[CRÍTICA] Destacamento Blood é mais um forte discurso de Spike Lee

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[CRÍTICA] Destacamento Blood é mais um forte discurso de Spike Lee

Por Gus Fiaux

Embora o mundo (e o cinema) esteja um tanto quanto paralisado devido à crise do Coronavírus, ainda podemos agradecer aos serviços de streaming pelos novos conteúdos disponibilizados semanalmente. No que diz respeito à Netflix, recentemente tivemos o lançamento do aguardo Destacamento Blood.

O mais novo filme de Spike Lee chegou à plataforma na última sexta-feira (12) mundialmente, trazendo uma obra que, assim como a carreira de seu diretor, impressiona justamente pela sua sagacidade e pelo forte discurso político. Se você se interessa por esse tipo de filme, agora pode ler a nossa crítica!

Créditos: Netflix

Ficha Técnica

Título: Destacamento Blood (Da 5 Bloods)

 

Direção: Spike Lee

 

Roteiro: Danny Bilson, Paul De Meo, Kevin Willmott e Spike Lee

 

Ano: 2020

 

Data de lançamento: 12 de junho (mundial)

 

Duração: 154 minutos

 

Sinopse: Quatro veteranos afro-americanos enfrentam as forças da natureza e do homem quando retornam ao Vietnã procurando os restos mortais do líder de seu esquadrão e o ouro que ele os ajudou a esconder.

Destacamento Blood é mais um forte discurso de Spike Lee

Spike Lee sempre foi um diretor altamente engajado em causas e movimentos políticos, e basta ter uma pequena amostra de sua filmografia para perceber isso. Desde obras biográficas como Malcolm X Infiltrado na Klan às sátiras do exploitation, como Chi-Raq, o cineasta nascido em Atlanta e criado no Brooklyn sempre teve um forte discurso racial e político em seus filmes. No mais novo projeto do diretor, Destacamento Blood, não podia ser diferente.

O filme segue um grupo de quatro amigos e ex-veteranos da Guerra do Vietnã, que voltam à nação asiática para recuperar um tesouro escondido e rever os restos mortais do líder de seu esquadrão, Norman Holloway (interpretado por Chadwick Boseman, o nosso Pantera Negra). Porém, em sua jornada, eles vão ter que enfrentar os perigos da selva vietnamita e outras ameaças de um cunho mais… humano. Tudo isso enquanto fazem uma grande viagem ao passado.

Se você é o tipo de pessoa que não gosta da mistura de política e entretenimento, já devia saber que não tem como fugir disso. Mas se ainda assim, gosta de se iludir e acha que alguns filmes são “apolíticos”, saiba que Destacamento Blood não é um deles. Então pode passar para o lado quando ver o filme nas recomendações da Netflix. Spike Lee sempre foi um diretor muito político, a ponto de usar referências e até mesmo recortes midiáticos explicitamente em suas obras. E nesse caso, não é diferente.

Aqui, o diretor faz algo parecido com o que fez em Infiltrado na Klan, relacionando a temática do filme aos dias atuais e incluindo imagens de arquivo do presidente Donald Trump no filme. Na realidade, as críticas ao governante vão além de uma mera filmagem de arquivo, já que um boné com os dizeres “Make America Great Again” é um dos objetos cênicos mais relevantes para entender o conflito ideológico ao qual o filme se refere.

E apesar disso, Destacamento Blood não é apenas uma crítica ao governo atual dos Estados Unidos. O filme, na verdade, não podia vir em hora mais oportuna, já que possui relação direta com o movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam), que está em grande efervescência no mundo todo, especialmente nas últimas semanas. Há uma camada racial muito importante aqui, que deriva diretamente da formação de Lee como cineasta e como cidadão norte-americano.

Porém, engana-se quem acha que o filme vive apenas na esfera política, uma vez que é uma reflexão social e um excelente entretenimento de qualidade – e certamente é uma das grandes apostas da Netflix para o Oscar do ano que vem, se é que teremos um. De modo geral, o filme parece vir na mesma onda de Infiltrado na Klan, ainda que seja um longa-metragem bem mais “sério” que o filme lançado em 2018 (que chegou a concorrer a várias categorias no prêmio da Academia.

E ainda, apesar disso, esse não é um filme Oscar-bait, como estamos cansados de ver todos os anos. Embora a Academia ainda tenha um histórico de injustiça com Spike Lee, a força do discurso do diretor está na obra por si só, e não em uma tentativa de agradar aos votantes. Destacamento Blood é um filme que dialoga diretamente com a comunidade negra, sobretudo dos Estados Unidos, embora seu discurso possa ressoar com todos ao redor do mundo.

A trama é muito bem guiada ao longo de duas horas e trinta minutos, o que prova como Lee é um diretor muito capaz na hora de criar ritmo e engajamento com o público. Os recursos estilísticos e estéticos empregados pelo cineasta fazem com que essa longa jornada nunca fique cansativa ou lenta demais, e a prova disso está nas várias inserções de flashbacks, que adicionam camadas ao enredo e exploram a jornada individual e coletiva de seus personagens.

Por falar neles, o filme faz um excelente trabalho ao dar personalidade e motivação aos seus protagonistas. Paul (Delroy Lindo), Otis (Clarke Peters), Melvin (Isiah Whitlock Jr.) e Eddie (Norm Lewis) – e, ademais, David (Jonathan Majors) – são a alma e a força-motriz do filme, criando personagens cheios de nuances e que possuem características muito intrigantes para a narrativa. Entre eles, destaco Delroy e Clarke, que certamente possuem performances que merecem ser reconhecidas. Jean Reno também possui um papel muito importante para a narrativa, e tudo em sua performance é impecável, desde a atuação em si à caracterização de seu personagem.

Os aspectos técnicos são dotadas de uma qualidade já esperada em uma produção de Spike Lee. A fotografia surpreende, ainda mais considerando o “padrão” Netflix, mesmo que a plataforma já tenha nos apresentado obras visualmente marcantes como Roma. Talvez, o único “defeito” esteja em algumas cenas que fazem uso de efeitos visuais, embora esse não seja o foco do filme. Porém, peço que se atentem ao uso da música – tanto a parte instrumental quanto as canções de Marvin Gaye. Elas criam não apenas atmosfera, mas também conferem uma personalidade forte ao longa.

Outro destaque, em termos musicais, é o uso da Cavalgada das Valquírias de Richard Wagner. Se a canção é muito conhecida por seu uso em outro filme que detalha os horrores da guerra do Vietnã (Apocalypse Now, é óbvio), a sua presença aqui consegue ser subversiva, impactante e até mesmo contagiante em um nível bem profundo. Mais uma prova de como Spike Lee é um cineasta com uma visão única e um discurso afiadíssimo.

Em suma, Destacamento Blood é o típico filme que se espera de um diretor tão versado e versátil. É um cinema de alta qualidade, acessível em casa. Ao mesmo tempo, é uma obra extremamente política e contemporânea, que traz à tona temas como culpa, identidade e os perigos do nacionalismo exacerbado. Para quem tem acompanhado todas as discussões raciais e sociais que estão acontecendo no mundo, é um filme urgente e necessário.

 

Abaixo, veja 10 filmes que falam sobre a luta contra o racismo:

Destacamento Blood está disponível na Netflix.

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sobre o autor Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Crítico, roteirista e mago nas horas vagas. Wouldst thou like to live deliciously? || @gus_fiaux