[Crítica] Cobra Kai: Terceira temporada equilibra bem fanservice e desenvolvimento de personagens

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[Crítica] Cobra Kai: Terceira temporada equilibra bem fanservice e desenvolvimento de personagens

Por Raphael Martins

Atenção: Alerta de Spoilers!

18 meses. Esse foi o tempo que os fãs de Cobra Kai que já acompanhavam a série via YouTube Red tiveram que esperar para conferirem a terceira temporada. O atraso teve um bom motivo: com a desistência da plataforma de continuar investindo em séries, a produção teve que encontrar uma nova casa para a continuação de Karatê Kid. A Netflix acabou adquirindo o seriado, disponibilizando as duas primeiras temporadas de uma só vez fazendo a produção finalmente explodir em popularidade, sendo descoberta pelo grande público… mas nada do terceiro ano da série aparecer.

Até que, no primeiro dia de 2021, o ano 3 de Cobra Kai finalmente viu a luz do dia, para a alegria de seus fãs. E toda a paciência valeu a pena: equilibrando muito bem duelos de karatê, desenvolvimento de personagens e muito fanservice, a Netflix entregou a melhor temporada da série até agora, deixando espaço para ser ainda melhor.

Depois da tempestade

O terceiro ano da série começa duas semanas após do final do segundo, no qual ocorreu uma enorme batalha campal na escola entre os discípulos do Miyagi-Do e do Cobra Kai, terminando com Miguel Diaz (Xolo Maridueña) sendo jogado do segundo andar e lesionando seriamente sua coluna. É nesse contexto que reencontramos os personagens, cada um tentando lidar com essa tragédia do seu jeito. Daniel LaRusso (Ralph Macchio) foi obrigado a fechar as portas de seu dojo, enquanto Johnny Lawrence (William Zabka), mais uma vez deprimido e alcoolizado, se culpa por tudo o que aconteceu.

Para piorar John Kreese (Martin Kove) se apoderou do dojo de Johnny, influenciando seus alunos a serem ainda mais impiedosos e cruéis do que jamais foram, e Robby Keene (Tanner Buchanan) segue desaparecido depois de ter derrubado Miguel. Diante de tudo isso, Daniel e Johnny não veem outra alternativa senão se unirem para salvarem a alma do vale de San Fernando, ao mesmo tempo em que Samantha LaRusso (Mary Mouser) monta sua própria resistência para combater os novos Cobra Kai de Kreese.

Daniel (Ralph Macchio) e Johnny (William Zabka) finalmente põe as diferenças de lado no terceiro ano da série

Conforme os episódios passam, vemos todos eles superando seus problemas e crescendo como personagens, e ainda que essa evolução não seja perfeita, está inegavelmente lá. Samantha, por exemplo, precisa lidar com o trauma do que aconteceu na escola, que tem em Tory Nichols (Peyton List) a personificação de todos os seus medos. A filha de Daniel passa por um problema muito parecido com o que ele próprio sofreu em Karatê Kid 3: O Desafio Final, tendo no exemplo de seu pai seu principal aliado para vencer o medo.

Até mesmo personagens antes mais secundários, como Demetri (Gianni DeCenzo), tem sua oportunidade de crescerem. O garoto não demonstra nenhum medo de Falcão (Jacob Bertrand), a quem nocauteou em sua última briga, e até tem um romance com Yaz (Annalisa Cochrane). Falcão aliás, está mais perigoso do que nunca sob a influência de Kreese, mas o vemos cada vez mais em conflito com suas ações.

Kreese, a estrela

Se há um personagem que se destaca entre os demais na terceira temporada de Cobra Kai, este é John Kreese. O grande vilão da trilogia Karatê Kid tem sua história e personalidade muito mais aprofundados aqui, com direito a flashbacks de antes e durante a guerra do Vietnã, que contam como ele se tornou o monstro que todos nós amamos odiar.

Embora ele continue sendo detestável, passamos a entender por que ele faz o que faz e é o que é, por vezes até fazendo com que o espectador se compadeça dele. Estes flashbacks, aliás, são muito mais importantes do que parecem: além de darem um contexto muito melhor a coisas que vemos em Karatê Kid 3: O Desafio Final, ele também prepara terreno para a quarta temporada, que deve trazer de volta um certo vilão com rabo de cavalo e uma predileção especial por traumatizar adolescentes em conflito.

Martin Kove como John Kreese: história do personagem foi aprofundada na terceira temporada

Kreese também mostra seu lado mais cruel e manipulador nos novos episódios, como quando obriga um aluno a sacrificar um ratinho fofo para alimentar uma serpente e o expulsa quando ele não consegue, ou quando manda seus alunos invadirem a casa de Daniel LaRusso e espancarem todo mundo lá dentro. Pior: matar pessoas não parece ser problema nenhum para ele, mesmo que isso inclua Johnny Lawrence, a quem, de uma maneira bastante distorcida, realmente ama como a um filho.

Kreese se mostrou um personagem mais perigoso do que o próprio Daniel poderia imaginar, e nem mesmo a polícia ou as autoridades conseguem tocá-lo. Ele até consegue um trunfo inesperado: Robby, a quem trouxe para o “lado sombrio da Força”, o colocando contra seu pai e seu mestre. A enorme batalha final entre ele, Johnny e Daniel só mostrou que, caso não se unam, não há como parar o fundador do Cobra Kai de vez.

Equilíbrio perfeito

Desde sua primeira temporada, Cobra Kai acerta bastante por manter o equilíbrio entre referências aos filmes clássicos e contar uma nova história, de uma maneira tão perfeita que deixaria o próprio Senhor Miyagi (Pat Morita) orgulhoso. Isso é elevado ainda mais nestes novos episódios, que mostram Daniel indo a um lugar muito importante tanto para sua vida quanto para os fãs das antigas: Okinawa, que serviu como palco para Karatê Kid 2, de 1986.

Lá, ele reencontra Kumiko (Tamlyn Tomita) e Chozen Toguchi (Yuji Okumoto), que foram respectivamente seu grande amor e seu maior inimigo durante o filme, mas nenhuma dessas aparições é gratuita e jogada no ar, tendo um enorme peso nos eventos da vida presente de LaRusso. Kumiko está lá para ajudá-lo de uma maneira bastante inesperada, enquanto que Chozen lhe revela que o Miyagi-Do é muito mais do que apenas defesa.

Chozen, aliás, faz com que Daniel sue a camisa novamente lutando contra ele, que está decidido a ter sua revanche. Ao mesmo tempo que isso é um presente para os fãs mais antigos, a aparição do personagem também contribui para construir o futuro da série, com Daniel aprendendo uma nova técnica, conhecendo melhor o estilo de luta de seu velho mestre, conquistando a amizade de seu antigo inimigo e até ganhando um pergaminho secreto do Miyagi-Do, que pode ser muito importante em seu próximo momento decisivo.

Chozen (Yuji Okumoto) e Daniel em uma cena de Cobra Kai: um velho inimigo com muito a ensinar

Mas nenhuma participação especial foi mais esperada e pedida do que a de Elizabeth Shue como Ali Mills, a garota que iniciou todo o conflito entre Johnny e Daniel em Karatê Kid: A Hora da Verdade. Ver a atriz de volta ao papel tão à vontade quanto estava em 1984 é um colírio para os fãs, que finalmente puderam descobrir como ela e LaRusso terminaram e o que ela andou fazendo durante os últimos 35 anos.

Ali tem algumas das cenas mais emocionantes da temporada para os fãs das antigas, como quando sai para se divertir no fliperama com Johnny ao som de Feel The Night ou quando está jantando na companhia de seus dois ex-namorados, servindo como mediadora para a rivalidade entre eles e os fazendo entender que, à sua própria maneira, ambos não são diferentes assim e que podem ter muito mais semelhanças que diferenças. Ali nos faz acreditar que sim, uma amizade entre eles pode ser possível.

Ali (Elizabeth Shue) e Johnny (William Zabka): reencontro dos dois foi algo muito pedido pelos fãs das antigas

Justamente por balancear tão bem passado, presente e futuro, as participações especiais de Cobra Kai continuam sendo o ponto mais alto da atração, algo que nós torcemos que continue assim nas próximas temporadas.

Ação e coração

Nesta temporada, a série apresentou um número muito maior de cenas de luta, superando em número e em intensidade qualquer coisa que veio antes. Embora nem todas elas tenham uma coreografia exatamente primorosa, é muito legal ver Daniel e Johnny lutando juntos contra uma gangue de ladrões de carro, ou os novos alunos de Kreese, chefiados pelo bully Kyler (Joe Seo) encarando Samantha e seus amigos em um duelo destrutivo dentro da casa da garota.

E mostrando mais uma vez que sabe como equilibrar as coisas,  a série faz com que esses duelos sejam cheios de uma carga dramática enorme, servindo como pontos de virada para os personagens. É durante a luta final que Falcão encontra sua oportunidade de redenção, Miguel volta à sua velha forma e Samantha supera seu medo de Tory, por exemplo.

Mas a emoção vai muito além das lutas de karatê. O relacionamento entre Miguel e Johnny é ainda mais aprofundado nesta temporada, usando a recuperação de Miguel para fortalecer a já inabalável amizade e fé que ambos tem um no outro. Mesmo em cenas mais engraçadas, como quando Johhny põe fogo nos pés do garoto para que eles voltem a se mexer (!!!), há um choque de realidade logo depois, que faz com que o público se veja investido no drama que os circula e vibre a cada pequeno avanço na recuperação de Miguel.

Johnny (William Zabka) ajuda Miguel (Xolo Maridueña) e ficar de pé: humor e drama na mesma medida

Veredito

O terceiro ano de Cobra Kai não é livre de problemas. O arco de Robby, por exemplo, fica um tanto apagado em meio ao conflito interno de Samantha, a recuperação de Miguel e a jornada de Daniel a Okinawa, mas nem mesmo isso consegue ofuscar os muitos acertos da produção em termos de desenvolvimento da história.

Algumas conveniências de roteiro, como o fato da mesma garotinha que Daniel salvou em Karatê Kid 2 ser justamente a única capaz de salvar sua empresa chegam a soar meio forçadas, mas a suspensão da descrença segue intacta quando nos lembramos que isso ainda é Karatê Kid e que as coisas sempre foram assim nessa franquia.

O Legião dos Heróis dá 5 insígnias da cobra para a terceira temporada de Cobra Kai, que na nossa humilde opinião, é a melhor até agora por manter todos os seus pontos fortes em total equilíbrio uns com os outros. “Equilíbrio bom, Karatê bom, tudo mais bom”, como diria o grande Senhor Miyagi.

O terceiro ano da série avançou bastante a trama principal e preparou muito bem o terrento para a quarta temporada, que mostrará mais uma edição do tradicional torneio de Karatê de All Valley. Quais são suas teorias? Não deixem de comentar!

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sobre o autor Raphael Martins

Redator, apresentador e roteirista. Gosto de longas caminhadas na praia, Star Wars, tokusatsu, anime e filé com batata frita. Deixo as pessoas constrangidas. Você pode trocar uma ideia comigo no Twitter: @aqueleraphael