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Zé No Seu Caixão: Por que conhecer a obra de José Mojica Marins

Por Dyllan Souza

Hoje (19/02), tivemos a triste notícia do falecimento do diretor José Mojica Marins. O cineasta era conhecido pelo seu personagem Zé do Caixão que, além dos muitos filmes em que estrela, chegou até a ter um programa de TV. Quem nunca passou pela situação da mãe dizer que “a unha tá igual do Zé do Caixão” quando a deixava muito tempo sem cortar? Definitivamente, o homem era um grande ícone da nossa cultura, quase um personagem folclórico. O problema disso está justamente por ser uma falta de valorização pelo trabalho dele. Não só pelo esforço, mas também pela coragem e qualidade que seu cinema tinha.

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O primeiro filme do diretor, À Meia-Noite Levarei Sua Alma, é de 1964 e traz elementos de terror incrivelmente bem feitos. A introdução é totalmente macabra, seguida de uma cena do Zé do Caixão assassinando uma moça brutalmente. Aí, então, entra a genialidade do Mojica. Seu personagem é tão amado, tão icônico, mas ele é o pior ser humano possível. Sua ambição durante o filme é achar uma mulher para ter um filho dele porque ele quer manter seu sangue vivo. Por mais “gótico” que o personagem pareça ele tem uma ambição muito grande pela vida.

O profano também não poderia fazer falta na mitologia de alguém que se autointitula Zé do Caixão. No filme, o personagem – em plena sexta-feira santa – revela que vai comer um cordeiro. Não só isso, obriga o homem que lhe arranjou o cordeiro a comer também. É um momento que pode soar até bobo subversivamente, mas, o que mais faz um personagem tão facilmente detestável ser carismático do que uma dose de absurdo em seus momentos mais duvidosos? Torturar mulheres com aranhas na busca por uma que possa carregar sua prole soa como uma ambição tão boba, aliada ao comportamento do personagem, que não se torna nada mais do que um artifício na criação de imagens que sirva ao propósito de entreter pelo horror.

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No filme, Esta Noite Encarnarei seu Cadáver – continuação de À Meia-noite Levarei Sua Alma – o personagem, durante um pesadelo, é levado para o inferno. Os dois filmes são filmados em preto e branco, porém, nessa cena, o longa fica colorido e vemos um cenário de estúdio completamente infernal. As cenas são preenchidas por corpos de atores reais, partes íntimas expostas entre paredes disformes de papel machê e algo que simula ácido. É um momento insano, principalmente por ser tratar de um filme de 1967. A Noite dos Mortos Vivos, filme que revolucionou o gênero do terror, só sairia no ano seguinte. José Mojica já estava muito à frente.

Isso só comentando levemente sobre os dois primeiros filmes feitos por ele. É uma carreira extensa, com diversas obras que valem a pena serem vistas. São filmes que não se interessam em fazer algo complexo ou comentários políticos incisivos, como os filmes nacionais da época. Seu interesse era apenaster o visual, ter cenários legais”, como disse uma vez o diretor.

Em tempos de campanhas sobre valorizar o cinema nacional, a perda de um cineasta como José Mojica Marins é gigante. Gigante como uma grande perda – claro – mas também como uma grande oportunidade de reconhecer o trabalho do autor e valorizar seu grande personagem.

Que viva eternamente o Zé do Caixão! Pois o que é a vida senão o princípio da morte, como o próprio personagem diz no monólogo em À Meia Noite Levarei Sua Alma. 

 

 

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Na galeria abaixo, você pode conferir alguns cartazes das principais obras do cineasta:

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