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[Crítica] The Boys (2ª temporada): Uma série de explodir a cabeça

Por Gus Fiaux

Desde que estreou no Prime VideoThe Boys se tornou uma queridinha dos fãs. Baseada nas HQs homônimas de Garth Ennis Darick Robertson, a série é ambientada em um mundo onde os supers são, na verdade, grandes babacas e criminosos. E foi com essa proposta que o primeiro ano fez sucesso o bastante para que a série fosse renovada para sua segunda temporada.

Recém-finalizada, a nova temporada foi vítima de críticas por adotar o formato de lançamento semanal, mas sua trama trouxe diversos elementos de destaque e um discurso muito potente e politicamente engajado. Aqui, você pode ler a nossa crítica completa sobre o segundo ano de The Boys. Afinal, a nova temporada é melhor ou pior que a primeira?

The Boys (2ª temporada): Uma série de explodir a cabeça

Um dos carros-chefes da Amazon Prime Video, The Boys é conhecida, desde sua primeira temporada, por pegar elementos das HQs originais de Garth Ennis e Darick Robertson e colocá-los em uma nova direção, criando uma história bem mais humanizada e complexa. Com o segundo ano, não é diferente: a série atingiu o seu ápice, aliando a violência e o caos a um poderoso discurso.

Quando a temporada começa, estamos ainda nos recuperando dos efeitos absurdos do primeiro ano. Os “Rapazes” estão foragidos, Billy Bruto não dá as caras há um bom tempo, Luz-Estrela sente um cerco apertando em meio aos Sete e o Capitão Pátria continua a descer pela espiral da loucura, ficando cada vez mais fragmentado pelas coisas sobre as quais não têm controle.

Felizmente, o que a série faz de melhor nesta temporada é apostar em núcleos individuais que se entrelaçam com a história central. Esses núcleos são perfeitos principalmente para desenvolver personagens secundários que não tiveram tanta atenção no primeiro ano – como é o caso de Kimiko, da Rainha Maeve e até mesmo do Francês.

Curiosamente, mesmo com sua qualidade impressionante, a série foi o centro de uma grande polêmica ao sofrer boicote por parte dos fãs que ficaram infelizes com a mudança do estilo de exibição. Em vez de serem lançados de uma única vez, os episódios do segundo ano saíram semanalmente, como no modelo tradicional televisivo.

No entanto, olhando em retrospecto, a decisão da Amazon e dos criadores foi certeira nesse quesito. A segunda temporada se beneficiou – e muito – do modelo semanal, por trazer grandes reviravoltas a cada final de episódio e criar uma antecipação para o fim, com várias teorias e especulações circulando na internet. Se fosse lançada de uma única vez, a série perderia muito de seu impacto e do engajamento do público.

Ainda assim, o que Eric Kripke (o showrunner e principal roteirista da série) faz é dar uma lição sobre construção de tensão e sobre como despistar a audiência com uma série de alarmes falsos e chamarizes de atenção. Isso fica bem evidente na trama da Igreja da Coletividade, que desvia a atenção de outra coisa importante acontecendo nas entrelinhas, apenas para uma revelação chocante no último episódio que deve ser crucial para a terceira temporada.

E como se isso não bastasse, a série também se beneficiou bastante da chegada de novos personagens, que ajudaram a mudar a dinâmica entre os supers e vigilantes existentes. Figuras como Facho-de-Luz (Shawn Ashmore), Ryan Butcher (Cameron Corvetti) e Kenji Miyashiro (Abraham Lim) ajudaram a dar profundidade ao universo de The Boys. Mas o destaque fica por conta de outra pessoa…

Tempesta é a grande revelação da temporada, e a interpretação de Aya Cash é, de muitas formas, o que garante uma construção genial para uma figura tão emblemática. A atriz constrói sua personagem sob camadas – camadas essas que eram reveladas a cada novo episódio. E por mais que a versão da personagem na série seja mais “suavizada” que a das HQs, seu papel atinge com um impacto diferente por ser uma representação muito mais atual e insidiosa.

E isso é apenas um dos detalhes da temporada. A série também sabe abordar muito bem a Vought e a manipulação corporativa de Stan Edgar (Giancarlo Esposito). Nesse quesito, a série atinge um patamar ainda mais alto ao retratar as intrigas políticas que envolvem a empresa e os supers. O forte destaque vai para a dinâmica entre o Capitão Pátria e os representantes da corporação.

No campo dos “Rapazes”, temos também um grande desenvolvimento dos personagens. Embora o núcleo central ainda seja centrado em Hughie e em Billy Bruto, a série consegue trazer mais humanização e mais desenvolvimento para Leitinho, Kimiko Francês, dando a cada um deles arcos e motivações muito pessoais.

Talvez, o único “ponto baixo” da temporada – que, ainda assim, serviu muito bem ao seu propósito – tenha sido o arco do Profundo. O personagem anda sendo jogado de um lado para o outro, e ainda é difícil saber se isso acontece porque os roteiristas não sabem o que fazer com ele ou se isso faz parte da campanha de “ridicularizá-lo ao extremo”, algo que já estava acontecendo desde a primeira temporada.

Ainda assim, o desenvolvimento da série não fica comprometido por isso. The Boys só cresce com uma história sólida, personagens moralmente ambíguos e muito bem concebidos e um discurso altamente engajado politicamente. Muitos podem até ver a série como um banho de sangue, sexo e violência, mas as camadas de críticas e de debates são o que tornam The Boys algo excepcional.

Em suma, o segundo ano de The Boys realmente expande a narrativa e as ideias por trás da série, solidificando-se como uma continuação bem superior à primeira temporada (que, diga-se de passagem, já era extraordinária). Dessa vez, Eric Kripke e a equipe de roteiristas da série conseguem criar uma temporada de reviravoltas e com alto valor de entretenimento, além de um propósito muito evidente.

O resultado é, no mínimo, surpreendente. Através de temas como domínio político de corporações, a “indústria das igrejas”, a manipulação política através do ódio na internet e até mesmo o ressurgimento de grupos neonazistas, a série consegue ampliar sua base discursiva para além do sangue e da violência, com uma narrativa que reflete muitos temas extremamente atuais e relevantes.

Se a primeira temporada veio para mostrar como a HQ de Garth Ennis e Darick Robertson podia ser adaptada em um programa de streaming, se tornando um dos carros-chefes do Prime Video, a segunda consolida a série como uma das melhores produções de super-heróis atuais – uma produção que se afasta da fachada colorida da Marvel e da estilização sombria da DC Comics. Uma sátira com vida própria.

Nota: 5/5

Abaixo, veja as maiores diferenças entre a série e as HQs:

The Boys está disponível no Amazon Prime Video.

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sobre o autor Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Crítico, roteirista e mago nas horas vagas. Wouldst thou like to live deliciously? || @gus_fiaux