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Crítica: A Casa Sombria é um terror psicológico indeciso entre o luto e o sobrenatural

Por Arthur Eloi

Mesmo após ser adquirida e renomeada pela Disney, a Searchlight Studios (antiga Fox Searchlight) continua sendo um dos estúdios e distribuidoras mais interessantes  para fãs de cinema de gênero, por sempre estar de olho em obras ousadas e nomes em ascensão. O cineasta David Bruckner é justamente isso, conquistando cada vez mais o seu espaço no horror após comandar o segmento mais marcante da antologia V/H/S (2012) e também O Ritual (2017), para a Netflix.

A Searchlight botou fé no trabalho de Bruckner, e em janeiro de 2020, adquiriu A Casa Sombria por impressionantes US$12 milhões durante o Festival de Sundance. O filme de terror agora chega aos cinemas brasileiros, e por mais que tenha inconsistências que enfraquecem o potencial da obra, dá para dizer que não foi dinheiro gasto à toa.

Ficha técnica:

Título: A Casa Sombria (The Night House)
Direção: David Bruckner
Roteiro: Ben Collins e Luke Piotrowski
Data de lançamento: 23 de setembro de 2021 (Brasil)
País de origem: Estados Unidos
Duração: 1h 48m
Sinopse: Uma viúva começa a descobrir os segredos perturbadores de seu recém falecido marido.

Fantasmas do Passado

A Casa Sombria acompanha Beth (Rebecca Hall), que se torna cada vez mais fria e apática durante uma intensa fase de luto pelo seu marido Owen (Evan Jonigkeit), que tirou a própria vida em circunstâncias estranhas. Quando começa a ser atormentada por pesadelos e eventos fantasmagóricos, ela investiga a causa da morte, e acaba esbarrando em uma verdadeira vida secreta de seu falecido esposo.

Lidar com luto ou suicídio são temas delicados, mas o filme caminha por eles com facilidade graças à atuação de Rebecca Hall, impressionante desde os primeiros minutos. Sem nunca ceder ao exagero, a atriz traz sutileza assustadora para Beth, que não só se vê solitária e desolada pelo evento, mas também manifesta sua dor através do cinismo, da raiva, do autodesprezo e da culpa. Para a história que se propõe a contar, é verdadeiramente surpreendente que a protagonista seja tão complexa assim, e Hall tira de letra, com uma força que ofusca todos com quem contracena.

Como Beth, Rebecca Hall entrega uma mulher realmente mudada pelo luto, da vontade de isolamento à raiva mal canalizada

A única coisa que fica a altura da atuação de Rebecca Hall é a direção de David Bruckner. O cineasta conduz essa trama de dor, luto e mistério criando uma atmosfera carregada. Da primeira aparição fantasmagórica até a conclusão, o filme é marcado por uma sensação de desconforto e tensão pura. Isso fica ainda mais evidente nas cenas que flertam com o sobrenatural, onde Bruckner mostra plena autoridade e controle, sem nunca se entregar aos sustos baratos – ou mesmo sem sequer dar sustos, apenas reforçando o suspense e a imprevisibilidade.

Não um lago, mas sim um oceano

O que fica abaixo da excelente atuação de Rebecca Hall, e da direção de David Bruckner, é o roteiro de Ben Collins e Luke Piotrowski. É longe de ser ruim, com diálogos críveis, bons momentos de drama e, claro, o ótimo desenvolvimento da protagonista, mas é indeciso demais para o próprio bem. Ao ritmo que Beth descobre mais segredos do marido, A Casa Sombria fica desnorteado e entrega um pouco de conto de fantasma, uma metáfora sobre luto e superação, toques de ocultismo, rituais e até um serial killer.

Muitos desses elementos funcionam surpreendentemente bem. Quando conduzido por um lado mais dramático, o filme usa toda força de sua atriz principal no que soa como um romance gótico para os dias de hoje, repleto de simbolismo e um certo terror existencial de ter que seguir em frente sozinho. Já quando vai para o lado do sobrenatural, o estilo de Bruckner brilha, ora pelo surrealismo, ora pelo suspense visual que, em um aceno às técnicas de Leigh Whannell em O Homem Invisível (2020), amedronta pelo ótimo uso de espaço vazio na tela.

É um pouco decepcionante que o longa não encontre uma forma de fazer esses dois lados igualmente intrigantes conversarem entre si, mas que também não decide priorizar algum dos caminhos. O resultado é algo um pouco estufado demais para o próprio bem, o que absorve o impacto de tudo. O drama perde um pouco de sua força frente ao surreal, e o sobrenatural acaba mal desenvolvido, com muita coisa grande sendo citada apenas uma vez para nunca mais ganhar tempo de tela ou explicações.

Se você espera que os elementos ritualísticos e de ocultismo que aparecem em A Casa Sombria serão desenvolvidos, vai acabar se decepcionando

A indecisão cobra um preço, e A Casa Sombria não atinge todo o seu potencial ao tentar ter um pouco de tudo de uma vez. Mesmo assim, as qualidades falam mais alto que os defeitos, e o filme serve como uma demonstração de força para todos os envolvidos. Além de deixar claro como Rebecca Hall merece mais espaço como protagonista, o longa indica que David Bruckner não tem medo algum de assumir os holofotes da produção mainstream, mesmo com origens nos nichos do horror.

Essa habilidade, o sangue-frio de transitar dos festivais especializados aos grandes circuitos de cinema com obras de gênero, será especialmente importante, já que Bruckner foi escalado para dirigir o reboot de Hellraiser – Renascido do Inferno (1987), um dos grandes clássicos do horror. Ainda por cima, a nova versão da obra de Clive Barker reunirá novamente o cineasta com os roteiristas Ben Collins e Luke Piotrowski. Assim, é possível entender A Casa Sombria como um ensaio para algo maior: há alguns ajustes finais e decisões que precisam ser revisitadas mas, julgando pelo talento puro da equipe, todos aqui já estão prontos para quando as cortinas subirem e o espetáculo começar.

Nota: 3,5/5

NOTA: 3,5/5

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sobre o autor Arthur Eloi

Repórter entusiasta de filmes ruins, jogos de tiro e de horror em todas as suas formas. Dá notas duvidosas para obras questionáveis • @ArthurEloi117