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A Todo Vapor: Série nacional mistura personagens da literatura brasileira com steampunk

Por Cristiano Rantin

Não é todo dia que vemos uma produção nacional em uma grande plataforma de streaming, e é mais raro ainda ver uma série que apresenta personagens clássicos da literatura brasileira em um universo fantástico de Steampunk. É essa a proposta de A Todo Vapor!, série criada por Felipe Reis e Enéias Tavares que chegou na Amazon Prime Video em setembro deste ano.

A premissa para definir o estilo Steampunk é fácil de compreender. Imagine que, séculos atrás, durante a Era Vitoriana, a sociedade conseguiu um grande avanço tecnológico através do uso do vapor. Assim, temos um universo que é tão futurista quanto antigo, misturando engrenagens, aristocracia e muitos aparelhos interessantes.

Ainda que o termo, em si, não seja muito conhecido, é muito provável que você já tenha visto o algo do gênero. Diversas mídias exploraram o estilo, em especial o mundo dos games. Franquias como BioShock, Dishonored e a região de Piltover, em League of Legends, são exemplos disso. Já nos cinemas, podemos citar Sucker Punch As Loucas Aventuras de James West para contextualizar o movimento.

Em A Todo Vapor! acompanhamos Capitu Machado, Juca Pirama, Victória Acuã, Doutor Benignus, Bento Alves e outros grandes personagens da literatura brasileira investigando crimes envolvendo o mundo sobrenatural. Tudo isso em uma realidade que mistura fantasia, magia e, é claro, muito steampunk.

Felipe Reis, ator, diretor e co-criador do projeto, conta que a ideia para A Todo Vapor! surgiu de forma inesperada. Tudo começou com um relógio que ele comprou em Nova Orleans e que, anos mais tarde, Reis descobriu ser parte da estética Steampunk.

“Ao me deparar com aquele universo, me apaixonei, e como gosto muito de cinema fui logo procurar filmes e séries com a temática”, conta. Mas sua busca não deu o retorno que ele esperava. Por não encontrar nenhum filme, ou série, que fosse feita inteiramente neste estilo, veio a vontade de criar um programa nacional que fosse 100% Steampunk.

O projeto ganhou forma após Reis encontrar Débora Puppet, que possui um canal voltado ao estilo. Através dela, o diretor conheceu Jesse Reeves e Enéias Tavares, que se tornou o co-criador da série. “Era a conexão que eu precisava. Nos demos super bem,” diz Reis. “Apresentei para ele um argumento que havia escrito e ele me retornou com uma proposta tentadora”.

Enéias Tavares, professor de literatura, escritor e roteirista, propôs misturar os personagens de A Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison, livro que ele havia escrito, junto com personagens originais. “A partir daí a coisa começou a fluir e em menos de um mês tínhamos o roteiro dos 8 episódios da 1º temporada de A Todo Vapor escritos”, relembra Reis.

Sobre a ideia de incluir personagens clássicos da literatura brasileira na série, Tavares explica que sempre teve esse anseio, algo que surgiu ainda no Ensino Médio. “Eu me perguntava por que a nossa literatura precisava ser tão difícil e pouco atraente, até mesmo para um sujeito como eu que adorava ler”, revela. Até mesmo quando ele se tornou professor de literatura, esse questionamento continuou presente.

O escritor conta que, quando releu A Liga Extraordinária de Alan Moore, teve vontade de criar a versão nacional deste grupo e trabalhou para incluir Jura Pirama e Capitu Machado ao universo steampunk de A Todo Vapor!

Mas a adição de personagens da literatura nacional não é única coisa que chama atenção no projeto. A série existe em um universo compartilhado e tem uma narrativa transmídia, ou seja, existe em livros, HQs e até mesmo jogos de cartas.

Tavares conta que, antes mesmo da série ser lançada, este universo compartilhado já existia, seguindo a tendência cada vez mais frequente para as produções audiovisuais.  “O livro ‘Juca Pirama Marcado para Morrer’ termina onde nosso primeiro episódio começa”, destaca o roteirista, que também ressalta como a HQ ajuda a explorar esta história.

Para Tavares, só existe vantagem nesse tipo de narrativa. Como ele aponta, na literatura e nos quadrinhos não há a limitação do orçamento, que é um grande fato a ser considerado para as produções audiovisuais. “Essas ações nos ajudam a levar a história para outras direções”, defende. O escritor também reforça que um universo transmídia permite que a imaginação flua mais livremente.

Mas não foi fácil criar um universo fantástico inteiramente baseado no gênero Steampunk, justamente pela mistura do tecnológico com o antigo. “A primeira grande dificuldade foram as locações. Outro desafio foi alinhar agenda de atores, equipe e locação, uma vez que não tinha dinheiro envolvido nem sempre conseguíamos ‘prender’ a pessoa à data por conta de possíveis trabalhos que pintassem”, conta Reis.

Ainda que esperassem muita dificuldade para encontrar acessórios, figurinos e objetos para compor o cenário, o diretor afirma que essa foi a parte que menos deu trabalho para a produção do seriado. “Boa parte da equipe era da comunidade steampunk e muita gente contribuiu para a execução,” diz. “A Todo Vapor é uma série que existe graças a muitas pessoas que acreditaram e apoiaram”.

Outro grande desafio na construção do projeto, foi levar uma produção nacional e independente para a Amazon Prime Video. Reis revela que isso só aconteceu após muita insistência, e que eles tentaram negociar a série por quase dois anos. “Já estávamos quase desistindo”, relembra.

Tudo mudou após uma conversa com os distribuidores do Festival de Cinema do qual Reis participava. Em cinco minutos de conversa com o responsável pela distribuidora 02 Play, Reis conseguiu explicar o universo fantástico que estava criando. “Ele se interessou e a partir daí a coisa desenrolou. Com os 8 episódios prontos, eles comunicaram a Amazon, que adorou o projeto, e de repente, estávamos lá, numa das maiores plataformas de streaming do mundo, já mirando também o mercado internacional”.

A expectativa dos criadores do projeto é que A Todo Vapor! ajude a suprir a grande defasagem de produção nacional de conteúdo fantástico. “No Brasil, ainda estamos engatinhando, criando uma indústria mesmo”, declara Tavares. O escritor destaca que esse tipo de produção já está estabelecido em outros lugares do mundo, mas que no país, ainda estamos começando a nos aventurando para o lado mais fantástico.

Por sorte, ele enxerga que, mesmo que lentamente, isso está mudando. “O público e os produtores estão se abrindo para o potencial comercial das nossas histórias e da nossa cultura”, diz.

Tavares destaca que, cada vez mais, há investimento neste mercado, citando o projeto Tormenta 2.0. da editora Jambô, e o prêmio de 100 mil reais que a DarkSide Books investirá em novos autores. Para ele, isso demonstraa que há um belo futuro para projetos fantásticos no país. “Cada projeto ou ação dessas abre uma porta ou uma janela para novas ações futuras”, afirma “Vamos ver o que o futuro trará e como o universo de A Todo Vapor! continuará a crescer também com essas parcerias!”

No que depender da reação do público, a série continuará ampliando seu universo. Reis conta que a reação dos fãs foi extremamente positiva: “Quando descobrem que usamos alguns personagens da literatura brasileira, as pessoas se encantam e se instigam ainda mais a querer saber sobre nosso universo”. 

“A reação tem sido ótima,” adiciona Tavares. “O público está não apenas descobrindo uma série divertida e bem realizada, como um modo de revisar nossa cultura e literatura que eles nunca tinham visto.”

A primeira temporada de A Todo Vapor! já está disponível na Amazon Prime Video.

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sobre o autor Cristiano Rantin

Jornalista • Editor • Mestrando em Comunicação Social pela UEL • Twitter e Instagram: @Chris_Rantin • "Eu sou o fogo e a vida encarnados. Agora e para sempre eu sou a Fênix!"