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Os super-heróis sempre foram contra o fascismo e o racismo

Por Leo Gravena

A Equipe Legião dos Heróis apoia o movimento Vidas Negras Importam e é contra qualquer tipo de apologia ao fascismo e nazismo. 

 

O Caveira Vermelha é um vilão. Simples assim, não existem desculpas, não existem explicações. Qualquer pessoa que pegou um quadrinho da Marvel, ou viu o filme do Primeiro Vingador, sabe muito bem que o Caveira Vermelha é o maior inimigo do Capitão América e uma pessoa desprezível – o motivo disso? Ele é um nazista.

Porque estou falando sobre o Caveira Vermelha, o líder da HIDRA que achava que nazistas não eram nazistas o bastante? Porque algumas pessoas decidiram que ele estava certo. Não é algo que surgiu do nada, não é algo que, de um dia para o outro, surgiu e surpreendeu a todo o mundo.

Nos últimos dias, o mundo entrou em conflito. Protestos nos Estados Unidos em relação a brutalidade policial contra pessoas negras casaram-se com os ideais do movimento negro brasileiro, isso, somado aos ideais nazistas e fascistas disseminados por grandes figuras políticas criou uma grande tensão, resultando em vários protestos ao redor do país. 

Muitos podem não acreditar, mas os heróis de nossa infância, muitos dos quais acompanhamos até hoje, não estariam em silêncio. Os heróis da Marvel, DC e de vários dos desenhos animados sempre foram contra nazistas, fascistas e os racistas. Eles sempre lutaram por igualdade, sempre foram justos e, principalmente, sempre tiveram empatia.

Empatia, claro, sendo a palavra-chave. Afinal, o fascismo não possui empatia e essa que é a maior qualidade que qualquer herói pode ter, porque a empatia é se colocar no lugar do outro e saber que todos os humanos são iguais, mas ainda reconhecer a cultura e história de cada pessoa. O fascismo não consegue lidar com isso. O fascismo não possui empatia.

Toda criança, ao ver um super-herói na tela da TV ou nas páginas de um quadrinho, sonha em ser tal herói. Ela sonha em ter os grandes poderes, salvar o mundo, ajudar a todas as pessoas que precisam e jamais ter medo de nada. Super-heróis não têm medo, eles são justos e poderosos.

Se o fascismo nasce do medo, os heróis são a antítese disso, eles não julgam se uma pessoa é melhor do que a outra. Eles compreendem os problemas que as pessoas estão passando e as ajudam, da maneira que podem.

O fascismo veio crescendo nos últimos anos como um câncer, o qual ninguém deu muita atenção e, agora, é uma grande massa horrenda e monstruosa, que vai destruindo tudo que é diferente de si mesmo que vê pelo caminho. Essa massa necrosada surgiu sutilmente e de alguma forma, recentemente pessoas podem andar com símbolos nazistas e dizer frases fascistas e, para muitos, isso é considerado algo normal.

Pior ainda, parte da comunidade geek e nerd, que cresceu vendo o Caveira Vermelha, Madame Hidra, Vandal Savage e todos os vilões da Terra-10 da DC sendo retratados como pessoas horríveis, apoiam aqueles que eram os vilões de sua infância. Como isso aconteceu? Existe sim uma trilha e uma história que mostra como a cultura geek foi “infiltrada” por esse câncer, mas resumidamente, tudo começou quando parte da comunidade nerd decidiu por si mesma que os filmes, séries e quadrinhos de heróis deveriam ser afastados da política e da vida real.

Acontece que, desde o início, os heróis e a política do mundo real sempre estiveram lado a lado. 

Os X-Men foram inspirados nas lutas de movimentos negros e das mulheres nos anos 60, com Xavier e Magneto sendo claramente inspirados por Martin Luther King e Malcolm X. O Superman é um alien imigrante que luta contra um grande empresário que o odeia pelo simples fato dele ter vindo de outro planeta.

Os quadrinhos sempre estiveram ligados ao mundo real e o que acontece nele. V de Vingança mostra uma realidade alternativa na qual o grande herói luta contra um regime totalitário e fascista, os X-Men e os Vingadores já acabaram parando em universos nos quais o Nazismo e Fascismo haviam vencido, a Liga da Justiça possui uma versão deturpada da Terra-10, na qual eles são nazistas.

Nos quadrinhos, vimos o Capitão América dar um soco em Hitler e lutar várias e várias vezes contra a Hidra; os X-Men serem perseguidos pelos Purificadores e o próprio governo, e enquanto isso na DC, a Mulher-Maravilha caçava espiões nazistas e lutou ao lado dos Aliados, além das críticas racistas presentes em HQs do Super-Choque e Raio Negro. 

Dizer que quadrinhos e política não se misturam é uma das maiores mentiras que certos grupos insistem em disseminar e, ainda assim, muitos acreditam que isso é apenas uma “opinião”, como se uma opinião infundada e sem fatos para lhe dar credibilidade tivesse o mesmo valor que a realidade.

Mas porque essas pessoas insistem em dizer que as histórias de super-heróis e política deveriam ser tópicos completamente separados? Porque muitas vezes elas não querem ter que lidar com quaisquer outros problemas que não dizem respeito a si mesmas.

Super-heróis não tem medo. Mas a raiz do fascismo é justamente essa, eles precisam do medo e do desespero. É mais fácil criar um inimigo no outro do que tentar encontrar ele dentro de si mesmo e, nesse momento da história, o que estamos vendo é uma grande onda de retorno do fascismo – por causa do medo.

Vivemos em um momento bastante assustador – problemas econômicos, doenças, coronavírus e crimes. O medo faz reféns e toma prisioneiros e ao dizer que “não é preciso de política nos quadrinhos”, o que realmente está sendo dito é: “não é preciso dessa mensagem, na qual eu não acredito, aceito ou gosto, nesta mídia a qual eu julgo ser somente minha”.

Recentemente, a comunidade geek viu vários traços desse fascismo com o ódio a minorias e políticas de inclusão através do ComicsGate. O movimento no qual vários “fãs” e criadores de conteúdo sobre HQs decidiram se unir e atacar escritores e desenhistas de HQs que fossem ou escrevessem personagens pertencentes a minorias. 

Autores como Gail Simone, Brian Michael Bendis, Kelly Sue DeConnick e Ta-nehisi Coates sofreram uma enxurrada de comentários negativos e, principalmente, xingamentos em suas redes sociais. Sob o pretexto de que os autores e artistas estavam “arruinando os quadrinhos”, grupos de ódio destilaram seu racismo, misoginia e homofobia.

Isso porque, de alguma forma, esses grupos acreditam que quando uma minoria é representada, os que fazem parte da norma estão sendo esquecidos ou deixados de lado, o que não é verdade. Basta olhar para o movimento Vidas Negras Importam, uma das respostas dadas sempre é que “todas as vidas importam” e sim, elas importam, mas pessoas brancas não sofrem perseguição e racismo por serem brancas.

Dizer que “todas as vidas importam” para uma pessoa que está dizendo que as vidas negras importam é o mesmo que ficar bravo após ter tropeçado na calçada e ninguém dar atenção a você, pois outra pessoa acabou de ser atropelada. Não é o tópico da conversa e se você utiliza esse argumento somente quando lhe convém para tentar desestabilizar uma pessoa que está lutando pelo seu direito de sobreviver, você precisa parar e pensar exatamente no que está fazendo – e em que tipo de pessoa quer ser. 

A comunidade geek/nerd sempre esteve bastante dividida. De um lado, as pessoas que leem os quadrinhos, assistem aos filmes e vêem neles as mensagens de apoio aos direitos humanos e luta por justiça; de outro, aqueles que dizem que qualquer coisa que se afaste de uma narrativa que não traga os “bons valores e costumes” que querem ver é algo de “comunista, SJW e feminazis”. No meio disso tudo, a maior parte não se identifica ou se importa muito com qualquer um desses lados.

Para você, que está no meio, pense nisso: o que o seu herói favorito faria?

Temos muitas coisas boas, temos muitas coisas ruins. Porém, é justamente quando a comunidade nerd e geek se une e percebe que, mesmo não pertencendo a determinado grupo, pode ajudar e ter empatia, fazer o que for preciso e necessário para ajudar pessoas em situação de perigo; quando isso acontece, é que realmente nos tornamos heróis.

Pessoas negras são marcadas e violentadas apenas por sua cor, isso é um fato. O Fascismo está em ascensão novamente, isso é um fato. 

Existem várias maneiras de ajudar e compreender o que negros e outras minorias, como mulheres, LGBTQ+ e pessoas que vivem com alguma deficiência, passam todos os dias – o primeiro passo, é ter empatia.

 

Veja também:

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João Pedro e George Floyd: Entenda o estopim dos protestos 

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