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[CRÍTICA] Agentes da S.H.I.E.L.D. (7ª Temporada): O Último Adeus

Por Gus Fiaux

Tudo que há de bom tem começo, meio e fim. Seja na vida, nas artes, nos livros… o fim é sempre uma constante que nos ajuda a compreender o significado de tudo o que veio antes. Uma bandeira cravada ao chão de uma jornada longa, emocionante e às vezes exaustiva. Recentemente, Agentes da S.H.I.E.L.D. chegou ao seu derradeiro fim, deixando para trás personagens lendários e fãs melancólicos, com saudade da aventura.

A série teve uma jornada significativa e peculiar. Originalmente anunciada como a primeira série a fazer parte do Universo Cinematográfico da Marvel, a produção teve uma primeira temporada bem divisiva, que dissipou o interesse por parte do grande público. Com o passar dos anos, os fãs que permaneceram fiéis foram recompensados com uma qualidade cada vez maior, ainda que a série deixasse de lado qualquer conexão mais profunda com o universo dos Vingadores. E agora, o final chegou.

Chegou, aliás, em um misto de melancolia e ansiedade. Sabemos que os dias estão difíceis – afinal, ainda temos uma pandemia se alastrando pelo mundo -, e ainda assim, S.H.I.E.L.D. veio como uma esperança e um presente para quem ficou até aqui, para quem viveu lado a lado com Daisy, Coulson, May, Fitz, Simmon, Mack, Deke, Yo-Yo e tantos outros por tanto tempo.

Quando os produtores e atores nos avisaram de que a série voltaria às suas origens, e a sétima temporada seria um grande presente para os fãs da S.H.I.E.L.D., não estávamos prontos para o que estaria por vir. A série nos provou mais uma vez como consegue surpreender na base do improvável e do inesperado, e tivemos uma trama de viagem no tempo que foi ficando cada vez melhor com o passar dos episódios.

No começo da temporada, Jemma Simmons reúne seus aliados e parte com eles por uma aventura pelo espaço-tempo, ao longo de toda a história da organização secreta. Ela precisa fugir de invasores alienígenas chamados Chronicoms, grandes computadores ambulantes que são capazes de identificar o fluxo do tempo. Eles desejam acabar com a S.H.I.E.L.D., e para isso, precisam também eliminar Leo Fitz, escondido nas profundezas do tempo.

A partir daí, as aventuras começam a se desenrolar com uma frequência bem interessante e inteligente. A série foi dividida em vários “mini-arcos” (alguns que duram apenas dois episódios, às vezes até menos), nos quais vemos os heróis vivendo na mesma década, geralmente enfrentando as mesmas ameaças e conseguindo prosseguir um pouco mais na batalha contra os Chronicoms.

E o mais curioso disso tudo é como, após seis temporadas e mais de cem episódios, Agentes da S.H.I.E.L.D. ainda consegue dar material para seus personagens e heróis. Só nessa temporada, vimos um Coulson completamente diferente do que estamos acostumados, lidando com o dilema de sua pós-humanidade, enquanto May enfrenta as consequências de sua “morte” e os poderes que ganhou com isso.

Simmons agora se torna a líder estrategista da equipe, assumindo o mesmo papel que Fitz tinha nas temporadas anteriores. Mack Yo-Yo precisam trabalhar seu relacionamento enquanto lidam com o peso de seus próprios passados. Daisy parte em uma nova jornada, tomando cada vez mais e mais consciência de que essa seria a última missão de sua equipe.

Tudo isso faz com que a série nunca perca o fôlego ou faça menos do que o digno para esses personagens e figuras. Ao fim dos treze episódios, é como se tivéssemos nos reencontrado com nossos melhores amigos pela última vez, e eles estão se preparando para fazer uma jornada muito grande e sem retorno. É uma despedida cruel, mas é também a última chance de construir memórias positivas que ficarão conosco pelo resto de nossas vidas.

Além disso, mesmo quando a série dava uma freada brusca em sua história, ainda assim tínhamos motivos de sobra para continuar envolvidos em tudo que estava acontecendo. Até mesmo os “episódios filler” – e acredite, há pelo menos três aqui – não servem apenas para encher linguiça. Muitos desses episódios (como, por exemplo, o capítulo focado unicamente em Deke e Mack, ou o episódio do loop temporal) avançam a trama às suas maneiras, nos dando uma variedade grande de narrativas, coisa que a série sempre fez muito bem.

E chega a ser gratificante ver Agentes da S.H.I.E.L.D. em tão boa forma, especialmente após suas quinta e sexta temporadas, que dividiram o público e deixaram um gostinho amargo pelos finais em aberto que sempre sugeriam um cancelamento abrupto por parte da ABC. Felizmente, o sétimo ano da série é todo preparado como uma conclusão, do começo ao fim. E isso torna o fim dessa história ainda mais satisfatório e especial.

E por mais que S.H.I.E.L.D. já tenha se afastado do Universo Cinematográfico da Marvel como o conhecemos há um bom tempo, a série não deixou de fazer referências aqui e ali – tivemos menção, entre outras coisas, ao Loki, ao incrível Hulk e até mesmo uma participação especial do Reino Quântico. Mas talvez, o feito mais honroso que a série tenha causado nessa temporada tem a ver com outra produção televisiva da Casa das Ideias: Agente Carter.

A série focada em Peggy Carter terminou abrupta e precocemente em sua segunda temporada, deixando para trás um gancho gigantesco aberto e encerrando sem mais nem menos a história de vários personagens queridos pelo público. E embora o sétimo ano de Agentes da S.H.I.E.L.D. não responda as nossas maiores perguntas a respeito da série, uma presença significativa faz tudo valer a pena.

Daniel Sousa integra a equipe nessa temporada, trazendo consigo um ar de Capitão América com a vibe de “homem fora de seu tempo”. Ele é curioso, ele está confuso, ele não sabe bem o que fazer. E isso o torna uma das figuras mais adoráveis que S.H.I.E.L.D. teve nos últimos anos, inclusive por toda a relação construída com a Tremor, o que resulta em um dos casais mais inusitados e divertidos de acompanhar ao longo da série.

E por falar em casais, posso ouvir um amém, irmãos? FitzSimmons sempre foi o coração dessa equipe, a dupla dinâmica que precisava de um final feliz. E temporada após temporada, os dois eram separados, perseguidos, caçados e até mesmo mortos. Ninguém aguentava mais ver só desgraça para esses dois. Quão grande seria nossa surpresa ao descobrir que os produtores deixaram toda a parte “ruim” reservada para o começo, para dar aos dois um final feliz?

(Até hoje não consigo acreditar que os dois tiveram um final feliz. Acho que devo ter visto o episódio errado.)

Além disso, mesmo os finais “tristes” carregam em si um peso bem significativo e honroso para seus personagens – como, por exemplo, o que acontece com Enoch. Tudo isso contribui para uma narrativa urgente e que tem lá seus perigos e ameaças, mas que sabe respeitar o peso e a presença de cada personagem, sem matá-los levianamente. O mesmo pode ser dito sobre as participações especiais de figuras do passado, que são quase todas bem dosadas e muito pontuais.

Isso serve para mostrar que, apesar do fan service estar firme e forte nessa temporada, a narrativa ainda é o foco central – algo que parece estar muito em falta nas séries de super-heróis nos últimos anos, já que boa parte das emissoras considera apenas dar migalhas em formatos de easter-eggs para os fãs, sabendo que muitos deles não vão reclamar disso.

S.H.I.E.L.D., por outro lado, aproveitou cada segundo. Desde seu começo, passando para sua series finale dupla que é um verdadeiro presente para os fãs da série. Tudo no lugar, tudo do jeito certo, dando a todos a despedida que muitos de nós queríamos ver. Claro, houveram deslizes aqui e ali – alguns vilões que exageraram na sua estadia, alguns membros do elenco que deixaram muito a desejar -, mas no fim, o sentimento é de gratificação.

Em sete temporadas, Agentes da S.H.I.E.L.D. fez o que muitas séries não conseguem fazer, mesmo tendo vinte e tantas temporadas a mais. A série se manteve em uma qualidade crescente, oscilando aqui e ali mas sempre deixando os fãs alertas para o que estava por vir. Mais do que isso, é uma série que cresceu com seu público, oferecendo a todos uma jornada para toda a vida.

O sétimo ano é um ponto alto no histórico desse projeto. É uma homenagem a tudo que aconteceu até aqui, às histórias que foram contadas e aos personagens que aprendemos a amar. Mas também é uma homenagem aos fãs, a todos nós que insistimos depois da primeira temporada, que nos mantivemos fiéis, passando pelas sagas como a ascensão do Hive, a aventura no Framework, a luta contra Izel, a guerra dos Inumanos e muito mais.

Ainda não sabemos o que será do futuro e desses personagens. Não sabemos se Coulson vai retornar para a S.H.I.E.L.D. em novas aventuras, se Daisy agora terá sua série solo ou uma participação mais ampla em outros projetos da Marvel, se May vai continuar sendo a cavalaria, se FitzSimmons vão aproveitar bem a vida de casados. Mas de uma coisa temos certeza: sentiremos muita falta de ouvir “nós voltaremos em um momento”.

Abaixo, veja também a nossa crítica da sexta temporada da série:

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sobre o autor Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Crítico, roteirista e mago nas horas vagas. Wouldst thou like to live deliciously? || @gus_fiaux