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[CRÍTICA] Scooby! O Filme se rende à fórmula dos filmes de super-heróis

Por Gus Fiaux

Enquanto o mundo se concentra na luta contra o COVID-19, finalmente tivemos um dos lançamentos digitais mais esperados do ano graças a Scooby! O Filme. O longa animado estava atraindo a atenção dos fãs desde os primeiros trailers, e gerou um mistério ainda maior quando foram anunciados vários personagens da Hanna-Barbera na trama. 

Agora, o filme finalmente está entre nós e pode ser conferido por fãs ao redor do mundo inteiro. Porém, será que ele consegue fazer jus ao legado do Scooby-Doo e da Mistério S.A. ou é apenas mais uma tentativa de dar um “reinício” à franquia a qualquer custo? Aqui, você pode ler a nossa crítica e descobrir!

Ficha Técnica

 

Título: Scooby! O Filme (Scoob!)

Direção: Tony Cervone

Roteiro: Matt Lieberman, Adam Sztykiel, Jack Donaldson, Derek Elliott, Eyal Podell e Jonathon E. Stewart 

Ano: 2020

Data de lançamento: 6 de agosto (VOD)

Duração: 94 minutos

Sinopse: Scooby-Doo e sua turma enfrentam o maior mistério de sua carreira: um plano para liberar o cão-fantasma Cérbero no mundo. Enquanto correm contra o tempo para impedir o Apocãolipse, a turma descobre que Scooby tem um destino mais épico do que qualquer um imaginava.

Scooby! O Filme se rende à fórmula dos filmes de super-heróis

Catorze séries animadas. Dois filmes live-action lançados no cinema, mais três feitos direto para DVD, mais de vinte jogos e incontáveis filmes animados. Não é à toa que Scooby-Doo seja considerado por muitos como o maior sucesso já criado pela Hanna-Barbera. A franquia dominou o mundo, com histórias sólidas sobre mistérios, aventuras e, é óbvio, amizade. 

E agora, a franquia está ganhando uma nova cara graças a Scooby! O Filme, um longa animado que originalmente seria lançado nos cinemas, mas acabou sendo distribuído através de plataformas digitais por conta do surto do novo Coronavírus. Mais do que um simples filme, o novo longa é o primeiro passo na construção do universo compartilhado da Hanna-Barbera.

Além da Mistério S.A., temos também a participação mais do que especial de Dick Vigarista, Falcão Azul e Dinamite, o Bionicão, até o inesperado Capitão Caverna. Para quem gosta da linha de desenhos, é um prato cheio de referências e de bons momentos. Porém, para quem queria ver um “filme de origem” do Scooby-Doo, é melhor voltar duas casas. 

Scooby! está muito longe de ser um filme ruim. Na verdade, é um alívio ver o personagem sendo tratado com um longa muito bem produzido, especialmente após vários live-action vergonhosos lançados nos últimos anos. Até mesmo a qualidade dos filmes animados em 2D havia decaído um pouco, e felizmente o novo longa da Warner consegue reerguer o cão. 

Por outro lado, o filme não tenta inovar em nada, e perde a identidade de um “filme de Scooby-Doo” logo em seu primeiro ato, quando a equipe é separada e Scooby e Salsicha precisam se juntar ao Falcão Azul para deter os planos maquiavélicos do vilão Dick Vigarista. É exatamente aqui que o longa passa a tentar ser um filme de super-herói.  

Optando por seguir os passos da “fórmula” que tornou o Universo Cinematográfico da Marvel um dos maiores sucessos da história do cinema, o longa decide transformar Scooby-Doo em um super-herói. Ele é bem mais que um cão detetive que morre de medo e está sempre com fome. Ao longo do filme, ele passa por toda uma “jornada de herói” para descobrir sua origem.

E isso até funciona, em partes. É muito divertido ver as trapalhadas pelas quais o cachorro passa enquanto se prova um super-herói, e de certa forma, essas sequências até lembram um pouco dos vários crossovers que o personagem já teve com o Batman nas animações. Isso também auxilia no arco do Salsicha, que se prova aqui o verdadeiro coração da Mistério S.A.

No entanto, as coisas começam a entrar em parafuso quando o filme deixa de saber se será um longa do Scooby-Doo ou se vai ser um filme de estreia para o universo compartilhado da Hanna-Barbera. Embora a participação de Dick Vigarista e outros personagens seja bem interessante para os fãs, ela também dissolve o peso da jornada de Scooby e seus amigos. 

Pense bem: nas melhores séries e filmes do personagem, o que mais gostamos de ver é justamente a interação frenética entre os cinco membros da “Scooby Gang”. Eles podem ser disfuncionais e muito diferentes, mas funcionam como um só. Bem, Scooby! os separa logo no início, e as interações acabam sendo muito limitadas e corridas. 

Apesar disso, o elenco de vozes original manda muito bem. Zac Efron consegue passar o lado mais vaidoso de Fred, embora às vezes pareça que o personagem é apenas isso. Gina Rodriguez e Amanda Seyfried conseguem decifrar a fundo as personalidades de Velma e Daphne, respectivamente. E Jason Isaacs até se diverte no papel de Dick Vigarista. 

Mas a alma do filme definitivamente está em Will Forte e Frank Welker. Os dois dão vida a Salsicha e Scooby-Doo, honrando não apenas as séries clássicas (das quais Welker participou por mais de cinquenta anos), como também criam uma dinâmica mais atual e “jovem” para os personagens, fazendo a atualização que o filme tanto prometeu. 

E isso sem falar da animação. O trabalho aqui é excepcional e consegue, ao mesmo tempo, ser visualmente atraente como também se manter à parte dos projetos da Disney, Dreamworks, Illumination e outros estúdios de animação populares do mercado. Tudo é muito bem feito, e os fãs mais atentos vão poder reconhecer vários easter-eggs escondidos nos belos cenários. 

Ainda assim, há um problema tremendo de ritmo na história. Com apenas uma hora e meia de duração, o filme é frenético e alucinado demais, e traz poucos momentos de descanso para que possamos realmente respirar e compreender a trama, que é cheia de detalhes pequenos e um tanto confusos. 

Ao fim, prevalece a mensagem de que a amizade é o que mais importa e que a Mistério S.A. sempre estará unida por esses laços que existem desde a infância – o que é um alívio depois de um filme inteiro de “Scooby-Doo super-herói ao resgate”. No fim das contas, o coração do filme está no lugar certo, apenas anda por linhas um tanto tortas. 

A música talvez seja o elemento mais precário. Entre efeitos sonoros datados que remetem à série clássica (e que até funcionam de vez em quando) e uma trilha sonora muito pesada em hits de sucesso, o longa acaba tendo uma certa poluição sonora que às vezes até atrapalha o trabalho de vozes dos atores. 

Posso estar soando rabugento com um “filme de criança”, mas a verdade é que Scooby-Doo é uma das franquias infantis mais inovadoras e autossuficientes da história. Não havia necessidade de incorporar trezentos personagens novos apenas para dar o início a uma saga compartilhada. A sensação que fica é que um bom trabalho foi feito, mas podia ser melhor.

Ainda assim, se você é um fã incondicional de Scooby, Salsicha, Daphne, Fred e Velma, certamente deve dar uma chance ao filme. Mesmo com seus defeitos, é um deleite visual e traz vários momentos que traduzem o espírito da série original (mesmo que enterrados debaixo de várias referências à cultura pop, principalmente propriedades pertencentes à Warner). 

Scooby! O Filme é uma bela tentativa, que consegue apresentar personagens tão adorados para uma nova geração enquanto alimenta os fãs mais velhos com diversos easter-eggs criativos. Por outro lado, a pressa para se criar mais um “universo cinematográfico” acaba deixando o filme à sombra dos dois live-action originais e até mesmo da incrível Scooby Doo! Mistério S/A.

Abaixo, veja 10 fatos e curiosidades sobre Scooby-Doo:

Scooby! O Filme está disponível em mídias digitais.

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sobre o autor Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Crítico, roteirista e mago nas horas vagas. Wouldst thou like to live deliciously? || @gus_fiaux