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4×100: Correndo por um Sonho – Filme brasileiro sobre atletismo se passa em uma Olimpíada que não aconteceu

Por Evandro Lira

4×100: Correndo por um Sonho, filme nacional em cartaz nos cinemas, acompanha a história de um grupo de mulheres atletas que têm a oportunidade de consertar um erro do passado durante as Olimpíadas de Tóquio de 2020.

A trama do filme dirigido por Tomás Portella poderia passar ilesa de qualquer levantar de sobrancelhas se não houvesse um detalhe: ela se passa em pleno ano de pandemia. Porém, no filme, as Olimpíadas de Tokyo acontecem normalmente e não há coronavírus em 2020.

O longa, estrelado por Thalita Carauta e Fernanda de Freitas, poderia ser visto como uma utopia que reimagina um 2020 como ele deveria ter sido. Mas na verdade, trata-se apenas de um filme produzido antes da pandemia, onde não era possível imaginar que os Jogos Olímpicos de Tóquio seriam adiados e nem que teríamos vivido o maior pesadelo da humanidade neste século.

Tomás Portella, em entrevista à Legião dos Heróis, refletiu sobre o impacto da pandemia na trama do filme. Para ele, o período em que a história acontece não é realmente importante.

“As Olimpíadas poderiam ser qualquer uma. Inclusive, quando entrei para o filme, ele começaria em Londres e acabaria no Rio. A gente que transformou isso depois”, avalia Portella. “Eu acho que o filme fala muito mais sobre o espírito Olímpico e os conflitos dessas mulheres e a luta do esporte feminino para conseguir chegar lá do que exatamente sobre Tóquio.”

Apesar disso, a pandemia atrapalhou o filme em outros aspectos. A pós-produção, por exemplo, que contou com efeitos especiais de computação gráfica, foi prejudicada quando a coisa toda eclodiu em março de 2020.

“A gente teve uma parada quando começou a pandemia, até que a empresa responsável pela pós-produção conseguisse se reestruturar para um universo de trabalho pandêmico. Começaram a trabalhar bastante remoto, distribuíram as máquinas nas casas dos efeitistas. Deu uma atrasada”, conta o cineasta.

A pós de 4×100: Correndo por um Sonho precisou colocar o elenco dentro de uma Olimpíada de verdade. Enquanto as atrizes corriam como verdadeiras atletas em cena, o público que lotava as arenas dos jogos era feito completamente por CGI. Tecnologia que também acrescentou aos cenários detalhes muito simples, mas fundamentais para transportar o público para o Japão.

“Eu assisti ao filme e fiquei chocada com alguns detalhes feitos na pós”, conta a atriz Thalita Carauta. “Por exemplo, no lugar que a gente gravou em São Paulo, numa pista de treino, eles colocaram um prédiozinho com uma cúpula bem japonesa que já situa o local para todo mundo. Eu achei aquilo incrível.”

Apesar de efeitos gerados por computador resolverem muita coisa, na maior parte do filme, o elenco precisou realmente ralar para dar vida às atletas olímpicas.

“Poucas cenas tem dublês”, afirma Portella. “As meninas correndo são as meninas correndo mesmo! Parando, chorando de dor, sofrendo, mas foram elas mesmo que botaram esse sangue nas filmagens.”

“Com certeza a preparação física foi o maior desafio do filme. A gente teve muito pouco tempo para dar conta de uma jornada de uma vida. Foi uma transformação alimentar, à base de muito ovo e tapioca”, disse aos risos Priscila Steinman, que interpreta a novata Bia. “Além de toda uma transformação física individual, o filme nos deu um suporte enorme. Havia fisioterapeutas durante as cenas, por exemplo. Quando dava o corte, a gente ia na maca do fisioterapeuta para receber estímulos e manipulações para não ficar com algum trauma físico.”

Na trama, cada uma das cinco personagens que compõem o grupo da modalidade 4×100 sofre algum tipo de conflito pessoal que afeta diretamente a maneira como elas trabalham juntas.

O erro que provocou a desclassificação do grupo nas Olimpíadas de 2016 mudou a vida de Adriana (Carauta) e Maria Lúcia (Freitas) para sempre. Apesar de sua insegurança, Maria Lúcia ainda é a grande promessa do atletismo enquanto Adriana desistiu da carreira. Uma vez que Adriana retorna ao grupo, para a satisfação do técnico Victor (Augusto Madeira), as duas mulheres vão precisar superar o passado e os conflitos.

“O atletismo não foi a única coisa que mudou essas mulheres”, reflete Carauta. “O que faz a relação entre a Maria Lúcia e a Adriana ser interessante é que ela é muito conflituosa. Não é só sobre duas colegas de trabalho que tiveram um problema numa Olimpíada quatro anos atrás.”

Ambas atrizes, Thalita Carauta e Fernanda de Freitas, admitem que embora um romance entre as duas personagens não seja explorado, sempre pairou entre as duas atletas um sentimento que ia além de uma simples amizade.

“Tinha uns apontamentos no roteiro. A partir disso a gente trabalhou dentro dessa possibilidade e isso deu outras dimensões para a coisa”, explica Carauta. “Havia uma admiração muito grande, que leva a uma paixonite muito grande, ao mesmo tempo que existia uma amizade e uma sororidade muito grande. E esse tanto de coisas juntas enriqueceu demais a relação dessas personagens. Essas pequenas abas que a gente abriu, sem levantar muita coisa, acabou colocando essas relações num lugar muito comum.”

A atriz Roberta Alonso vive a veterana Rita, uma atleta do 4×100 que lida com seus próprios demônios enquanto treina para as Olimpíadas de Tóquio. Alonso ainda é produtora do longa e foi quem deu a ideia da trama.

O sucateamento do esporte no Brasil serviu de motivação para que ela decidisse ir em frente com o filme. Ela conta que, como todo mundo, acreditou que as Olimpíadas do Rio serviriam para dar um gás no esporte no país, o que não aconteceu.

“O Brasil ficou encostado, né? Nossos atletas fizeram uma bela Olimpíada. O evento foi muito bacana, tudo funcionou direitinho, mas infelizmente, o investimento nos atletas não teve, para variar. Agora então, com o atual governo, menos ainda”, critica Alonso.

Ela continua:

“Educação, cultura e esporte são o último lugar da fila. Para mim, e por isso que eu idealizei o filme, essas coisas são uma prioridade na formação de uma sociedade bacana. São ferramentas que formam caráter e que permitem as pessoas sonharem e chegarem aonde elas quiserem. Espero que esse filme consiga ser um pouquinho de voz para ver se alguma coisa melhora nessa área”, conclui Alonso.

4×100: Correndo por Um Sonho ainda conta com Cintia Rosa no papel da atleta Jaciara e com a participação especial de Zezé Motta como Dra. Bruna.

Trata-se de mais um longa da excelente safra de filmes nacionais produzidos na última década. Com uma história emocionante, grandes atuações e uma qualidade técnica que impressiona, o filme merece ser visto, de preferência em uma tela grande.

O diretor Tomás Portella só lamenta que ainda estejamos em uma pandemia quando o filme desembarcar nos cinemas nesta quinta-feira, dia 24 de junho de 2021:

“A única pena realmente é não poder ter os cinemas lotados na hora da estreia. Mas, ao mesmo tempo, ele vem como uma mensagem de esperança, num momento em que a gente está precisando.”

A Legião dos Heróis foi convidada pela Imovision para conversar com o elenco e o diretor de 4×100: Correndo por um Sonho. O filme estreia no dia 24 de junho de 2021.

Assista ao trailer:

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sobre o autor Evandro Lira

Editor, bacharel em Cinema e Audiovisual, bruxo nascido trouxa, filho dos filhos do átomo, mestre dos quatro elementos, fã de mais coisas do que deveria, frequentemente falando sozinho no Twitter. Segue: @evandroslira