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[Crítica] A Maldição da Mansão Bly e o horror dos amores perdidos

Por Gus Fiaux

Mike Flanagan tem se provado cada vez mais como um dos maiores cineastas de horror da atualidade. O diretor já havia nos surpreendido diversas vezes no cinema, com filmes como O Espelho Ouija: Origem do Mal quando nos presenteou com A Maldição da Residência Hill, uma série de terror original da Netflix que foi um grande sucesso de crítica e de público.

Agora, dois anos após o estrondoso lançamento de Residência Hill, Flanagan retorna com força total em A Maldição da Mansão Bly, um novo capítulo da antologia que, dessa vez, se baseia em A Volta do Parafuso e outras obras marcantes de Henry James. Mas será que o mesmo raio cai duas vezes no lugar e Mansão Bly consegue se manter à altura de sua antecessora. Na nossa crítica, você irá descobrir!

Créditos: Netflix

A Maldição da Mansão Bly e o horror dos amores perdidos

Pode parecer um pouco hiperbólico e exagerado, mas na minha opinião, ninguém em Hollywood entende melhor histórias de fantasmas e horror sobrenatural quanto Mike Flanagan. O diretor tem conquistado cada vez mais seu espaço no cinema de terror norte-americano, desde a época de produções indie como Absentia O Espelho. Com o passar dos anos, o diretor aprimorou sua arte, criando filmes como Jogo Perigoso e até mesmo a continuação de um dos maiores clássicos do horror mundial, Doutor Sono.

Entretanto, sua obra-prima realmente veio na forma de uma série original da Netflix. Lançada em 2018, A Maldição da Residência Hill veio para mostrar como o diretor sabia criar histórias arrepiantes de fantasma enquanto contava narrativas essencialmente humanas. A série se inspirava no livro A Assombração da Casa da Colina de Shirley Jackson, um clássico gótico.

Agora, Flanagan retorna à Netflix para dar continuidade à sua antologia. A Maldição da Mansão Bly traz a mesma equipe de Residência Hill e vários dos atores, ao passo que se baseia em outro clássico da literatura gótica, A Volta do Parafuso de Henry James. Não apenas isso, a nova série faz um apanhado geral de vários contos do autor, criando uma narrativa singular e que aborda o terror por trás dos amores perdidos.

A série começa focada na história de Dani Clayton, uma professora americana em Londres, fugindo de um segredo assustador de seu passado. Ela é contratada para agir como au pair – uma tutora particular – para Miles e Flora Wingrave, um casal de irmãos muito educados e extraordinários que vivem na Mansão Bly, um casarão histórico localizado na área rural de Londres.

Ao chegar ao local, ela logo conhece e se aproxima das pessoas que trabalham na casa – dentre os quais, temos a governanta Hannah Grose, o cozinheiro Owen Sharma e a jardineira Jamie -, mas também logo descobre que a mansão guarda sua cota de segredos e mistérios. E tudo começa a se intensificar quando ela passa a ver um homem misterioso andando soturnamente pela propriedade.

A partir disso, os leitores do livro já têm uma noção bem básica de como a história deve fluir – até porque A Maldição da Mansão Bly também se inspira bastante na primeira grande adaptação do romance, Os Inocentes, de 1961. O filme de Jack Clayton está sempre presente na iconografia da série, seja através de algumas referências visuais ou a presença constante da canção “O Willow Waly”.

E se em Residência Hill, Flanagan se propõe a abordar a essência da obra original de Shirley Jackson em uma narrativa completamente diferente, em Mansão Bly, o cineasta pega uma rota contrária. A série é surpreendentemente fiel ao livro, adaptando com exatidão várias passagens e momentos, ao mesmo tempo em que mescla essa história a outros contos escritos por Henry James.

Em termos de essência, Flanagan e sua equipe de roteiristas retrabalham o conceito por trás do livro, criando uma narrativa que, antes mesmo de ser terror, é uma história de amor. A série aborda, através de vários núcleos e enredos, a ideia de amor perdido e de romances amaldiçoados, que estão condenados desde o começo. E mesmo que isso tenha uma ótica pessimista, na verdade a mensagem é outra.

Em seus nove episódios, A Maldição da Mansão Bly é uma história sobre como nós deixamos a oportunidade de amor passar muito facilmente. Sobre como somos imersos demais em nosso próprio egoísmo para perceber as coisas boas que nos cercam. E quando falo em amor, não se trata apenas do amor romântico – amizade, fraternidade e até mesmo compaixão entram nessas categorias.

Os fantasmas da série, assim como os da Residência Hill, não são apenas assombrações – ao menos, não ao pé da letra. Eles são metáforas incorporadas para a solidão humana, para a dor inconsolável do coração e para a perda daqueles que mais amamos. Ainda assim, a série não deixa de ser assustadora, principalmente quando estamos buscando os vultos nas trevas – inclusive, dessa vez, os fantasmas dos cantos são cruciais para a narrativa.

Essa tensão é expandida e potencializada para os novos nomes da equipe técnica. Se, na primeira temporada, Mike Flanagan sozinho dirigiu todos os episódios, aqui ele divide os palcos com nomes como Liam Gavin (Vozes da Escuridão), Ciarán Foy (Eli), Axelle Carolyn (Tales of Halloween), E.L. Katz (Channel Zero) e Yolanda Ramke Ben Howling (Cargo). Curiosamente, a série em momento algum perde a assinatura de Flanagan, ainda que os novos diretores incorporem uma forte carga autoral que pode ser sentida entre os episódios.

Isso honestamente era um motivo de preocupação para mim antes da temporada estrear. Afinal de contas, o que torna Residência Hill tão única é o domínio magistral de Flanagan por todos os aspectos da produção. Felizmente, Mansão Bly não decepciona nesse quesito. Ainda que outros diretores possam contribuir com essa narrativa, é Flanagan quem coordena a orquestra.

O diretor imprime poderosamente sua estética e suas próprias ideias à série. Mansão Bly começa como uma história de fantasmas e aos poucos se revela um conto, antes de mais nada, humano. É nesse poder narrativo que se concentram as maiores qualidades da série, mas é importante denotar que quem espera um Residência Hill repaginado vai quebrar a cara.

Sim, a série traz de volta atores – como Oliver Jackson-Cohen Victoria Pedretti, os dois espetaculares em seus papéis -, mas as duas séries não poderiam ser mais diferentes. São obras irmãs, mas podemos ver como cada uma delas cresceu de uma forma distinta e está em busca de objetivos diferentes. No fim, não é como American Horror Story, em que todas as temporadas são “iguais” e com estéticas levemente diferentes.

E isso é algo bem positivo, para falar a verdade. Mansão Bly não tenta replicar os elementos que fizeram sucesso em Residência Hill. Não há um capítulo de planos-sequência. Não há episódios que contam pontos de vista diferente da mesma história. Nem sequer há uma reviravolta colossal se anunciando no horizonte. Ainda assim, a série é corajosa o bastante para explorar diferentes temas e criar suas próprias assinaturas pessoais.

Em suma, A Maldição da Mansão Bly é mais um acerto para a conta de Mike Flanagan, e mais uma prova definitiva que ele é um dos grandes bastiões do horror contemporâneo em Hollywood. Em sua nova série, ele consegue criar uma história densa e profunda que toca nas bases do romance gótico como o conhecemos, e até nos faz ficar curiosos sobre qual será a próxima adaptação da antologia (eu voto em O Morro dos Ventos Uivantes).

Mansão Bly é o resultado da junção de vários profissionais extremamente capazes e de um elenco sensacional – e por falar neles, o destaque vai para Pedretti, talvez no melhor papel de sua carreira, T’Nia Miller, que entrega uma personagem extremamente profunda, e para as crianças Amelia Bea Smith e Benjamin Evan Ainsworth, que apesar da idade compreendem muito bem os seus papéis.

Flanagan entrega uma nova narrativa de fantasmas que diz muito mais sobre as assombrações que guardamos no peito que sobre os espíritos que permanecem presos na terra após a morte. É uma história bela, agridoce e melancólica, que expande ainda mais a franquia A Maldição e prova que sim, um raio pode atingir duas vezes no mesmo lugar. Resta saber se a plataforma de streaming vai renovar o projeto ou se a série aclamada de Mike Flanagan será, no futuro, mais uma alma penada no catálogo do serviço…

Abaixo, veja as 10 melhores séries de terror da atualidade:

A Maldição da Mansão Bly está disponível na Netflix.

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sobre o autor Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Crítico, roteirista e mago nas horas vagas. Wouldst thou like to live deliciously? || @gus_fiaux