Batwoman: Como a série está lidando com a troca de protagonista

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Batwoman: Como a série está lidando com a troca de protagonista

Por Gabriel Mattos

Batwoman nasceu como uma série revolucionária ao trazer a primeira super-heroína LGBT às telas da CW. Agora, com a saída da atriz Ruby Rose, logo após a conclusão da primeira temporada, a série precisou se reinventar mais uma vez. Kate Kane desapareceu e Gotham precisa de uma nova Batwoman — assim surge Ryan Wilder.

Se esse nome não lhe é familiar, não deveria ser mesmo: Ryan Wilder é uma personagem completamente nova. Ao invés de adaptar outro membro da Bat família, os produtores preferiram assumir a ingrata tarefa de introduzir uma personagem original do Arrowverse. Como a série se comportou com essa decisão ousada? É exatamente isso que vamos discutir.

Onde está Kate Kane?

O primeiro episódio da segunda temporada de Batwoman traz um sentimento peculiar. Enquanto por um lado a preocupação em contar uma história de origem traz uma sensação de novidade, como se fosse o início de uma série inédita, a continuidade do enredo de Kate Kane nos recorda que esse é um universo em expansão.

A aparente morte repentina de Kate — seguindo a queda do seu avião no final da primeira temporada — abala todo elenco da série: tanto heróis, quanto vilões. Uma disrupção necessária para uma narrativa que estava começando a se perder nas suas sub-tramas. É interessante inclusive perceber como a morte de Kate força a vilã principal da série até então — Alice — a reconsiderar todos os seus planos, dando abertura para o surgimento de uma nova antagonista.

A continuação do enredo civil de Kate, pelo que o primeiro episódio deu a entender, será carregada por Mary e Luke Fox. Além é claro de uma ousada adição para tornar as coisas ainda mais interessantes — Bruce Wayne.

O grande empresário esteve desaparecido por três anos antes da trama da primeira temporada da série, mas seu retorno não poderia ter sido mais oportuno. Até porque esse não é Bruce Wayne de verdade, mas sim Tommy Elliot. Mesmo que sua presença não passe de algo momentâneo, o plano de Alice para se infiltrar nas Indústrias Wayne vai abalar os fiéis escudeiros de Kate Kane a longo prazo. Plano esse que só poderá ser impedido pela própria Batwoman. Mas afinal, quem é Ryan Wilder, a nova mulher sob a máscara?

Quem é Ryan Wilder?

Esse é o momento que o roteiro se comporta puramente como uma história de origem, quase dissonante da continuação da narrativa vivida pelos demais personagens. Interpretada por Javicia Leslie, a primeira Batwoman negra é introduzida como uma pessoa em situação de rua que mora em uma van.

Ela descobre o traje de heroína por acidente. Por desejo do destino, os destroços do avião de Kate caíram bem nos arredores do local onde Ryan havia estacionado sua van. Ela encontra o traje sem dono e enxerga nele uma oportunidade milagrosa de mudar de vida. É então que conhecemos seu passado trágico.

A mãe de Ryan foi assassinada há alguns anos pelos capangas de Alice. A jovem acabou presa por meses por causa da corrupção dos Corvos, o grupo paramilitar implantou drogas para que ela fosse detida. Ela foi inocentada, mas não consegue pagar os advogados por não ter emprego. E não consegue emprego por ser uma ex-presidiária. E não consegue alugar uma casa por não ter emprego…

Apesar da história de Ryan trazer muita possibilidade de engrandecer a série, mostrando uma heroína com vivência semelhante aos cidadãos mais pobres de Gotham que ela jura proteger, fica claro que o modo como o passado trágico foi escrito é um reflexo da escalação de Javicia Leslie como Batwoman. Afinal, ela não é apenas uma heroína agora. É uma heroína negra!

Uma Batwoman negra

Ryan traz um necessário sopro de vida à série com sua personalidade inversamente diferente de Kate Kane. Ela é uma vigilante carismática, que faz piada e, mesmo tendo um histórico como professora de artes marciais, não é treinada militarmente como Kate. Uma Batwoman que nasceu da interpretação dos roteiristas do que é ser negro.

Ryan vive em uma van com sua planta.

Se por um lado temos uma história mais conectada com a realidade de diversos afro americanos que sofrem com abusos policiais nos Estados Unidos, qual é o impedimento para Ryan Wilder ter sido uma personagem poderosa e endinheirada como Bruce Wayne e Kate Kane? Para esses roteiristas, será que a vivência negra está necessariamente atrelada à falha e pobreza?

Todavia, é muito cedo para julgar uma história que acabou de começar. Mesmo com ressalvas, é louvável que a questão racial tenha sido incorporada com certa naturalidade nesta temporada.

Não é possível mensurar a importância de um membro negro de tanto destaque na Bat família, assim como a discussão de pautas normalmente ignoradas em séries desse calibre. O problema é a armadilha de tornar Ryan mais um produto de estereótipos correntes, definindo-a apenas por sua raça. Espero que ela se mostre muito mais ao longo da temporada.

Ryan faz um discurso político poderoso.

Passagem do manto

Mesmo com a ausência de Ruby Rose no papel da heroína, a antiga versão da Batwoman ainda está presente em certos momentos para estabelecer uma conexão entre a antiga vigilante e a sua sucessora.

Apesar de um ressentimento por não lutar pelos mesmos motivos, Ryan sente certa admiração pelo legado de Kate Kane, especialmente por também ser uma mulher lésbica. Enquanto veste o manto, ela está sempre se questionando sobre o que é ser uma heroína e suas respostas diferem um pouco de Kate.

Ela ainda está aprendendo as habilidades necessárias para honrar sua capa, mas precisará entender muito mais do que isso. Ryan está disposta a matar Alice para finalmente ter sua vingança, algo que Kate nunca aceitaria. A discussão tem interessantes reflexões nos personagens de Mary e Luke.

Essa discordância, apesar de pontual, reflete uma necessidade da série de encontrar qual tipo de Batwoman Ryan se tornará. Os produtores parecem ter entendido que não bastará reproduzir as mesmas escolhas que funcionaram com Kate. Resta esperar para ver por qual caminho Ryan escolherá seguir.

O mal não descansa

Por fim, a morte repentina de Kate Kane destruiu completamente qualquer plano que os roteiristas tinham inicialmente para a vilã Alice. Como revelado no primeiro episódio da série, sua ideia original era induzir seu pai, líder dos Corvos, a matar a Batwoman e só então descobrir que havia assassinado a própria filha.

Ela queria por um fim em Kate Kane do seu próprio jeito. A falta de um propósito maior pode deixá-la ainda mais instável, uma oportunidade para levar a história a novos caminhos. Alice não vai deixar barato essa afronta ao seu plano e prometeu se vingar da pessoa responsável por esse infortúnio: Safiyah.

Cada novo episódio é um pequeno passo para a chegada da grande vilã da série, mas ainda não tivemos a chance de conhecê-la. De acordo com a atriz Shivaani Ghai, Safiyah será uma personagem muito mais multifacetada que Alice, com momentos de ternura e compaixão. Resta saber como uma vilã tão pessoalmente ligada com Kate Kane irá se relacionar com Ryan Wilder.

Ainda tivemos poucas oportunidades de ver Ryan Wilder lutando contra os criminosos de Gotham, mas essa mulher tem a vivência necessária para fazer o que precisa. Gotham podia não estar esperando essa mudança. Foi um processo aceitar a antiga heroína. Felizmente Ryan chega com muito mais carisma, para trazer mais uma vez esperança a essa cidade desolada.

Pode não ser a Batwoman que a gente esperava, mas é a Batwoman que a gente precisa.

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sobre o autor Gabriel Mattos

Redator que joga mais Switch do que deveria e já leu todo o novo cânone de Star Wars, até os livros ruins. • @gabeverse