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Quem é Black Phillip em A Bruxa? Entenda a simbologia do bode na bruxaria

Por Gus Fiaux

Lançado em 2015, A Bruxa veio para consolidar uma nova era no terror em Hollywood. O filme conta com a direção precisa de Robert Eggers e foi lançado pela A24, uma produtora que ficou bem popular, sobretudo entre os fãs de horror. Na trama, a jovem Thomasin e sua família começam a ser atormentados pelas ações sobrenaturais de uma possível bruxa, enquanto um clima de tensão e culpa cristã faz com que todos os personagens passem por eventos transformadores hediondos.

E no centro disso tudo, uma figura acabou se popularizando bastante, tanto entre os fãs fervorosos do filme quanto na comunidade mais ampla de fanáticos por horror – trata-se do Black Phillip, um bode estranho que acaba tendo grande participação no longa e se tornando a principal figura antagônica do enredo. Ao longo da trama, essa figura acaba estabelecendo toda a tensão do filme, até o final catártico e terrível. E pensando nisso, aqui tentamos elucidar um pouco a respeito da figura do Black Phillip e seu papel em A Bruxa!

Black Phillip se tornou um ícone para A Bruxa, aparecendo até no pôster do filme.

Quem é Black Phillip?

Em A Bruxa, a família de Thomasin é expulsa de uma comunidade cristã e puritana na Nova Inglaterra, em meados do Século XVII. Eles vão morar no meio de uma floresta, onde estabelecem um casebre humilde e podem começar a fazer plantações e criar animais em um pequeno rebanho. Entre esses animais, existe um bode preto muito estranho que é batizado pelos irmãos de Thomasin como Black Phillip.

O bode é sempre visto com uma aura sombria ao longo do filme, mas sua participação só se torna grandiosa no ato final, onde ele ataca William, o pai de Thomasin, matando-o com ferimentos severos. Depois disso, há uma grande transformação e ele se revela como sendo o próprio Diabo, em uma conversa que tem com Thomasin depois que toda a família da garota é morta ou some misteriosamente.

O filme reflete muito dos ideais de culpa cristã e como isso acaba gerando um ambiente de repressão para a jovem Thomasin, que nunca pode ser totalmente livre por ter que respeitar à risca a doutrina de seus pais. Além disso, nós temos vislumbres de discussões a respeito de pânico satânico fanatismo religioso, conforme a própria mãe de Thomasin passa a desconfiar que ela é a bruxa que está causando todo o mal para a família.

Por isso, quando Black Phillip se revela como sendo o Diabo em pessoa (ou em bode), ele vem mais como uma figura de libertação que de tirania. Além de exterminar os pais da garota, ele oferece a ela todas as maravilhas do mundo, o gosto da manteiga e das laranjas e tudo que ela já ousou sonhar. Encantada com as promessas, ela assina seu nome no livro do diabo e se torna uma bruxa ao fim do filme, flutuando junto com um coven em meio a um sabbath.

No final de A Bruxa, Thomasin entrega sua alma para o demônio e se junta a um coven de bruxas.

A presença animal no filme

Com a construção imagética e cultural da figura da bruxa ao longo dos séculos, vários animais foram associados aos rituais, cerimônias e mitos mágicos. Por isso, não é surpresa que A Bruxa se utilize de uma figura como o bode para estabelecer uma relação forte entre a bruxaria e o satanismo. Porém, esses não são os únicos animais que possuem o papel de “conexão sobrenatural” ao longo do filme.

Black Phillip talvez seja o mais importante, pois estampou o primeiro pôster oficial do longa-metragem e esteve presente em peso na campanha de marketing, mas ao longo do enredo, nós também temos a presença marcante de um corvo e uma lebre – dois animais que estão presentes em vários documentos históricos e registros relacionado às atividades de bruxas e feiticeiras ao longo da história da humanidade.

Ambos os animais aparecem recorrentemente como familiares das feiticeiras – espíritos geralmente malignos que tomam a forma de animais para auxiliá-las em seus ritos. O corvo é uma presença significativa nesse sentido, por ser uma ave considerada “agourenta”, com seu crocitar sendo tido como um atrativo para maus presságios. Além disso, em algumas mitologias, é dito que as próprias bruxas se transformavam em corvos para tomar os céus.

O mesmo vale para as lebres. Em países nórdicos e nas ilhas britânicas, acreditava-se comumente que as bruxas assumiam a forma de lebres para realizar travessuras e ludibriar caçadores e camponeses. Assim, a presença desses animais no filme sugere que as várias bruxas que aparecem no final podem ter se transformado para aterrorizar a vida da família de Thomasin, todas servindo ao seu mestre, disfarçado de Black Phillip.

O Sabá das Bruxas, pintura de Goya datada de 1798.

O bode, a bruxaria e o satanismo

Porém, mesmo com essa presença animal bem demarcada, nos salta aos olhos que Black Phillip seja o ponto focal mais importante do filme – e tudo isso tem a ver com a conexão forte dos bodes à bruxaria e ao satanismo. De acordo com o próprio Robert Eggers, que estudou vários documentos e textos antigos para tentar criar a melhor e mais fiel atmosfera para seu próprio longa, toda a mitologia que liga os bodes às bruxas vem da cultura europeia.

Embora o filme se passe na Nova Inglaterra (área dos Estados Unidos que compreende do Maine ao Connecticut), a inclusão desse imaginário folclórico europeu ajuda a compreender um pouco mais essa conexão. Os bodes sempre foram tidos como criaturas estranhas e ardilosas, em grande parte por seus chifres e seus olhos, que possuem pupilas em formato retangular/oval. Além disso, são animais cujo cheiro era motivo de repulsa por parte da população.

Outro elemento importante a ser considerado são as várias representações da divindade pagã , bem como outros seres mitológicos como sátiros faunos, que tinham várias características físicas similares aos bodes. Quando o cristianismo dominou a Europa, religiões pagãs foram varridas do mapa e suas divindades foram demonizadas pela Igreja Católica, de forma que o próprio Pã passou a ser uma das várias representações do Diabo.

Por isso, diversas figuras atreladas à mitologia judaico-cristã acabaram ganhando a forma de bodes, e isso também foi apropriado por bruxos, ocultistas e satanistas desde o Século XIX, como uma espécie de resistência à hegemonia religiosa, algo que se manifestou em símbolos como Baphomet, eternizado nas ilustrações do mago Èliphas Lèvi. E considerando esse papel histórico do animal e a forma como seu símbolo foi ressignificado ao longo dos anos, esse é o principal motivo da presença do bode Black Phillip em A Bruxa.

A Bruxa está disponível em DVD, Blu-Ray e mídias digitais, além de estar no catálogo da Netflix!

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sobre o autor Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Crítico, roteirista e mago nas horas vagas. Wouldst thou like to live deliciously? || @gus_fiaux