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Você conhece o Aragãoverso, o universo compartilhado de terror brasileiro?

Por Gus Fiaux

O cinema de horror sempre foi um gênero muito amplo para as mais diversas vozes, credos e ideias. Um formato narrativo tão plural e interessante, o gênero floresceu no Brasil lentamente, a partir dos experimentos do nosso lendário Zé do Caixão até uma leva mais contemporânea, que abraça o horror político e a inclusão de elementos tipicamente nacionais em nossas histórias de medo e morte. Mas você sabia que, no nosso país, também há um grandioso e complexo universo compartilhado de filmes de terror?

Para falar um pouco disso, temos que adentrar profundamente na obra de Rodrigo Aragão, cineasta capixaba nascido em Guarapari, munícipio da região metropolitana de Vitória. Desde cedo, Aragão se interessava bastante pelo uso de efeitos visuais e maquiagens em filmes, sobretudo no cinema de horror. Após trabalhar no campo das artes, com peças de teatro e alguns curtas-metragens, Aragão mostrou ao mundo o que veio em 2008, inaugurando o primeiro capítulo daquele que viria a ser seu “Aragãoverso”.

Horror litorâneo e escatológico em “Mangue Negro”

O primeiro filme dessa franquia prolífica foi Mangue Negro. Um projeto totalmente experimental e independente, o filme custou cerca de R$ 50 mil – um valor ínfimo no que diz respeito às produções cinematográficas. O cineasta usou todos os recursos que podia, gravando no manguezal que ficava próximo de sua própria casa – e vale lembrar bem que, na época, Aragão só havia aprendido a fazer cinema por ver os filmes que gostava e assistir aos seus vídeos de making of, nunca tendo tido uma educação formal até ali.

O resultado é bem surpreendente. O filme conta a história dos habitantes de uma cidade que fica próxima a um mangue – o encontro entre o mar e os rios. O mangue começa a ser poluído e destruído pela ação humana e, por conta disso, os mortos começam a renascer a partir de lá como zumbis apodrecidos e fedorentos. É um projeto extremamente simples, que mostra como Rodrigo Aragão, desde o começo de sua carreira, pretendia trazer um horror mais próximo à população, que lide com temas atuais (como poluição e degradação ambiental) ao mesmo tempo em que absorve uma brasilidade natural, sem tentar ser um filme gringo.

E embora muitos teçam comparações com Sam Raimi, o diretor norte-americano conhecido por seu trabalho na saga Uma Noite Alucinante e na trilogia original do Homem-Aranha – já que ele sempre foi um amante do cinema trash e conseguiu popularizar essa estética em seus filmes de terror -, as referências de Aragão não podiam ser mais brasileiras. O diretor compartilha muitos traços estilísticos e narrativos com José Mojica Marins, o Zé do Caixão, que mesmo após sua morte continua sendo um dos maiores mentores do horror brasileiro.

O trash se intensifica em “A Noite do Chupacabras”

Mangue Negro foi um sucesso, reconhecido internacionalmente e rendendo vários prêmios a Aragão, inclusive de maquiagem e efeitos visuais (que ele mesmo fez). O diretor continuou aproveitando os louros de seu debut até retornar em glória sanguinária no ano de 2011, com o lançamento de A Noite do Chupacabras. Se o seu primeiro filme trazia um ser “genérico” na cultura popular (o zumbi), seu segundo longa subvertia as expectativas ao apostar em lendas e no folclore nacional, explorando a figura tenebrosa do Chupacabras em um visual sinistro e tenebroso.

Contudo, o filme sabe dosar muito bem sua história, de modo que o Chupacabras titular, na verdade, só aparece ao final, bem rapidamente. Enquanto ele não dá as caras, acompanhamos a vida e a batalha entre duas famílias que se odeiam, os Silva e os Carvalho. É bem curioso como o filme, mesmo não se levando a sério, consegue criar uma atmosfera tão brasileira, com duas famílias que são retratos caricatos e exagerados de muitas famílias tradicionais que conhecemos.

Para coroar, é justamente o casamento disso com uma narrativa tão folclórica e assumidamente brasileira que torna o filme uma aula para todos que ainda têm um certo preconceito com cinema nacional. As atuações podem não ser realistas e nota-se claramente a falta de recursos, mas temos aqui um trabalho passional de um diretor que quer, a todo custo, recriar os mitos e fábulas de nosso país com uma roupagem aterrorizante.

Medo, delírio e ambientalismo são as forças por trás de “Mar Negro”

E depois de todo esse sucesso, Aragão voltou mais uma vez aos cinemas em 2013, dessa vez passando sua mensagem ambiental ainda mais impactante com Mar Negro. O filme é uma miríade de personagens e figuras que se envolvem em uma grande trama em uma cidadezinha pequena do interior. Acompanhamos o que acontece em um bar, em um bordel e nas redondezas, quando as pessoas começam a ser envenenadas ao comerem peixes vindos do mar poluído e amaldiçoado.

Nesse filme, Aragão aproveita para realmente surtar em sua narrativa, fazendo um trabalho comparável a Um Drink no Inferno, Viagem Maldita e outros clássicos do horror que trazem protagonistas bobos que acabam indo parar em um lugar violento e cruel. É um dos filmes que menos se leva a sério e, por isso, talvez seja um dos mais engraçados e divertidos da carreira do Aragão, além de apresentar personagens que acabariam retornando em outros filmes.

E se, até agora, você está confuso em como todos esses filmes se ligam em um universo compartilhado, é preciso saber que, diferente dos Invocação do Mal ou Universo Cinematográfico da Marvel da vida, os filmes são capítulos individuais e episódicos que não necessariamente se ligam diretamente um ao outro. A experiência, no final, é como assistir aos filmes da Pixar, caçando pequenos easter-eggs e referências que ligam cada produção a seu lugar em um universo maior – a única diferença é que, em vez de brinquedos falantes e carros expressivos, aqui você vai encontrar zumbis, criaturas assustadoras e demônios.

O folclore macabro toma conta de “As Fábulas Negras”

Em 2015, Aragão encabeçou um projeto bem ousado que, até hoje, é tido como referência por muitos amantes do terror no Brasil. As Fábulas Negras é um filme antológico, daqueles que se constitui por vários curtas que, por sua vez, se ligam através da temática. O projeto foi, por sua vez, dividido em cinco segmentos, dos quais Aragão dirige dois. Além dele, Joel Caetano, Petter Baiestorf José Mojica Marins também dirigem seus próprios segmentos – inclusive, As Fábulas Negras foi o último filme no qual Zé do Caixão trabalhou como diretor.

Sendo uma antologia, o projeto é bem irregular, mas sua proposta é bem interessante. Aqui, cada segmento se foca em um personagem ou figura da mitologia e do folclore brasileiro, expandindo-o em um ambiente de terror. Nisso, temos tanto criaturas bem tradicionais, como o Saci e a Iara, como também a presença de lendas urbanas, com um curta inteiro dedicado à Loira do Banheiro. 

Ainda que o filme tenha lá seus problemas, é muito interessante observar um projeto que ostenta orgulhosamente da cultura brasileira, enaltecendo-a com contos que se embasam muito na narrativa oral e na forma como somos próximos às histórias de horror. Não fosse o bastante, o filme ainda surpreende ao trazer conexões com outros longas do “Aragãoverso“, criando realmente a sensação de que algo maior estava sendo planejado.

O universo se expande exponencialmente com “A Mata Negra”

Em 2018, Aragão assumiu novos ares ao dirigir A Mata Negra. O filme foi, até aquele momento, seu maior lançamento, com direito a um orçamento reforçado e um uso mais balanceado de maquiagem, efeitos práticos e até mesmo computação gráfica. O longa é uma continuação mais direta dos filmes anteriores, fazendo referências explícitas a personagens de Mar Negro. Tudo gira em torno do maldito Livro de São Cipriano, um tomo lendário que faz parte do imaginário brasileiro em várias lendas e mitos.

E tudo começa quando a jovem Clara entra em contato com o livro, realizando experimentos e feitiços a partir das páginas ancestrais que falam de demônios e rituais satânicos. É um filme bem episódio, com um caráter que até lembra antologias, talvez uma das consequências do trabalho de Aragão em As Fábulas Negras. Apesar disso, para quem acompanha o trabalho do cineasta desde o início, foi um verdadeiro presente e uma carta de amor ao horror brasileiro.

O filme realmente não poupa na hora de construir um universo ainda maior, especialmente com sua cena final que traz pistas significativas para o futuro desse universo compartilhado, abordando um horror pós-apocalíptico de um modo bem diferente do que estamos acostumados pelas produções norte-americanas e europeias. Chega a ser insanamente brilhante como Aragão consegue transitar tão bem entre um horror rural, usando críticas a figuras como fanáticos religiosos e líderes charlatões até criar um horror quase cósmico.

O Aragãoverso começa e prospera com “O Cemitério das Almas Perdidas”

E tudo isso nos leva até o mais novo lançamento da carreira de Rodrigo Aragão. Lançado neste ano, através de vários festivais virtuais e gratuitos de cinema nacional, O Cemitério das Almas Perdidas funciona como um ponto de partida perfeito para quem quer conhecer mais do trabalho do capixaba. É um filme que se divide em duas linhas temporais distintas – a primeira delas inclusive contando a história de um grupo de navegadores portugueses que fazem um pacto com o demônio.

De muitas formas, Cemitério é o maior filme da carreira do diretor em termos de escala e escopo. É um projeto absurdamente grande, que também finca as bases da narrativa do Aragãoverso, dando até uma origem para o Livro de São Cipriano. Ao mesmo tempo, o longa aborda questões bem particulares, como o genocídio indígena e a escravidão que até hoje escalam uma sombra tenebrosa e violenta nas bases da história do nosso país. É um projeto muito peculiar, que deixa toda a história redondinha e abre novos caminhos para serem abordados nesse universo.

Então, da próxima vez que estiver interessado em conferir um filme de terror – ou uma franquia -, por que não dar chance a uma produção genuinamente nacional, que não deve nada aos gringos no que diz respeito a trash gore, e ainda é capaz de explorar amplamente nossos próprios mitos e folclore, bem como medos particulares que só quem é Brasileiro entende. Pronto para mergulhar no Aragãoverso?

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sobre o autor Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Crítico, roteirista e mago nas horas vagas. Wouldst thou like to live deliciously? || @gus_fiaux