Chucky 1×05: Pequenas Mentirinhas

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Chucky 1×05: Pequenas Mentirinhas

Por Gus Fiaux

Não é surpresa para ninguém que esteja lendo as reviews por aqui, mas Chucky se tornou uma das minhas séries favoritas de 2021. Há muitos motivos para isso – a construção de um bom slasher televisivo (diferente da tenebrosa Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado), o subtexto queer, a profundidade dos personagens, todo o drama adolescente colidindo com uma premissa camp e sanguinária. Mas talvez, o que mais indique o meu carinho pela produção seja o esforço de seus criadores.

Já cansei de rasgar elogios para Don Mancini aqui no passado – e acho que o envolvimento do cara que criou esse universo e esses personagens é um adendo muito bom que prova o quão longe estão dispostos a ir nessa aventura caótica -, mas o que mais se sobressai aqui é como Chucky é o puro suco da inventividade técnica, de um cinema ousado e original, que não tem medo de ir em alguns lugares que seriam considerados de mau gosto pelos “filmes sérios e importantes” queridinhos do público.

A história do cinema de horror é calcado nesse desenvolvimento – tanto é que foi no gênero que surgiram as maiores e mais cruciais inovações em departamentos técnicos como maquiagem, efeitos práticos e digitais, trabalho de som, fotografia e movimentos de câmera… a lista segue adiante e adiante. Contudo, o que a série do Brinquedo Assassino faz eleva essa qualidade a outro nível, mesmo com seu orçamento limitado e com vários entraves típicos da televisão – especialmente vindo de uma emissora “sem verba” como o SyFy.

Charles Lee Ray, interpretado por Fiona Dourif – a filha de Brad Dourif.

No filme original de 1988, somos apresentados a Charles Lee Ray, um psicótico assassino em série que, após ser encurralado pela polícia, realiza um ritual para passar sua alma para o corpo de um boneco. No filme, o personagem é interpretado por Brad Dourif (que também fornece a voz oficial de Chucky até hoje). Porém, para trazê-lo de volta nos flashbacks sobre sua vida e seu desenvolvimento, os produtores escolheram a saída menos óbvia e mais criativa: Fiona Dourif, a filha de Brad, sob fortes camadas de maquiagem.

Qualquer série mequetrefe teria apostado em rejuvenescimento digital (o que seria desastroso, tendo em vista todo o orçamento destinado à TV) ou apenas teria limado essa parte da história, mas Chucky acerta em cheio: além de ser uma solução muito barata, a semelhança é incrível – ainda mais porque o próprio Brad dubla as falas da filha. E isso acaba sendo uma homenagem e tanto, não apenas para o personagem mas para o ator que o acompanhou desde o começo de tudo.

E quanto a Fiona, ela está em turno duplo aqui. Não só ela faz o papel de Charles Lee Ray, como também retorna na pele de Nica Pierce (uma das protagonistas de A Maldição O Culto de Chucky, que agora está possuída por um fragmento da alma de Charles, agindo como um novo receptáculo do assassino). Ela aparece aqui ao lado da sempre maravilhosa Jennifer Tilly – que interpreta a assassina Tiffany Valentine no corpo da atriz Jennifer Tilly. Sim, Don Mancini não se leva a sério e é daí que saem os melhores surtos dessa franquia.

O relacionamento de Jake e Devon finalmente avança.

As duas estão em seu próprio frenesi assassino e não sabemos ao certo como isso vai se conectar à trama da série, mas rende uma ótima cena na qual Nica precisa batalhar contra a alma de Charles pelo domínio de seu próprio corpo – mesmo que isso a “enfraqueça”, já que, de alguma forma, ela perde o movimento das pernas sempre que não está possuída. Aliás, a própria Tiffany aparece nos flashbacks – e aqui, vemos como ela conheceu Charles Lee Ray, o que acaba resultando em um plot twist bem criativo.

Quanto à trama “central”, seguimos o fluxo da história que já havia sido estabelecida nos episódios anteriores – os feridos ainda se recuperam no hospital; o trio composto por JakeDevon Lexy continua se firmando, com as inimizades sendo deixadas de lado em prol de uma causa maior; as tensões na Família Wheeler estão aumentando; Chucky continua à solta e a vida em Hackensack está ficando cada vez mais caótica – mas, pelo menos, há um sinal de esperança no ar conforme Jake e Devon dão abertura para seus sentimentos.

A sensibilidade de Chucky para com esse relacionamento é surpreendente – especialmente se considerarmos que, no fim do dia, é uma série sobre um boneco possuído matando a torto e a direito. Mas aqui, temos duas cenas bem bonitas que exploram esse florescer de um romance adolescente, tudo tratado da forma mais pura e jovial, com os dois evoluindo da amizade para um romance inocente e ingênuo. A cena do beijo coroa isso de uma forma tão delicada e dá para ver como Don Mancini (que também é gay) tenta retratar tudo isso de uma forma profunda.

Cabeças vão rolar!

Agora, para quem estava reclamando que a série estava com mortes pouco inventivas e poucos momentos de puro e grotesco gore, o quinto episódio já dá uma leve virada nas coisas. Aqui, o foco está muito mais nos jogos psicológicos de Chucky e a forma como ele está manipulando toda uma cidade, voltando pais contra filhos. Mas ao final, quando os alunos se reúnem para conversar sobre as tragédias recentes da cidade, ele surpreende ao cortar a cabeça da diretora e jogar ao público, num verdadeiro festival de Sangue & Camp.

É a forma perfeita de encerrar um episódio – especialmente com a trilha sonora, que casa bem com o que está na tela de maneiras assustadoras. E é a promessa de que, agora, Chucky está livre de amarras, correntes e grilhões e seus instintos assassinos o levarão ainda mais longe. Só isso já faz valer a pena o que quer que Don Mancini tenha preparado pelos próximos episódios, ainda mais com o cânone da franquia colidindo com a chegada de Tiffany e Nica Pierce.

E um aviso para os fãs de longa-data: preparem o coração, porque o próximo episódio promete grandes emoções com o retorno de Andy Barclay (o primeiro garotinho perseguido por Chucky) e sua irmã adotiva, Kyle! Com cinco episódios ainda restantes, a série está preparando um crossover de grandes proporções, reunindo todas as diferentes “fases” da franquia e aumentando as apostas para um confronto sanguinário e visceral.

Chucky está disponível no Star+, com episódios novos lançados todas as quartas-feiras!

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sobre o autor Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Crítico, roteirista e mago nas horas vagas. Wouldst thou like to live deliciously? || @gus_fiaux