Capa da Publicação

Turma da Mônica: No Mônicaverso!

Por Raphael Martins

Há quase 60 anos fazendo a alegria da criançada brasileira, geração após geração, a Turma da Mônica se reinventa, cria novos personagens, novas situações e se mantém sempre atual. Esse é um feito único no mercado de quadrinhos do Brasil, com nenhum outro título sequer se aproximando de ter um sucesso com tanta longevidade assim.

Mas essa reinvenção atingiu novos patamares quando Turma da Mônica Jovem, uma série completamente nova mostrando os personagens como adolescentes, começou a ser publicada pela editora Panini. Com tiragens ultrapassando meio milhão de exemplares, a nova empreitada foi um sucesso absoluto e abriu caminho para outros projetos envolvendo os personagens, como as muito bem-sucedidas Graphic Novels, feitas por alguns dos artistas mais talentosos do Brasil.

Em 2019, mais um projeto bem diferente envolvendo a turminha mais amada do Brasil toma forma e promete fazer ainda mais sucesso, Turma da Mônica – Geração 12. Se assemelhando muto a um mangá, no belo traço da artista Roberta Pares, a nova série tem um grande diferencial: tudo se passa em um universo paralelo, separado do das demais publicações e onde as coisas são bem diferentes do que estamos acostumados a ver.

Mas isso levantou uma questão: se essa nova história se passa em uma outra Terra, o que dizer sobre as outras séries com a turminha? Existe um multiverso da Turma da Mônica? A dona da rua faz parte de um “Mônicaverso”, com diferentes versões dela em cada um deles? Vamos tentar descobrir!

A dona da rua do limoeiro: tão especial que tem seu próprio multiverso

Para tentarmos desvendar o mistério do “Mônicaverso”, precisamos voltar ao começo de tudo, ao “universo primário”, por assim dizer: a primeira série de tirinhas que Maurício de Souza escreveu para o jornal Folha da Manhã, hoje Folha de São Paulo, nos anos 60. Naquela época, os personagens estavam em seus primeiros anos, ainda em desenvolvimento, e eram um pouquinho diferentes daqueles com quem nós crescemos, especialmente no traço.

Tão diferentes que a princípio nem mesmo a própria Mônica existia. O protagonista das historinhas era o Cebolinha, com a baixinha aparecendo só depois, ainda como coadjuvante. Seu carisma conquistou o público de uma maneira tão efetiva que pouco tempo depois, a situação se inverteu e Cebolinha passou a ser mostrado em segundo plano, com o destaque inteirinho para a dona da rua.

Outros personagens foram aparecendo e a série ficou grande demais para permanecer só nas tirinhas. Eles acabaram migrando para os quadrinhos, onde sua popularidade explodiu e onde permanecem na liderança no mercado brasileiro até hoje. Mas nesse meio tempo, as coisas foram mudando. Magali e Cascão surgiram, a dupla de protagonistas virou um quarteto e o traço se tornou aquele que conhecemos hoje, facilmente reconhecido em qualquer parte do território nacional.

Mônica e Cebolinha do “universo primário”: no começo, eram só os dois

Essa nova fase da turma se tornou a mais lembrada pelo público, e a explicação para isso é fácil. Com o sucesso dos quadrinhos, Mônica e seus amigos tiveram uma avalanche de produtos baseados em suas aventuras, como bonecos, desenhos animados para a TV e para o cinema e até vídeo games, como Mônica no Castelo do Dragão, se firmando cada vez mais no inconsciente coletivo como a primeira e única Turma da Mônica, como se sempre tivessem sido daquele jeito.

A história e seus personagens se tornaram tão diferentes e maiores do que eram quando começaram que as tirinhas do passado, com o traço inicial de Maurício de Souza, foram ficando para trás e sendo esquecidas aos poucos. O mundo que cercava os personagens dos quadrinhos acabou se tornando algo como o “universo 616” da turminha, ou o universo principal, onde as principais histórias e acontecimentos se passavam.

A turma que todos estão acostumados a ver: o “universo 616” dos personagens

Até que em 2008, toda uma nova série em quadrinhos é anunciada pela editora Panini, que passou a publicar as histórias da turma no lugar da editora Globo. Adotando um estilo muito parecido com o dos mangás japoneses, Turma da Mônica Jovem e fez um enorme sucesso ao mostrar os personagens mais velhos, vivendo aventuras arriscadas e romances cheios de drama, pegando em cheio o público adolescente que havia crescido com as histórias da turminha “normal”.

A princípio, a premissa é a de que aqueles seriam os mesmos personagens dos quadrinhos para crianças crescidos, com tramas passadas no futuro daquela linha do tempo, mas se prestarmos mais atenção e abrirmos nossas mentes para as teorias, há de se questionar isso.

Primeiramente, os personagens já tiveram versões adolescentes e adultas já mostradas no “universo normal”, e eles são bem diferentes dos vistos em Turma da Mônica Jovem, inclusive em traços de personalidade. Apesar de algumas coisas baterem, como a Mônica adulta ser casada com o cebolinha, o tom das histórias era diferente. Enquanto que na série original nós temos um “slice of life”, com confusões envolvendo situações do cotidiano, em Mônica Jovem temos aventuras épicas com o destino do mundo em jogo.

Deste modo, podemos dizer que Mônica Jovem não mostra o futuro dos personagens com os quais crescemos. Se trata de um universo paralelo, com versões mais velhas e diferentes dos personagens normais. O que reforça ainda mais essa teoria é o fato de a numeração da série ter sido zerada, quase que como um “soft reboot”, algo muito comum em editoras americanas como Marvel e DC, que possuem cada uma seu multiverso com várias versões alternativas de seus heróis e vilões.

Turma da Mônica Jovem: um sucesso absoluto que pode ou não se passar em um futuro alternativo

O mesmo pode ser dito das Graphic Novels com os personagens da turma, que são tão diferentes de qualquer uma das coisas já citadas que poderiam muito bem ser compreendidas como um universo separado, fora do cânone das histórias normais (se é que isso existe no caso da Turma da Mônica).

São histórias voltadas para um público um pouco mais velho, embora não excluam nenhuma faixa etária específica. A linguagem e o ritmo adotado por essas histórias é claramente mais maduro, resultando em trabalhos muito mais de arte do que de entretenimento.

Como exemplos, podemos citar Astronauta: Magnetar, de Danilo Beyruth; Jeremias: Pele, de Rafael Calça; Mônica: Tesouros, de Bianca Pinheiro; e Turma da Mônica: Laços, de Vitor Cafaggi. Esta última inspirou o primeiro filme com atores da turminha, que será uma adaptação dessa história.

Laços: com uma narrativa mais madura, abriu o caminho para o primeiro filme com atores da turma

Falando no filme em Live Action, poderia ele também ser um outro universo paralelo? Já aconteceu muitas vezes de os personagens da turminha em 2D se encontrarem com personalidades da vida real em carne e osso, o que implicaria em dizer que existem dois mundos, um bidimensional e um tridimensional. Até o Adam Sandler já chegou a encontrar a Mônica para falar de um de seus novos filmes, por mais nonsense que isso seja.

O contrário também já aconteceu, com contrapartes bidimensionais de pessoas famosas aparecendo nos quadrinhos da turma… ok, eu posso estar viajando demais nessa teoria, mas que é pertinente, ah, isso é.

A turminha em carne e osso: universo tridimensional?

E finalmente chegamos ao presente, onde Turma da Mônica – Geração 12 se prepara para invadir as bancas. Ao contrário de tudo já citado até aqui, o mundo onde essa história se passa é confirmadamente um universo paralelo, com essa informação tendo sida apontada com destaque por todos os sites que noticiaram a novidade pela internet afora.

Na história, assinada pela roteirista Petra Leão, o mundo está a beira da destruição após um grande colapso ter se abatido sobre a Terra. Cientistas do mundo inteiro se dividem em dois grupos: enquanto uns tentam reverter a situação e tornar o planeta habitável novamente, outros preparam tecnologia de ponta para auxiliar a humanidade a evacuar o planeta quando a hora chegar.

No meio, está Mônica, uma simples colegial comum, que vê sua vida mudar ao encontrar um coelhinho falante chamado Sansão, que a confere poderes para lutar contra as mais diversas ameaças à Terra e seus amigos.

O traço, a narrativa e todas as situações são muito mais parecidos com um mangá do que Turma da Mônica Jovem era, com a nossa amada dona da rua se transformando em uma garota mágica no melhor estilo Sakura Card Captor ou Sailor Moon, com arminha e tudo. Aqui, o foco é muito mais a aventura da menina em meio a um mundo que talvez ela tenha chegado tarde demais para salvar.

Geração 12: Em um universo alternativo, Mônica é uma garota mágica que luta contra o mal

Com essa história abertamente declarada como passada em um outro universo, há de se pensar, ou ao menos se questionar, se esse seria o caso de todos os outros títulos que não são os dos personagens consagrados da linha infantil dos quadrinhos. Tendo em vista todas as suas diferenças entre si, algumas mais gritantes que outras, a ideia de um “Mônicaverso” parece mais do que só uma teoria maluca da internet.

Se este for mesmo o caso, melhor ainda. Os quadrinhos da Turma da Mônica conseguem ser divertidos sem nunca se levarem a sério há décadas, brincando com o a imaginação do leitor e também com o que faz sucesso no mundo real, como as historinhas inspiradas em filmes, por exemplo. E se um dia fizerem mesmo Turma da Mônica: No Mônicaverso, inspirados pelo longa animado do Homem-Aranha? Não é impossível não, hein?

Uma coisa é certa: seria muito divertido ver as várias versões da Mônica juntas em um só lugar. Vida longa à dona da rua. À todas elas!

Veja também várias imagens de Turma da Mônica: Laços, primeiro filme com atores baseado na turminha mais amada do Brasil:

Imagem de perfil
sobre o autor Raphael Martins

Redator, apresentador e roteirista. Gosto de longas caminhadas na praia, Star Wars, tokusatsu, anime e filé com batata frita. Deixo as pessoas constrangidas. Você pode trocar uma ideia comigo no Twitter: @aqueleraphael