção de comandar algo no gênero há anos, e agora encontrou um desafio a altura com uma nova versão de Amor, Sublime Amor, obra que lançou a carreira de Stephen Sondheim nos palcos, e cuja adaptação cinematográfica de 1961 simplesmente voltou para casa com 10 estatuetas do Oscar no ano seguinte – incluindo Melhor Filme.

Nessa nova versão, que chega aos cinemas na reta final de 2021, Steven Spielberg aborda a tarefa da mesma forma que lida com o próprio legado: com confiança, respeito ao cinema clássico, mas sem medo de ousar, questionar e se divertir.

Ficha técnica

Título: Amor, Sublime Amor (West Side Story)

Direção: Steven Spielberg

Roteiro: Tony Kushner

Data de lançamento: 9 de dezembro de 2021

País de origem: Estados Unidos

Duração: 2h 36min

Sinopse: Uma adaptação do musical de 1957 que explora o amor proibido e a rivalidade entre os Jets e os Sharks, duas gangues de rua de adolescentes de diferentes origens étnicas.

Jets vs. Sharks

Amor, Sublime Amor é, em essência, Romeu & Julieta nas ruas de um bairro esquecido na Nova York da década de 1950. À margem do glamour da cidade, os moradores enfrentam a pobreza, a sujeira e a violência, vinda do confronto entre duas gangues: os Jets, grupo de jovens de lares quebrados, e os Sharks, imigrantes porto-riquenhos. Em lados opostos do conflito, durante uma tentativa de confraternização, os jovens Tony (Ansel Elgort) e Maria (Rachel Zegler) dançam juntos e se apaixonam, o que apenas aumenta as tensões entre os dois lados.

Desde sua concepção na década de 1950, o musical sempre lidou com crime, preconceito e desigualdade social. Todos esses temas foram tocados no filme clássico de Jerome Robbins e Robert Wise, mas aqui eles entram na lupa de Spielberg, que dá mais foco ao conflito urbano. A nova versão deixa bem claro que nenhum dos integrantes das gangues realmente está vivendo o Sonho Americano. A briga territorial entre os Jets e os Sharks surge do desespero, simplesmente pelo fato de que aqueles quarteirões onde eles vivem – prestes a serem demolidos para virarem apartamentos de luxo que ninguém pode pagar – é tudo que eles têm.

Essa metade da trama ganha um acabamento um pouco mais bruto, em cenários que traduzem a decadência de bairros e vidas esquecidas, à beira do apagamento. O grande acerto é que tudo é conduzido com um aceno aos clássicos do cinema de gangster e do film noir, com escolhas de enquadramentos e iluminação bastante dramáticos.

Em certo momento, a câmera observa de canto uma perseguição por um beco sujo. Já em outro, o jovem delinquente Riff (Mike Faist) discute com Tony em um porão escuro, com apenas um feixe de luz em seu olhar intenso. Ou então no grande confronto entre os Jets e os Sharks, em um depósito de sal abandonado em plena meia noite, as sombras dos rivais se cruzam no chão do galpão antes da violência começar.

O triunfo da direção de Spielberg é transitar entre momentos sombrios e a alegria e catarse com naturalidade. Em um momento, os Jets estão planejando se armar para enfrentar os rivais porto-riquenhos, enquanto no outro Maria sonha acordada com o seu romance com Tony. O longa entende muito bem a humanidade que consagrou o trabalho original de Stephen Sondheim e Arthur Laurents na Broadway, de que a vida é composta por drama, amor, alegria e violência em viradas igualmente imprevisíveis, mas estranhamente consistentes.

Sonhos em Technicolor

Considerando que Steven Spielberg passou os últimos anos envolvido em thrillers como Ponte dos Espiões (2012) e The Post: A Guerra Secreta (2017), não havia dúvidas de que ele iria brilhar nos aspectos mais intensos e dramáticos de Amor, Sublime Amor. O que mais surpreende é o quão bem o cineasta domina a outra metade dessa trama, com um musical que se sai acima de toda a leva de 2021.

Novamente influenciado pelo cinema clássico, o longa presta homenagem à era de ouro dos musicais, marcada por nomes como Gene Kelly e Judy Garland. Isso significa cores vibrantes e coreografias ousadas em planos abertos, sem se apoiar tanto na montagem, e sim no talento dos próprios intérpretes. O resultado são trechos verdadeiramente vibrantes e divertidos, de botar um sorriso no rosto.

Claro, Spielberg tenta adaptar o estilo para o público moderno, com montagem marcada por cortes que vez ou outra acabam interferindo na ação – mas dificilmente é um problema isolado da produção, e sim dos musicais contemporâneos como um todo. Em comparação com o original, as coreografias são um pouco menos expressivas e impressionantes, e se apoiam mais nos excessos de um blockbuster do que na técnica em si.

Basta olhar para “America”, o enfrentamento musical entre Bernardo (David Alvarez), o líder dos Sharks e sua namorada Anita. No clássico, o momento foi imortalizado por Rita Moreno em uma dança no telhado, que hoje soa quase minimalista. Já no novo, o casal discute por diversas ruas de Nova York, terminando em um grande número no meio de um cruzamento.

O mais impressionante acontece quando o filme combina suas duas influências – os musicais de Technicolor e os clássicos de mafiosos – em algo único e cheio de personalidade.

A cena do baile, em que Tony e Maria trocam olhares pela primeira vez, vibra nas cores, no movimento da câmera e nas danças, mas também é marcada pela tensão do enfrentamento silencioso entre Riff e Bernardo (David Alvarez), o líder dos Sharks – seja nas ameaças de violência, ou então na competição de dança. Já quando o casal principal se junta pela primeira vez em uma dança escondida, todo o ruído de fundo some em uma sequência que parece saída de um sonho, marcada por luzes azuis e violetas que dão um ar surreal ao início desse romance proibido.

Claro, boa direção não é suficiente para ficar a altura de um dos maiores clássicos do teatro e do cinema. Amor, Sublime Amor também conquista pelo elenco, que segura as pontas na dança, no canto, na briga e no humor.

O maior destaque ficam nas mulheres do filme. Rachel Zegler é a Maria perfeita cuja inocência é sutilmente transmitida apenas no olhar. Spielberg percebe isso, e deixa muito da emoção da personagem se manifestar apenas nos enormes e brilhantes olhos da atriz. Fora isso, ela também impressiona no canto ao frequentemente se lançar em agudos, cair na dança ou então discutir com seu irmão Bernardo em espanhol (colocando para jogo a sua ascendência colombiana). Com a atriz prestes a entrar no mundo dos filmes de herói com um papel de destaque na continuação de Shazam!, o longa lhe dá os holofotes para mostrar um pouco de todos os seus talentos.

Anita, a colega de quarto de Maria e namorada de Bernardo, também não decepciona. Esse é, sem dúvidas, o papel mais arriscado de toda a produção, visto que foi moldado por Rita Moreno no clássico de 1961. Ariana DeBose faz parecer fácil. Transbordando carisma e acidez, ela cria uma versão que se impõe ainda mais, sem medo de bater de frente com a polícia ou com os gangsters, mas que nunca deixa de ser altamente vaidosa e romântica. DeBose já tinha feito seu nome nos palcos ao participar de Hamilton desde antes da peça de Lin Manuel-Miranda chegar à Broadway, mas em 2021 mostrou sua força nas telas com a excelente (e desprestigiada) série Schmigadon!, da Apple TV+. Felizmente, agora ela tem um grande papel que lhe permite brilhar.

Outra escolha acertadíssima é ter Rita Moreno de volta. Ter vivido Anita no original foi o papel que a lançou para o mundo, e agora a atriz assume o papel de uma dona de loja que serve como mentora para Tony. Nos poucos momentos que dá as caras, Moreno demonstra que os 60 anos entre os dois filmes não afetaram em nada a sua energia, algo que já havia deixado claro ao longo de três temporadas de One Day at a Time. Sua presença é um dos poucos momentos em que Spielberg se permite ficar nostálgico pelo filme de 1961, mas sem apoiar nesse sentimento, lhe garantindo uma personagem importante para a trama.

Em comparação com as mulheres, o elenco masculino fica um pouco atrás. O único destaque é o Riff de Mike Faist, com um charme de delinquente retrô, fala acelerada e uma surpreendente humanidade por baixo de toda a sua valentia. Já o Bernardo de David Alvarez é um pouco superficial, que não vai muito além da imagem de latino briguento, faltando o apelo e a frieza que marcaram a atuação de George Chakiris no clássico.

Mas o Tony de Ansel Elgort é, sem dúvidas, a parte mais fraca de todo o filme. Não que o ator não saiba cantar – ele deita canções como “Maria” e “Cool” com facilidade -, mas sua performance é estática ao ponto de destoar. Isso fica ainda mais evidente quando aparece ao lado de Rachel Zegler, que consegue ser expressiva até sem falar nada.

Em contraste, Elgort mantém a mesma expressão vazia durante todas as duas horas e meia de duração. Nos raros momentos em que tenta algo diferente, como nas viradas dramáticas do final, o ator beira a breguice. Francamente, a maior qualidade que Ansel Elgort tem como galã é… ficar bonito no figurino e ser alto? Mas até isso é fácil quando sua parceira tem um metro e meio de altura.

Amor, Sublime Amor é a prova de Steven Spielberg consegue se reinventar mesmo após uma invejável carreira de mais de seis décadas. O diretor, em seus 74 anos, ainda é movido pela curiosidade e pela paixão pela arte do cinema, ao ponto de abordar um enorme desafio desses com uma homenagem a gêneros tão diferentes das telonas, e sem nunca parecer nostálgico ou apelativo.

Em um ano marcado por musicais altamente duvidosos (lembra de Querido Evan Hansen, ou a Cinderela com Camila Cabello?), o cineasta entrega uma obra grandiosa logo nos momentos finais de 2021. A nova versão é vibrante, dramática e bastante memorável, digna do alto padrão estabelecido por tudo que veio antes, mas cheia de personalidade ao ponto de se estabelecer como algo único. Na era das obras rasas e filmadas como videoclipes baratos e corridos, Amor, Sublime Amor resgata a magia de se perder em musical de alto nível.

NOTA: 4.5/5

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sobre o autor Arthur Eloi

Repórter entusiasta de filmes ruins, jogos de tiro e de horror em todas as suas formas. Dá notas duvidosas para obras questionáveis • @ArthurEloi117