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[Review] Joe Hill Dark Collection: A Capa é uma interessante subversão do mito dos super-heróis

Por Gus Fiaux

Há algo de muito profundo e interessante nos super-heróis que faz com que eles ainda estejam no centro da nossa cultura popular até hoje. Essas figuras surgiram por volta dos anos 30, nos Estados Unidos, e desde então realizaram um plano de dominação e ascensão total nos quadrinhos, TV, cinema e todas as outras mídias imagináveis.

Claro que, com isso, estudos sobre a figura dos heróis surgiram – e logo alguns autores começaram a brincar com a subversão dos heróis como conhecemos. De Watchmen a The Boys, vemos a profunda desconstrução dessas figuras, mostrando seus lados mais falhos, humanos e mesquinhos. E agora, Joe Hill Dark Collection Vol. 1: A Capa também se junta a essa proposta de subversão e remodelação dos super-heróis.

O quadrinho foi publicado recentemente pela Darkside Books e parece ser a primeira de uma leva de publicações de Joe Hill, filho do mestre do horror Stephen King e escritor do gênero, assim como o pai. Hill já havia presenteado o mundo com obras como Locke & Key, O Pacto Nosferatu, trabalhando tanto na prosa quanto na mídia dos quadrinhos. Porém, A Capa traz o autor sob uma nova e empolgante perspectiva.

O quadrinho é dividido em duas partes, e é importante falar de cada uma delas em particular. A primeira se chama simplesmente “A Capa”, e é escrita por Hill junto a Jason Ciaramella (autor com quem o filho de Stephen King tem muita proximidade). Já a arte fica por conta de Zach Howard (ilustrador que já trabalhou até na Marvel, desenhando quadrinhos dos X-Men e do Homem-Aranha). A segunda parte se chama “A Capa: 1969” e retém boa parte da equipe criativa da primeira, apenas com Nelson Dániel substituindo Zach Howard nos desenhos.

Mas o que cada uma dessas minisséries conta? Pois bem. Em A Capa, seguimos a história de Eric, um homem falido e miserável que descobre os poderes sobrenaturais de uma capa que usava na infância para brincar de super-herói com seu irmão, Nick. Munido da capacidade de voar, ele decide se tornar um supervilão, se vingando de todos que já o humilharam e o maltrataram – e isso inclui sua ex-namorada, sua mãe e seu próprio irmão, de quem ele sempre teve inveja.

É uma premissa simples que é tratada com toda a naturalidade por Joe Hill e Jason Ciaramella. Vemos a verdadeira degeneração mental de Eric, e como ele se torna um grande desgraçado ao usar um poder tão genérico e simples para causar grandes maldades. Tudo isso ganha vida na arte de Zach Howard, que consegue ser dinâmico o bastante para tornar as cenas de ação bem empolgantes.

Ainda assim, há um pequeno problema no que diz respeito à história em si, já que ela pode ser bem repetitiva e redundante às vezes. O modus operandi de Eric é sempre o mesmo, e sua caçada por seu irmão acaba se tornando mais do mesmo depois de pouco tempo. Seria mais interessante, por exemplo, ter uma exploração mais profunda da personalidade dos irmãos, especialmente Nicky.

Por outro lado, a história continua firme e forte nas páginas de A Capa: 1969. Aqui, voltamos um pouco ao passado – precisamente, à Guerra do Vietnã – para conhecer a origem da capa sobrenatural, e como ela chegou às mãos de Eric anos depois.

É difícil explicar a história de 1969 sem entrar em spoilers pesados da primeira minissérie, então devo apenas dizer que o prequel corrige alguns dos problemas do volume original. A arte de Nelson Dániel é bela e mantém o alto parâmetro estabelecido por Howard, mas o foco da narrativa muda e assume um caráter mais político, explorando bem todo um dilema moral acerca da Guerra do Vietnã.

Do mesmo jeito, a segunda minissérie também manda bem ao subverter a ideia dos super-heróis, mostrando o novo protagonista, chamado Cory Chase, que é um personagem bem diferente de Eric, apesar de compartilhar várias semelhanças. Isso torna a segunda história bem diferente da primeira, dando um contexto ainda mais interessante para a série original.

Devo confessar que, ao ler a primeira minissérie, fiquei um tanto decepcionado, sobretudo pela falta de desenvolvimento de personagens e pela presença da capa como um MacGuffin glamourizado. No entanto, a leitura de 1969 nos permite compreender e entender bem mais do quadrinho original, dando uma nova perspectiva e um novo olhar para a história completa.

Quem gosta da subversão dos heróis, sobretudo em The Boys, vai gostar muito dessa HQ. É uma proposta que, apesar de não ser totalmente original, consegue ser ousada e criativa o bastante para nos manter entretidos por suas cerca de 220 páginas. Para melhorar, o volume de luxo da Darkside Books deixa a leitura ainda mais fluida e interessante, com as cores vivas ressaltadas pela impressão de qualidade.

Em suma, Joe Hill Dark Collection Vol. 1: A Capa começa de um jeito promissor, plantando as sementes para mais obras do autor ao longo dos próximos anos. Para quem gosta de super-heróis e está disposto a ver releituras fora do âmbito da Marvel e da DC Comics, pode ser uma ótima pedida.

Abaixo, veja 10 grandes personagens das HQs que não nasceram na Marvel e nem na DC:

Joe Hill Dark Collection Vol. 1: A Capa está disponível nas livrarias. Você pode também adquirir seu volume no site oficial da Darkside Books.

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sobre o autor Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Crítico, roteirista e mago nas horas vagas. Wouldst thou like to live deliciously? || @gus_fiaux