[Crítica] Resident Evil 3 é um retrocesso

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[Crítica] Resident Evil 3 é um retrocesso

Por Lucas Rafael

Resident Evil 3: Nemesis (1999) se consagrou no panteão dos videogames por apresentar um terceiro título digno para uma das maiores franquias de survival horror do mercado. Trazendo puzzles, momentos soturnos e a temível criatura Nemesis, o game era um dos favoritos dos fãs para receber o tratamento de Remake na geração atual. Eis que agora, em abril de 2020, o tão aguardado remake, intitulado Resident Evil 3, chega às lojas.

Voltemos, por um parágrafo, para 2019. Ano de lançamento de Resident Evil 2 Remake: um jogo que alterava substancialmente o título clássico para incutir mais pavor no jogador. Resident Evil 2 evocava tensão ao espremer você em cenários obscuros com diversos zumbis à espreita, sem falar no Mr. X, um gigante de sobretudo que te perseguia, fria e calmamente, através dos mapas.

Resident Evil 3 Remake desliza feio onde seu antecessor havia acertado.

O jogo já abre numa pegada frenética: tudo que o jogador precisa fazer é correr para frente e eventualmente apertar X. Essas sequências que lembram um filme interativo permeiam boa parte da experiência e roubam nossa agência na hora da jogatina  – o que fisga o sentido do jogador não é a tensão de estar sendo perseguido por uma criatura em um ambiente escuro, mas sim as diversas explosões, a trilha-sonora épica e o caos que o rodeia.

 

 

Tenham em mente que RE3 é um título mais voltado para a ação, enquanto RE2 buscava um enfoque maior em adrenalina apenas em seu capítulo final, com o pavor servindo como principal combustível do game por grande parte da experiência.

Desculpem iniciar esta análise numa nota negativa: Resident Evil 3 não é um péssimo título, e há sem dúvidas valor de entretenimento aqui.

Os gráficos são incríveis, das partículas de poeira que flutuam entre os raios de luz até a expressão dos personagens e os viscos supurosos que cobrem a pele das criaturas, tudo belíssimo graças ao motor gráfico poderoso que é a RE Engine.

A fórmula de gameplay é similar à de RE2: Entre em cenários populados por zumbis e outras criaturas e desvende-os encontrando itens e solucionando eventuais puzzles.

No entanto, há algo de truncado na composição do level design aqui em Resident Evil 3. Os níveis e fases não parecem coesos; você passa por todos eles rapidamente e não há um senso de organicidade costurando uma fase na próxima.

A reciclagem de cenários machuca demais a experiência: aí pelo final da campanha, você vai estar cansado de revisitar ambientes parecidos com tudo que já foi visto em RE2.

Nemesis está de volta

Mas claro, o principal chamativo aqui é Nemesis, a criatura implacável que persegue o jogador. Vou soltar uma opinião sincera aqui e espero que os clubistas me perdoem, mas essa geração talvez pertença ao Mr. X. Deixem-me explicar o porque:

Nemesis aqui é agressivo. A Capcom imbuiu a criatura de habilidades implacáveis para dificultar a sua travessia do mapa. O bicho é tão chato que não há suspense em seus ataques. Ele pula, grita, solta tentáculos e você vai desviando e fugindo até escapar ou ser confrontado por uma tela de game over.

 

 

Games como Outlast e até Resident Evil 2 entendem algo muito importante ao se inserir um personagem perseguidor: a frieza de Mr. X, seus passos um andar acima do seu, assomam muito mais a um sentimento genuíno de pavor do que a agressividade implacável de Nemesis aqui.

O RE3 original já se trata de um título com mais ação do que seus antecessores – o problema é que este remake não funciona tão bem dentro de sua proposta.

Existem sim pontuais momentos de horror aqui, como cadáveres que podem ou não estarem mortos pra valer e corredores longos que dão aquela ansiedade ao atravessar. Mas todos esses trechos se apequenam comparados às explosões, piruetas e mísseis.

Resident Evil 2 apostava em atmosfera, Resident Evil 3 aposta em frenesi. Tudo aqui é muito rápido – os puzzles pedem soluções bobas que não te tomam muito tempo e, embora os ambientes sejam definidos por inimigos próprios, tudo passa em instantes, sem que você tenha tempo de se aclimatar a um mapa.

 

 

Mas o pior são os encontros scriptados com Nemesis, onde RE3 de repente vira um filme interativo: basta você andar pra frente e apertar X quando a tela mandar, que Jill faz o resto.

Existem alterações gritantes na trama do game que irão desagradar os puristas do título clássico. Acho que elas poderiam ser perdoáveis caso o recheio do conteúdo fosse mais generoso – são cerca de 5 horas de campanha com incentivos questionáveis para uma revisitação.  Há também um modo multiplayer genérico – o Resistance – que não deve contar com muita sobrevida.

Jogabilidade

Mecanicamente, Resident Evil 3 é um jogo que herda muito de Resident Evil 2, sendo bem responsivo nesse sentido. Tiros na cabeça dos zumbis correm risco de serem críticos e ainda dá para desmembrar os inimigos deixando-os mais lentos; a movimentação de seu personagem é fluída e responsiva, com os controles raramente engasgando na hora que você para de correr e puxa uma arma.

Há alguns momentos legais da narrativa aqui, mas o pacote geral é bem menos robusto do que Resident Evil 2. Talvez, este remake precisasse passar um tempo a mais no forno para fazer jus ao título original. O futuro para Resident Evil que RE2 apresentava era brilhante. Resident Evil 3 Remake é um passo para trás, engessando a franquia mais nos moldes de um Resident Evil 5 ou 6 – ação, mísseis, explosões e absurdismo, do que no survival horror raiz que a franquia ajudou a difundir. Ainda assim, é um game muito divertido, mas que não tem fibra para ser uma experiência tão marcante quanto seu antecessor.

No fim das contas, sua apreciação por Resident Evil 3 depende inteiramente da razão pela qual você ama a franquia. Se você gosta de Resident Evil pelo tom de ação absurdo que os jogos assumem de RE4 em diante, RE3 Remake é sua nova coisa favorita. Já se você prefere o ar de filme B denso em atmosfera com surpresas no fim de cada corredor, o game até agrada pontualmente, mas decepciona.

Nota Final

A nota final para Resident Evil 3, um jogo mecânica e graficamente competente que dispõe de uma progressão muito rápida e má-costurada injetada por muitas explosões e momentos cheios de adrenalina, é 3 logos da Umbrella de 5.

Ficha Técnica:

 

Desenvolvedora: Capcom

 

Publicadora: Capcom U.S.A.

 

Plataforma: PlayStation 4, Xbox One, PC

 

Lançamento: 03 de Abril de 2020

Fique com:

Resident Evil 3 Remake está programado para ser lançado em 3 de abril para PS4, Xbox One e PC.

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sobre o autor Lucas Rafael

Redator. Entusiasta de coisas demais