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[Crítica] Lovecraft Country traz o horror cósmico para o mundo real

Por Gus Fiaux

No último domingo (18), chegou ao fim a primeira temporada de Lovecraft Country, série da HBO inspirada no livro homônimo de Matt Ruff. A série se propôs a reconstruir os mitos do horror cósmico sob uma perspectiva subversiva, combatendo todo o racismo presente nas obras de H.P. Lovecraft ao mesmo tempo em que lida com um universo, narrativas e mitologias próprias.

A série anda sendo muito bem recebida pelos fãs de terror por suas várias abordagens e homenagens à literatura pulp. Porém, será que a mais nova produção da HBO faz jus ao livro que a inspirou e consegue criar uma narrativa à altura de um dos subgêneros mais conceituados do terror? Aqui, você pode ler a nossa crítica da primeira temporada de Lovecraft Country.

Créditos das imagens: HBO

Lovecraft Country traz o horror cósmico para o mundo real

Em sua base, o horror cósmico lida com diversas experimentações bem peculiares para o gênero do terror. Trata-se de um subgênero relativamente recente, criado e cunhado entre o fim do século XIX e o começo do século XX. Em seu fundamento mais básico, o horror cósmico lida com o medo do desconhecido, a insignificância do ser humano perante os colossos do universo, a presença de seres que a mente humana não consegue sequer compreender e até mesmo a fusão entre o terror e a ficção científica. 

Isso tudo foi aperfeiçoado por Howard Phillips Lovecraft, um grande autor norte-americano de fantasia e ficção científica que criou monstros e mitos imersos na noção do horror cósmico, com uma obra que foi influenciada por autores muito importantes como Robert W. Chambers Robert E. Howard. Em vida, Lovecraft nunca foi um autor famoso ou importante, mas sua obra acabou prevalecendo após a sua morte, criando todo um ramo do horror que se debruça sobre as criaturas temíveis que respiram na profundeza do cosmo.

Porém, esses não foram os únicos monstros que Lovecraft trouxe à tona.

Revisitada nos dias atuais, com a sensibilidade contemporânea e debates mais amplos, a obra de Lovecraft é recheada de problemas, especialmente no que diz respeito à representação dada a personagens e povos não-brancos. Lovecraft via como aberrações selvagens quaisquer civilizações que desafiassem a hegemonia branca, e isso é incorporado extensamente em seus contos mais famosos, desde o aclamado Nas Montanhas da Loucura até o infame poema On the Creation of Niggers. 

Desde então, diversos autores e pesquisadores – sem contar os próprios fãs – tentam fazer uma “separação” total entre todas as criações geniais do autor e as partes racistas e intolerantes de suas obras. O ápice disso veio com o livro Território Lovecraft, de Matt Ruff (lançado no Brasil pela Editora Intrínseca), que se inspira no universo de Lovecraft para criar uma trama própria. O livro foi adaptado em uma série pela HBO, lançada em 2020 e recém-concluída no último domingo.

Pode parecer um grande rodeio ter que passar por tudo isso para falar de Lovecraft Country, mas a realidade é que a série é uma produção que depende de um contexto maior – um contexto social e histórico. A série pega as bases do livro de Matt Ruff, construindo uma obra à parte e excepcionalmente poderosa, dando continuidade ao novíssimo levante de criadores negros no horror, um movimento que Jordan Peele trouxe à tona e reviveu com seu impactante longa de estreia, Corra!.

Por falar em Peele, ele é uma figura crucial para a série, investindo tempo e dinheiro como produtor executivo ao lado de sua companhia, a Monkeypaw Productions. Não apenas ele, mas também J.J. Abrams exerce esse cargo, e em alguns momentos é até possível ver a influência dos dois cineastas no trabalho transposto para as telas. Porém, se alguém realmente merece os créditos pela série é Misha Green, a roteirista norte-americana que já trabalhou para produções como Heroes, Helix, Sons of Anarchy Underground (sendo inclusive criadora da última).

Misha assume aqui os cargos de criadora, showrunner e produtora executiva, além de escrever o roteiro de todos os episódios e dirigir o oitavo. Ela consegue fazer algo que poucos sabem: desenvolver sua ideia a partir do material-fonte, não apenas adaptando a base como também trazendo sua própria perspectiva para a história. Se os dois primeiros episódios são essencialmente fiéis ao livro, os demais mostram suas liberdades criativas com força total e com um belo aproveitamento.

E não entenda mal, o livro de Matt Ruff já é uma obra subversiva e muito competente no que se propõe a fazer. Mas não podemos esquecer que o autor é um homem branco, e que ele não compreende a vivência diária e cotidiana de uma pessoa negra tão bem quanto… uma pessoa negra. Nesse sentido, Misha consegue transformar a obra para tocar em questões que vão muito além de raça e cor. Ela trabalha ideias relacionadas a gênero, a colorismo e até mesmo a afetividade em comunidades negras nos Estados Unidos.

Isso torna Lovecraft Country muito mais complexa e desenvolvida na tela que no papel. A obra resplandece com as mudanças. Ainda assim, há quem tenha desistido da produção por conta de seu formato episódico fragmentado, uma vez que cada capítulo é um novo “conto” focado em um personagem diferente. Pois bem, essa estrutura vem do livro e é uma bela homenagem à literatura pulp, com cada personagem vivenciando um tipo de horror diferente – e aqui, temos as mais diversas manifestações do gênero: seita, casa assombrada, body horror, terror de possessão, horror sobrenatural

E mesmo que mantenha esse esquema fragmentado, a série consegue criar um arco de histórias muito próprios, impulsionados por personagens verdadeiramente carismáticos. Temos Atticus Freeman (Jonathan Majors), um jovem negro e veterano da Guerra da Coréia que retorna à sua casa para procurar por seu pai. Temos Letitia Lewis (Jurnee Smollett), uma mulher segura de si que faz parte de movimentos e que está tentando encontrar seu lugar no mundo. Temos também Montrose Freeman (Michael K. Williams), o pai de Atticus – um homem que esconde um segredo que o consome noite e dia.

Todos esses personagens são essenciais para a continuidade da trama – e destaco aqui as atuações do trio, já que tanto Jonathan quanto Jurnee e Michael dão um show à parte, conferindo tanta veracidade e potência aos seus personagens quanto possível. No entanto, foi justamente no elenco coadjuvante que a criadora acertou em cheio, principalmente com Ruby Baptiste (Wunmi Mosaku), Hippolyta Freeman (Aunjanue Ellis), Ji-Ah (Jamie Chung), Christina Braithwithe (Abbey Lee) e Diana Freeman (Jada Harris).

Quem leu o livro sabe que a série reformulou e até mesmo alterou vários personagens. Christina e Diana, por exemplo, eram homens, enquanto Ji-Ah nem mesmo existia. Essas mudanças foram muito bem-recebidas, trazendo diversas consequências diretas para a narrativa. O resultado mais óbvio é a incontestável presença da força feminina na série, especialmente com discussões voltadas para a negritude feminina e a presença da mulher negra na sociedade. Tudo isso com uma abordagem cirúrgica sobre a construção de arquétipos e a subversão de estereótipos racistas.

E por mais que os personagens deem vida a essa trama concisa e espetacular, é na mensagem que Lovecraft Country pode provar todo seu potencial. A série traz o horror cósmico para o cotidiano, não com monstros vindos do espaço e nem com seres inomináveis. Em vez disso, Misha Green consegue transformar o próprio racismo e a intolerância racial em uma manifestação presente do horror cósmico, sempre pairando nos confins de cada cena, no canto de cada olhar, mas com sua ameaça sempre explícita e sempre violenta.

Claro que isso não exime a produção de erros. A estrutura em contos funciona até certo ponto, uma vez que alguns episódios acabam saindo pela culatra e entregando algo bem aquém do esperado – como, por exemplo, o segundo episódio da série, que foi onde muitas pessoas decidiram abandoná-la precocemente. A finale também deixou a desejar, com uma narrativa muito conveniente e corrida – com direito a flashbacks que servem como exposição sem que nada seja explicado. Felizmente, parece que a showrunner já tem planos para um segundo ano.

Porém, em meros 10 episódios, Lovecraft Country já conseguiu fazer história. Muitos esperavam uma obra que fosse realmente inspirada nos textos e contos de H.P. Lovecraft – afinal, o título dá margem a isso. Em vez disso, receberam uma trama que discute o racismo não apenas na sociedade, mas também nas histórias que amamos. É uma série que vem para levantar um ponto bem impressionante sobre aquela discussão milenar do “afinal, devemos separar a obra do autor?” A resposta é: não. Mas dá para aproveitar essa obra tendo em mente tudo que há de errado com ela.

Em poucas palavras, Lovecraft Country se despede de nós com uma temporada que, apesar de ter se encerrado em um tom baixo, nos forneceu vários altos ao longo de seus dez episódios. Em especial, há uma escalada ascendente que vai do quinto ao nono capítulo, gerando força e mostrando como a série ainda pode se expandir. Caso a HBO realmente dê conta de anunciar uma segunda temporada, Misha Green e sua equipe criativa estarão livres das amarras do livro, prontos para criar uma nova história onde o único limite é o céu.

Assim como Watchmen no ano passado, Lovecraft Country é o tipo de série que entende a sua base e seu material fonte, mas não está interessada em fazer uma simples tradução das mídias. Em vez disso, é uma série que abraça a ideia de horror cósmico e que aposta em uma subversão para esse subgênero, mostrando como as histórias são um espelho da realidade. Uma baita produção que precisa retornar para mais episódios com esses personagens extremamente ricos e poderosos.

Se você é um fã de horror e gosta das variações mais políticas do gênero, Lovecraft Country é um prato cheio, com uma primeira temporada cheia de potencial e várias cartas na mesa para o futuro, não apenas pela incorporação das mitologias de Lovecraft ou de Matt Ruff, mas pelo próprio universo que construiu, formando uma nova base para o horror cósmico que tanto amamos.

Abaixo, veja 10 motivos para assistir Lovecraft Country:

Lovecraft Country está disponível na HBO GO.

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sobre o autor Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Crítico, roteirista e mago nas horas vagas. Wouldst thou like to live deliciously? || @gus_fiaux