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Tudo o que você precisa saber sobre Kamen Rider

- – Henshin!

Por Raphael Martins → O panteão dos “deuses do mangá” tem poucos assentos, reservados apenas a aqueles que mudaram e moldaram o mercado do entretenimento japonês. Nomes como Osamu Tezuka e Go Nagai são ditos aos quatro ventos como gênios revolucionários e de fato o são, mas há mais um aí que merece reconhecimento e veneração: Shotaro Ishinomori, que era conhecido entre seus iguais como “o rei do mangá”.

Ishinomori foi um dos criadores mais prolíferos de sua geração. Ele começou como assistente de Tezuka, alçando voo solo anos depois e criando personagens como Cyborg 009, Kikaider, Machineman, Patrine e o mais famoso de todos, inclusive aqui no Brasil: Kamen Rider.

A maioria dos fãs brasileiros lembra com saudade de Kamen Rider Black e Kamen Rider Black RX, mas a verdade é que eles não foram os primeiros motoqueiros mascarados desta franquia. Na verdade, essa história começou há muito mais tempo, nos longínquos anos 70…

Henshin!

A gênese do herói

Na década de 70, já com status de autor de mangás respeitado e com várias adaptações de suas obras para a televisão, Ishinomori foi novamente procurado por um canal de TV, que queria um novo herói para uma nova atração. O mangaká então criou Skull Man, uma história macabra envolvendo um assassino misterioso, um ser capaz de se transformar em várias criaturas e até a Yakuza. O tal canal achou tudo muito sombrio, como era de se esperar, e pediu por tantas mudanças que ele acabou tendo que criar um personagem completamente novo.

Em 3 de abril de 1971, produzida pela Toei Company, ia ao ar Kamen Rider (“Motoqueiro Mascarado”, em português), um herói ciborgue criado por uma organização secreta do mal para auxiliá-los a conquistar o mundo, mas que se rebela contra eles e passa a usar seus poderes em prol da “liberdade da humanidade”. Ishinomori não queria tocar muito na palavra “justiça”, pois acreditava que a justiça mudava com o tempo, mas os ideais libertários não.

No papel principal do estudante Hongo Takeshi, que se transformava no herói Kamen Rider, foi escalado o ator e artista marcial Hiroshi Fujioka, que até hoje é respeitado e venerado como ator e herói de ação no Japão. As tramas apresentavam o justiceiro mascarado lutando contra monstros e geralmente terminavam com ele explodindo seus inimigos com seu “Rider Kick”, o golpe mais poderoso de seu arsenal.

A série fez tanto sucesso que ficou grande demais para a televisão, ganhando um mangá também assinado por Ishinomori em 1972, filmes para o cinema, uma gigantesca linha de brinquedos e várias, várias sequências. Começava ali algo tão grandioso e com características tão únicas que acabou se tornando um subgênero do próprio Tokusatsu.

HENSHIN!

Kamen Rider é Hongo Takeshi, um jovem estudante que é raptado pela organização do mal Shocker e transformado em um ciborgue para ser usado como arma de destruição e dominação. Contudo, ele consegue fugir antes que sua mente seja dominada, passando a usar sua força e habilidade para proteger o mundo dos monstros mandados pelos malfeitores.

Ao gritar “Henshin!” (“Transformação!”), ele se transforma, envolto por um traje inspirado em um gafanhoto, e distribui porrada em qualquer soldado, monstro, criminoso ou pessoa mal intencionada que vê pela frente. Para auxiliá-lo, ele conta com sua fiel moto Cyclone, que sempre aparece na hora de alguma perseguição ou para atropelar algum monstro mais difícil de matar só na base do soco.

Mas ele não está sozinho em sua luta. Entre seus maiores aliados está Tachibana Tobei, uma espécie de “Alfred” do Kamen Rider, agindo como mentor, figura paterna e que dá aquele upgrade em sua moto sempre que necessário. Também é o “Esquadrão Kamen Rider”, um grupo de crianças que informa ao herói qualquer movimentação suspeita ou ataque de monstro pela cidade.

A partir do décimo quarto episódio, o guerreiro ganha um parceiro: Ichimonji Hayato, o Kamen Rider #2. Criado também pela Shocker como uma resposta ao Kamen Rider, ele é salvo por Hongo antes de ter sua consciência corrompida, ganhando um companheiro de batalhas para toda a vida. Curiosamente, ele passa a ser o protagonista da série por vários episódios, após o ator Hiroshi Fujioka sofrer um acidente de moto durante a gravação da série.

A era Showa

Terminados os 98 episódios de Kamen Rider, tanto a emissora de TV quanto Shotaro Ishinomori não tinham a menor intenção de parar por aí. Surgiu então a primeira (de muitas) sequências da série na forma de Kamen Rider V3, que estreou em 1973, mostrando um novo herói, com uma nova moto e novos inimigos a serem derrotados.

Este novo guerreiro se chamava Kazami Shiro, que assim como seus antecessores, foi usado por uma organização do mal, a Destron, e transformado em um ciborgue para fins nefastos. Sendo salvo pelos Riders 1 e 2, ele passa a lutar como Kamen Rider V3, que no Japão é até hoje um dos exemplares mais famosos dos guerreiros baseados em insetos.

Durante toda a Era Showa, que compreende ao período de tempo entre 1926 e 1989, foram doze Kamen Riders, que apareceram em 9 séries. ZX, o décimo deles, teve sua história contada em um filme. Os famosos Black e RX surgiram nessa era e são até hoje os únicos a terem sido exibidos no Brasil, que conheceu seus antecessores em um dos episódios de Kamen Rider Black RX.

Há ainda três outros Riders considerados oficialmente pela Toei Company como sendo da Era Showa, apesar de terem sido produzidos na Era Heisei: ZO, J e Shin, que seguindo o exemplo de ZX, tiveram suas aventuras em filmes para o cinema.

A era Heisei

Ao fim de Kamen Rider Black RX, a franquia entrou em hiato. Nenhuma outra série de TV foi produzida pelos 10 anos que se seguiram, até que finalmente em 2000, surgiu Kamen Rider Kuuga, um novo tipo de herói para uma nova era, a Era Heisei, que compreendeu os anos de 1989 a 2019.

Kuuga subvertia completamente o estilo de se fazer uma série Kamen Rider. A partir dali, os heróis deixavam de ser sempre ciborgues para terem origens distintas, que iam do místico ao tecnológico. O “império do mal” da vez também saiu de cena para dar lugar a raças de monstros envoltas no mais profundo mistério, algo que era desenvolvido lentamente ao longo dos episódios, de forma que uma série poderia terminar de uma maneira completamente diferente de como tinha começado. Nem mesmo o “final feliz” era mais uma garantia… quem acompanhou Kamen Rider Blade que o diga.

Com o tempo, o clima de suspense e terror de Kamen Rider Kuuga e sua sequência, Kamen Rider Agito, foram substituídos por mais ação, transformações e novos Riders aparecendo para, é claro, venderem ainda mais brinquedos. Kamen Rider Ryuki, por exemplo, tinha nada menos que 13 Riders em uma única série, cada um com suas histórias, motivações, armas e monstros.

Kamen Rider Kabuto e seus vários heróis: na era Showa, era só um Rider e olhe lá

Falando em vender brinquedo, foi durante a Era Heisei que a Bandai, que produz os badulaques inspirados nas séries, descobriu a receita do sucesso: os personagens passaram a se transformar a partir de itens especiais colocados em seus cintos, que mudavam a cada nova série. Kamen Rider W, por exemplo, usava as “Gaia Memories” para acessar novas formas e armas, Kamen Rider OOO tinha medalhas que quando combinadas faziam a mesma coisa, e por aí vai. Aliás, cada nova forma representava um novo boneco no mercado, então os Riders principais e secundários tinham muitas. Muitas MESMO.

Mas mesmo com tantas mudanças, alguns aspectos das séries clássicas permaneciam os mesmos. Os poderes dos heróis sempre tinham origens nos vilões que combatiam, todos eles se transformavam usando cintos especiais, tinham motos envenenadas e terminavam suas batalhas com um poderoso chute, que explodia o monstro da semana em mil pedaços. O único ponto fora da curva mesmo foi o Kamen Rider Hibiki, a última criação de Shotaro Ishinomori, que não tinha nada disso e nem era exatamente um Rider, mas foi transformado em um pela Toei Company.

Legado

Quatro décadas podem ter se passado desde que o Kamen Rider original surgiu para lutar pela liberdade da humanidade, mas ele nunca foi esquecido. De lá para cá, a série influenciou inúmeras obras de tokusatsu e até mesmo o gênero Super Sentai, criado alguns anos depois também por Shotaro Ishinomori numa tentativa de introduzir mais personagens (e vender mais bonecos), já que o herói era um guerreiro solitário.

Homenagens na cultura pop não faltam. Jogos como Street Fighter e The King of Fighters apresentaram os personagens Skullomania e May Lee, inspirações claras como o dia no Rider original, por exemplo. Já no mangá One Punch Man temos o Mumen Rider (Cavaleiro Sem Licença, no Brasil), que usa um traje e um cinto com semelhanças inegáveis ao herói japonês. Outros animes, como Crayon Shin-Chan, Dragon Ball Z, Detective Conan, Gintama e Lucky Star também já parodiaram diversas séries do gênero.

A história dos heróis também já foi contada em inúmeras séries de mangá. Kamen Rider Spirits, por exemplo, apresenta uma história de origem alternativa para ZX, enquanto Kamen Rider 913 se foca em Kaixa, o rider secundário de Kamen Rider 555. Há até séries que continuaram em mangá, como Kamen Rider Kuuga e Kamen Rider W.

Hongo Takeshi se transforma em uma das páginas do mangá Kamen Rider Spirits

Volta e meia os Riders da Era Showa aparecem em filmes comemorativos produzidos na Era Heisei, prosseguindo em sua luta incansável contra o mal, que nunca terá um fim, assim como sua lenda: a recém iniciada Era Reiwa já tem seu herói, Kamen Rider Zero-One, série que atualmente está em exibição no Japão.

A cada nova aparição, o primeiro Kamen Rider nos lembra de algo que nunca devemos esquecer: que a luta pelo que é certo é difícil e nunca tem fim, mas que ainda assim, devemos seguir em frente e continuar nossa jornada, sempre com coragem e seguindo nossas convicções.

Na arte de viver, devemos seguir o exemplo destes bravos heróis, que enterram fundo sua tristeza e superam as dificuldades com a força de seus corações e a esperança de um futuro melhor.

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sobre o autor Raphael Martins

Já fui um pouco de tudo: apresentador de TV, repórter, roteirista e hoje sou redator nesse noblário site. Gosto de longas caminhadas na praia, HQs, games, tokusatsu, cinema e filé com fritas. Você pode trocar uma ideia comigo e me ver reclamar da vida no Twitter @aqueleraphael