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The Wicked + The Divine – O fim de uma jornada divina!

- – A era dos deuses chegou ao fim!

Por Gus Fiaux → Era junho de 2014. Entre fugir das editoras mainstream e procurar por algo que não fosse necessariamente sobre super-heróis, acabei me deparando com um pequeno projeto da Image Comics, escrita por Kieron Gillen e com as brilhantes ilustrações de Jamie McKelvie. O nome era The Wicked + The Divine. 

E agora, ela chegou ao fim.

Ao todo, foram 51 edições – quarenta e cinco edições da revista normal e seis especiais, que ajudaram a construir a mitologia por trás deste universo. E em vez de focar nos pontos básicos do porquê você deveria estar lendo ou sobre o que se trata a série – afinal, já falamos disso antes -, preferi pensar um pouco a respeito da minha experiência com a saga.

Gillen e McKelvie são uma dupla de peso nas HQs, sobretudo nos selos mais jovens e independentes, mesmo dentro das grandes editoras. Juntos, eles fizeram o espetacular Phonogram (Image), mas só entrei em contato com eles no segundo volume de Jovens Vingadores, para a Marvel. 

Em The Wicked + The Divine – batizada carinhosamente de WicDiv, pelos fãs -, acompanhamos a jornada de Laura, uma jovem que vive em um mundo fantástico. Ela vê ao seu redor divindades, que retornam a cada noventa anos e vivem durante mais dois. Eles amam e são amados, e finalmente morrem de modos brutais.

Laura é uma personagem muito interessante, pois em momento algum ela é vista completamente como uma heroína. Quando ela própria se torna uma divindade – a encarnação de Perséfone -, ela fica dividida entre usar seus poderes para atos bons ou a completa corrupção, o que gera um desenvolvimento de personagem fantástico.

Ao longo das quarenta e tantas edições da revista, ela e o resto do Panteão precisam resolver um mistério envolvendo assassinatos enigmáticos. Embora a primeira “culpada” pareça ser Ananke, uma entidade poderosa que é responsável por “despertar” os novos deuses, posteriormente descobrimos que essa ameaça é ainda maior, e que Ananke é só uma faceta desses problemas.

Podem ficar tranquilos – não vou entregar nenhum spoiler sobre a trama.

Entretanto, é importante ressaltar o quanto essa narrativa evoluiu e se tornou imprevisível – algo que é muito próprio não apenas da dupla McKelvie e Gillen, mas também das próprias HQs independentes da Image Comics. Aqui, nota-se uma preocupação incrível em trazer algo novo e surpreendente ao leitor, além de criar uma trama que não caia em clichês das HQs da Marvel e da DC Comics. 

Tudo isso torna a jornada de The Wicked + The Divine extremamente recompensadora. Quando todas as cartas são postas na mesa – e acredite, isso só acontece mesmo na antepenúltima edição -, temos um sentimento de completude, de descanso, uma vez que a saga realmente amarra todas as pontas soltas de uma forma sensacional.

E é por isso que precisamos falar de Laura. Laura (ou Perséfone) é uma personagem sem igual. Por mais que a HQ também apresente outros “deuses”, como Baphomet, Morrigan, Baal, Lúcifer, Inana, Odin Minerva, Laura sempre foi a grande protagonista – é ela que motiva a trama, e é através dela que vemos tudo se desenrolar.

Sua jornada é o que motiva WicDiv a se tornar tão diferente de narrativas de super-heróis. Ela é falha e se permite sentir uma variedade de emoções – divinas e humanas -, como medo, raiva, amor e tristeza. Tudo isso a apresenta como uma figura tão natural quanto qualquer um – e é através dela que nos questionamos: “o que aconteceria se um ser humano normal ganhasse super-poderes?”

Mais do que isso, WicDiv também é uma ótima crítica a como “criamos nossos próprios deuses” – afinal de contas, textos sagrados e congregações servem apenas como “base”, a verdadeira fé parte única e exclusivamente de nós. E o que seriam os deuses da geração atual senão celebridades, cantores e artistas?

A premissa, nesse sentido, se assemelha até a Deuses Americanos, de Neil Gaiman, ainda que de uma forma muito mais moderna e cool, por assim dizer. Deuses só existem porque acreditamos neles – e porque eles próprios acreditam em seu poder e sua influência – ainda que WicDiv tenha uma reviravolta bem interessante sobre o “papel” dessas divindades.

A última edição, lançada no dia 4 desse mês, conclui essa jornada de uma maneira linda e simples, relembrando que, antes de serem deuses, as pessoas envolvidas na trama já foram seres humanos. É muito mais um epílogo do que um desfecho – já que a verdadeira conclusão está na penúltima edição.

E isso me trouxe memórias de como essa HQ me ajudou a moldar o gosto por títulos fora do eixo padrão da Marvel e da DC Comics. Se todos gostamos de ver como heróis precisam lidar com problemas humanos em essência, The Wicked + The Divine inova ao mostrar como seres humanos precisam lidar com problemas não apenas de heróis, mas de deuses.

No fim, a revista conseguiu cumprir seus objetivos. Por mais que o meio tenha tido uma notável “barriga narrativa”, com muitos elementos descartáveis, WicDiv ainda conseguiu criar uma história memorável, explorando laços humanos em situações mais que especiais.

A jornada da divindade chegou ao fim. A cada noventa anos, deuses retornam… mas dessa vez, acabou. Dessa vez, eles quebraram a roda, abrindo caminho para um futuro mais humano impossível. E o futuro… bem, o futuro é–

Na lista a seguir, fique com motivos para começar a ler essa HQ incrível:

The Wicked + The Divine está sendo publicado no Brasil pelo selo Geektopia da editora Novo Século.

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sobre o autor Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal de Pernambuco. Wouldst thou like to live deliciously? || @gus_fiaux