[Crítica] The Last of Us Part II é um estudo sobre ódio, vingança e trauma

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[Crítica] The Last of Us Part II é um estudo sobre ódio, vingança e trauma

Por Leo Gravena

Quando The Last of Us Part II foi anunciado, os fãs do primeiro jogo se dividiram entre aqueles que queriam muito uma continuação para a história e os que acreditavam que uma continuação iria apenas “manchar” o legado de um dos melhores exclusivos da Sony. A Parte II, contudo, consegue não apenas superar o original, como é, por si próprio, um dos melhores jogos da atual geração.

Ficha Técnica:

 

Desenvolvedora: Naughty Dog
Publicadora: Sony Interactive Entertainment
Diretores: Neil Druckmann, Anthony Newman e Kurt Margenau
Design de Jogo: Emilia Schatz e Richard Cambier
Escritores: Neil Druckmann e Halley Gross
Compositor: Gustavo Santaolalla
Plataforma: PlayStation 4
Lançamento: 19 de junho de 2020

Tendo finalizado o jogo alguns dias atrás, darei o mínimo de spoilers o possível nesta crítica. The Last of Us Part II é o tipo de jogo que merece ser jogado descobrindo cada um dos novos locais, novas armas, novas habilidades e, principalmente, vivenciando a história da qual você faz parte.

É difícil falar sobre com uma história tão grande e rica sem, explicitamente, falar sobre dita história, mas jogar o Part II é o tipo de experiência que é necessário se ter por completo. Ainda assim, digo que, mesmo tendo recebido parte dos spoilers que vazaram algum tempo atrás sobre o jogo, absolutamente nenhum deles estragou a experiência. Ler sobre um evento é bem diferente de vivenciar ele.

E é exatamente isso o que você faz durante toda a duração do jogo. Você é transportado para dentro da história de uma maneira tão grande que você realmente sente tudo aquilo que o jogo quer que você sinta: ódio, surpresa, desespero. Você vivencia cada um desses momentos e emoções. 

A trama começa com uma tragédia – que leva Ellie para um caminho extremamente sombrio. O jogo então passa a seguir a jovem em um caminho de vingança, que afeta a todos ao seu redor, sejam eles personagens novos ou antigos da franquia.

Segundo o diretor do jogo, Neil Druckmann, o jogo fala sobre o ciclo de violência e ódio, uma discussão que é sempre necessária, mas ainda mais importante no atual momento político e sociocultural no qual vivemos.

The Last of Us Part II faz com que cada morte realmente seja uma tarefa difícil e “suja”. Matar não é somente algo que você precisa fazer para avançar de nível, é uma escolha. O jogo se certifica disso ao fazer com que, após matar um NPC, outros saiam pelo mapa chamando por ele, ou então fiquem horrorizados após ver o corpo dele caído.

Obviamente isso não impede que você saia por aí atirando em todos os inimigos que ver pela frente, porém, isso torna a jogabilidade bem mais complicada. A menos que você esteja jogando nos modos mais fáceis, ou seja extremamente bom de mira e acerte todos os headshots de primeira, The Last of Us Part II, assim como o primeiro, não é o tipo de jogo que você pode fazer sem abusar dos recursos furtivos. 

A furtividade é algo bem importante no jogo, tanto que dessa vez você pode até mesmo criar silenciadores para a sua pistola. A nova adição vem junto de várias outras que são liberadas e adquiridas durante o jogo. Assim como no jogo de 2013, você pode encontrar manuais que liberam novas árvores de habilidades, e melhorá-las com as pílulas. Dessa vez, elas trazem uma variedade bem maior de melhorias de armas e habilidades.

Um ponto forte da jogabilidade é que, ao invés de fazer com que ela seja apenas uma “versão” do Joel, Ellie possui mecânicas muito diferentes, focadas em sua agilidade. O jogo vai permite que Ellie pule mais alto, corra mais rápido e escape com mais facilidade.

As armas dessa vez possuem algumas diferenças, além dos silenciadores você pode melhorar algumas para que elas ganhem outras funções, algumas bem explosivas. Além disso, agora Ellie pode utilizar seu canivete para abater furtivamente pessoas e infectados – até mesmo estaladores.

O game também traz uma novidade em sua jogabilidade: a assistência de mira. Ela faz com que a câmera e a arma travem imediatamente nos alvos mais próximos e é uma mão na roda quando você precisa correr e escapar rápido de um lugar, contudo, ela acaba sendo um problema quando você é um adepto de headshots, principalmente ao usar a mira telescópica de uma arma ou o arco e flecha. 

Se você viu os trailers ou leu qualquer coisa sobre o jogo, já sabe que ele traz um novo tipo de inimigo: os trôpegos, que são bem mais fortes e deixam o jogo ainda mais complicado. O novo tipo de infectado consegue jogar bombas de fumaça tóxica em você, que além de diminuírem sua vida, fazem com que você fique completamente cego e não  consiga ver nada – deixando você bastante vulnerável à ataques de todos os lados.

Contudo, nenhum dos infectados ou inimigos humanos se compara ao novo terror de qualquer pessoa que jogue The Last of Us Part II: os cachorros. De um lado, eles são inimigos muito difíceis que te seguem por onde quer que você vá através de seu rastro. Por outro, é de partir o coração ter que matar cachorros em um jogo, ainda mais quando eles são tão realistas. É possível jogar sem matar os cachorros, mas certamente é uma das tarefas mais complicadas que uma pessoa pode definir para si mesma no game.

O jogo começa no Condado de Jackson, no Wyoming, local no qual Ellie está morando pelos últimos cinco anos (desde o final da primeira parte), porém, logo ela vai para Seattle, no estado de Washington, onde entra no meio de uma guerra entre duas facções que lutam pelo controle da cidade.

De um lado, temos o Washington Liberation Front, um grupo paramilitar que controla boa parte de Seattle. O grupo possui várias armas de fogo diferentes e usam os cachorros em seu auxílio. Enquanto isso, os Serafitas são um grupo de extremistas religiosos que vivem nas florestas em torno da cidade, como adversários, eles usam mais arco e flechas e são inimigos mais silenciosos, que atacam sorrateiramente.

Durante o história, vamos descobrindo mais sobre os dois grupos, de forma que você passa a compreender melhor a guerra entre eles e suas motivações. A guerra entre os Lobos (como são chamados os membros do WLF) e os Serafitas representa muito bem toda a ideia por trás do jogo: pessoas se machucando, em um ciclo vicioso, que leva apenas a dor e morte.

Admito que ao ler sobre como Druckmann queria fazer um jogo “filosófico” e que fizesse você pensar sobre a natureza da violência e do ódio, meu primeiro pensamento foi: “duvido muito que um jogo realmente consiga trazer uma discussão profunda sobre esse tema”… Não poderia estar mais errado.

The Last of Us Part II, inclusive, vai além. Ele não discute apenas a violência e o ódio, mas tantas outras características dos seres humanos – boas e ruins – que é difícil não terminar de jogar e simplesmente ficar olhando para a tela, tentando absorver todas as informações que você acabou de presenciar.

O jogo também não tem medo de ser controverso e, principalmente, fazer decisões difíceis. É fácil fazer algo grande e chocante para gerar interesse e comentários, vemos isso ocorrendo em séries e quadrinhos todas as semanas, contudo, o que a Parte II faz é pegar todos esses eventos terríveis que aconteceram com Ellie e trabalhar isso de uma maneira que seja uma evolução da história, ao invés de apenas uma tentativa de chocar o espectador.

Pensando no primeiro jogo, uma das partes mais marcantes é quando Joel está ferido e o jogador controla Ellie, que acaba encontrando um canibal pedófilo chamado David que a tortura e persegue, por fim, Ellie o mata mas, depois disso, ela não é mais a mesma. Tudo isso acontece no capítulo do inverno. É interessante notar que, quando o The Last of Us Part II começa, é essa mesma estação do ano. 

Ainda assim, diferente do primeiro jogo, as estações aqui não tem o mesmo sentimento de divisão e finalização de trama, o que pode dar uma sensação estranha quando você analisa a fundo todos os capítulos. Contudo, não destacar as estações parece mais uma decisão consciente do que apenas ignorar a narrativa do jogo anterior. 

Além da história excepcional, um dos pontos mais altos do jogo é a trilha sonora e a música que está sempre presente. Joel manteve sua promessa e ensinou Ellie a tocar o violão, o que traz várias cenas emocionantes entre os dois personagens. O trabalho de Gustavo Santaolalla é um dos melhores de sua carreira e é claro o quanto o jogo e a história de Ellie significam para o compositor, que já ganhou duas vezes o Oscar, uma por Brokeback Mountain e outra por Babel.

A composição, as músicas, o design de som. Tudo isso se junta em um dos melhores trabalhos de som que já vi em um jogo e não fica atrás de nenhum grande filme que sempre é lembrado por sua trilha sonora instrumental.

O design de produção e a direção de arte também não ficam para trás. A construção de mundo é uma das melhores dessa geração e no fim, fazem boa parte do trabalho de te transportar para dentro da história e do local. Quem já assistiu alguma série que se passa em Seattle, ou filmes que foram gravados na cidade, vai reconhecer alguns pontos turísticos e o apreço pelos detalhes específicos do local – algo que a equipe do jogo não falhou em recriar. A cidade, mesmo abandonada, ainda possui vida e muita personalidade.

Todo mundo já ouviu a frase “Antes de sair em busca de vingança, cave duas covas”, de Confúcio. E ela faz bastante sentido para a mensagem que o jogo traz. Afinal, se você se torna tão ruim quanto a pessoa que odeia, isso não te torna igual a ela? Ou, ainda mais, será que o outro, antes de ser consumido pelo ódio, não foi como você?

O jogo faz um excelente trabalho em trazer discussões importantes para dentro dele. É uma jornada de vingança, cheia de violência e muito sangue, sim. Também é uma jornada de empatia, autoconhecimento e, principalmente, é um jogo que discute como uma situação traumática pode mudar completamente sua vida de forma que ela se altere completamente.

Trauma, assim como ódio, é uma das principais questões abordadas na história. E Ellie, mais do que ninguém, sofreu eventos traumáticos que mudaram completamente sua vida. Imune ao fungo cordyceps, a jovem chegou a queimar a mordida em seu braço e, depois, ainda fez uma tatuagem por cima.

A história faz um ótimo trabalho ao explicar como Ellie foi se tornando cada vez mais amargurada, com um olhar mais cínico sobre a vida e sem esperança nas pessoas. “Antes de sair em busca de vingança, cave duas covas” – mas mesmo com mais raiva, cheia de ódio e com sede de justiça, Ellie ainda acredita que precisa cavar apenas uma. Que depois que tiver sua vingança, vai ficar tudo bem.

Enquanto jogava, uma frase de um (excelente e incrível) livro que li tempos atrás, chamado Filme Noturno, de Marisha Pessl, ficava na minha cabeça: “Qual a diferença entre algo que está te perseguindo, e algo que está te guiando?”. E essa é uma boa questão para toda a jornada de Ellie.

Em momento algum estou dizendo que a necessidade de vingança dela é fútil e, muito menos, infundada. Na maior parte do tempo estava completamente ao lado dela em todas as decisões. Ainda assim, o jogo faz um trabalho muito bom ao mostrar como o trauma dela a persegue, é algo do qual ela não pode fugir – então ela decide seguir esse sentimento.

Toda a jornada de Ellie é um grande estudo sobre esses vários sentimentos que seguem um evento traumático: ódio, raiva, negação, dor. Culminando em uma necessidade de retaliação que ela verdadeiramente acredita que precisa finalizar, ou então, irá morrer corroída pela culpa de não ter feito nada para trazer justiça ao mundo. 

No fim, The Last of Us Part II se consagra não apenas como uma das melhores histórias já contadas em um videogame, mas sim, em todas as mídias dedicadas a narrativa. Com uma história forte e coesa, focada em um dos sentimentos mais sombrios e nocivos da humanidade. 

The Last of Us Part II será lançado dia 19 de junho.

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