Chucky 1×01: Morte por Azar

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Chucky 1×01: Morte por Azar

Por Gus Fiaux

Na última quarta-feira (27), chegou ao catálogo brasileiro do Star+ o primeiro episódio de Chucky, a nova série do famoso boneco que protagoniza a franquia Brinquedo Assassino. Com a proposta de ignorar completamente o remake de 2019 e dar continuidade à saga original do personagem, a série foi desenvolvida pelo próprio criador de Chucky, Don Mancini.

E já no primeiro episódio, os fãs da franquia podem se deliciar com tudo o que esperamos de uma narrativa do vilão – morte, sangue e uma boa dose de humor. Porém, se a franquia sempre esbarrou em temas mais “cabeça” ligados à questão de gênero e sexualidade, a série se aprofunda ainda mais em algumas discussões e honra o legado deixado por Chucky Tiffany nos cinemas.

Mas não espere que a boneca volte logo de cara – até porque, da última vez que a vimos na franquia, ela está em um corpo humano, justamente o de Jennifer Tilly – que é a atriz que dá voz à personagem nos filmes, em uma piada metalinguística bem interessante. Não, ao menos nesse início, estamos nos reencontrando com Chucky, e como ele acaba sendo vendido em uma venda de garagem para um jovem menino angustiado, chamado Jake Wheeler.

A série é protagonizada por Jake Wheeler, um menino gay que sofre bullying na escola e que encontra Chucky em uma venda de garagem.

Ao longo da saga, o que não faltaram foram protagonistas diferentes e diversos para essa franquia. Claro que os três primeiros filmes são muito mais focados no desenvolvimento de Andy Barclay, a primeira criança perseguida pelo boneco, mas depois disso, a saga tomou rumos surpreendente e trouxe protagonistas humanos bem variados, já que o foco da franquia passou a recair muito mais sobre Chucky e sua “família” disfuncional.

Mas agora, vemos o brinquedo fazendo amizade com Jake, um menino gay que definitivamente não é a criança mais popular da escola, mas que também precisa lidar com a violência sofrida diariamente na mão de seu pai homofóbico – interpretado por Devon Sawa, de Premonição, que também faz o papel do tio de Jake (e irmão gêmeo do pai do garoto).

Por sinal, já nesse começo a série tenta apelar para um desconforto visível em todas as cenas que Jake tenta levar sua vida normalmente, com destaque para o jantar de família encabeçado por Lucas (o pai) e Logan (o tio), onde temos a chance de ver como o menino é tratado com desdém pelo seu primo, Junior Wheeler. Só isso já é o bastante para que possamos criar uma ligação imediata com o rapaz – principalmente quem já foi alvo de bullying.

Em casa, Jake precisa lidar com diversas provações – especialmente seu pai homofóbico e alcoólatra, Lucas.

Mas não é como se na escola as coisas fossem um pouquinho melhores. Na verdade, elas conseguem ser ainda mais pesadas por conta de Lexy Cross, uma das meninas mais populares da cidade (e namorada do primo de Jake). No começo, ela até parece uma pessoa bondosa e preocupada, apesar de seu forte tom condescendente – mas isso logo se prova uma mentira, enquanto ela se mostra cada vez mais desprezível.

Lexy é a típica bully, mas repaginada de outra maneira. Ela não só nutre um desdém por Jake, mas quer destruir sua reputação e qualquer chance que ele possa ter de uma vida feliz – e já nesse primeiro capítulo, ela realiza planos bem elaborados e extremamente maldosos, enquanto faz da vida do protagonista um inferno. Mas, como já é de se notar, dessa vez Jake não está sozinho e sabe revidar…

Um dos grandes acertos da série – de muitas maneiras – é mostrar como Chucky se tornou um “aliado” para Jake. E isso é feito de modo que o personagem não perca seus traços vilanescos e cruéis, mas redirecione isso para pessoas que também são cruéis. Tipo a série Dexter, só que um pouco mais surtada e menos sisuda. E é interessante notar que Jake reluta em obter ajuda do assassino, mas acaba se vendo “salvo” por ele, de muitas formas.

Nesse começo, veremos Chucky e Jake em uma parceria.

Claro que isso ainda deve ter consequências assustadoras e os próximos episódios serão determinantes para avaliar como JakeChucky vão nutrir essa “parceria”. Mas desde o começo, é uma sátira sagaz e bem intencionada, que mostra como homofóbicos e valentões não são melhores que um literal boneco amaldiçoado contendo a alma de um serial killer insano.

E por falar nisso, parece que teremos um vislumbre bem interessante sobre o passado de Charles Lee Ray – que, caso você não saiba, é como se chama o assassino humano que possui o corpo de Chucky (e foi eternizado por Brad Dourif nos cinemas). Aqui, temos uma breve sequência que explora mais de como ele era quando criança – e como as origens desse lado psicopata vão aflorar para que ele se torne o vilão que conhecemos.

Em um só episódio, Chucky já mostrou que veio para ficar. Numa época em que vários vilões e franquias estão de volta à TV e aos cinemas com forte apelo da nostalgia, a série mostra que dá para ser fiel ao passado, relembrando o que aconteceu na saga original e, ainda assim, ressignificar essas figuras para uma nova era e um novo discurso. É uma carta de amor para os fãs e uma celebração dessa franquia tão icônica criada por Don Mancini.

Chucky será exibida semanalmente no Star+, todas às quartas-feiras.

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sobre o autor Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Crítico, roteirista e mago nas horas vagas. Wouldst thou like to live deliciously? || @gus_fiaux