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[Review] Separados é um conto apavorante e perturbador

Por Gus Fiaux

Conhecido por seu trabalho com as HQs do Batman nos Novos 52 e pelo quadrinho de horror WytchesScott Snyder é um dos nomes mais interessantes da indústria de HQs nos Estados Unidos. Famoso por seu estilo único e por combinar diversos gêneros para conceber histórias hipnotizantes, o autor já mostrou diversas vezes a que veio, sempre com novas propostas e ideias. E agora, ele retorna ao Brasil pela Darkside Books, graças ao lançamento de Separados. 

A publicação compila as sete edições da HQ originalmente publicada pela Image Comics nos Estados Unidos, em um volume de luxo com alguns extras e materiais bônus, o que torna a leitura ainda mais completa.

Na história, seguimos Jack Garron, um garoto de doze anos que descobre que seu pai biológico é um músico andarilho. Por isso, ele decide fugir da casa de sua mãe adotiva, partindo em uma aventura pelos Estados Unidos enquanto não tem a menor ideia do perigo que o espreita. Em sua jornada, ele conhece Sam, uma figura que esconde um grande segredo.

Enquanto isso, um homem vaga pelas estradas. Ele parece ser amigável e gentil, mas isso não passa de uma fachada para sua verdadeira face – uma face cruel e que ostenta dentes afiadíssimos.

Isso é o básico para entender a história de Separados. A HQ foi coescrita por Snyder com Scott Tuft, e podemos ver o bom entrosamento da dupla na hora de contar uma história. Em nenhum momento sentimos uma flutuação de qualidade ou de narrativa, de modo que a história flui muito bem. Mesmo tendo quase 200 páginas, o quadrinho passa em um piscar de olhos, graças à qualidade da narrativa dos dois Scotts.

Por outro lado, quem também merece aplausos é Attila Futaki, o artista da história. Attila constrói muito bem seus personagens e possui um traço refinado, dando uma qualidade quase noir à trama. Mesmo sendo húngaro, ele consegue criar uma visão tão singular e única dos Estados Unidos na década de 1910, de modo que chega a se tornar impressionante.

Esse casamento entre arte e roteiro torna Separados um primor sem igual, que dá continuidade ao ótimo trabalho que Scott Snyder já havia nos demonstrado em Wytches (também publicado pela Darkside Books no Brasil). A história consegue ser bem emocionante ao focar mais no lado emocional da jornada de Jack e em sua relação com Sam.

Ao mesmo tempo, podemos ver que Snyder, Tuft e Futaki não têm medo de se arriscar. Existem mortes bem importantes e chocantes, que realmente pegam o leitor de surpresa e mostram como, nesse mundo, ninguém está a salvo – ainda mais quando o homem de dentes afiados está à solta.

É justamente nesses momentos que a HQ ganha força total, explorando um lado muito mais apavorante e perturbador de sua premissa. Aqui, temos metáforas e alegorias a questões reais, como sequestro de crianças e até mesmo abuso infantil – fica inclusive o aviso de gatilho para leitores sensíveis.

Em termos de formato, Separados veio do jeito certo. As sete edições se completam e formam um arco bem fechadinho. É uma história contida e simples, que pode ser bem apreciada e revisitada diversas vezes, sem a necessidade de spin-offs, continuações e um universo compartilhado inteiro.

Digo isso porque é constante a reclamação por parte de muitos leitores sobre as HQs ocidentais, que “nunca terminam”. E embora isso seja válido para os mundos de super-heróis da Marvel e da DC Comics, não vale para publicações mais independentes, que seguem uma estrutura clássica com começo, meio e fim.

De qualquer forma, Separados é uma obra bem empolgante, ainda mais para quem gosta de horror e está disposto a ler algo verdadeiramente assustador. É um quadrinho espetacular, que comprova como Scott Snyder tem uma forte veia para o gênero – e inclusive, gostaríamos de ver mais histórias de horror dele.

Abaixo, veja 10 HQs de terror que merecem ganhar adaptações:

Separados está disponível nas livrarias. Você também pode adquirir seu volume no site oficial da Darkside Books.

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sobre o autor Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Crítico, roteirista e mago nas horas vagas. Wouldst thou like to live deliciously? || @gus_fiaux