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Tão ruim que dá a volta – Street Fighter: A Batalha Final!

- – Infame sim, mas com seu valor!

Por Raphael Martins Quando Street Fighter: A Batalha Final foi lançado, em 1994, os filmes baseados em games ainda eram uma novidade. Ainda não havia aquela opinião cada vez mais unânime de que eles eram sempre ruins, embora Double Dragon e Super Mario Bros., que saíram antes dele, o fossem. Sendo assim, parecia uma boa ideia quando a Universal Pictures comprou da Capcom os direitos para a produção de um longa metragem baseado no game, que fazia um sucesso nunca antes visto em todo o mundo.

O resultado final, todos nós sabemos: um filme terrível, com um roteiro duvidoso, efeitos especiais mais duvidosos ainda e um desprendimento do material original tão grande que até hoje serve como exemplo de como não se fazer um filme inspirado em outra propriedade intelectual. Mas ainda assim, ele tem lá seus momentos e seu valor.

Os personagens do filme fazem suas poses do game na última cena de Street Fighter: A Batalha Final

O filme foi anunciado em 1993, com sua produção começando no ano seguinte, programado para estrear em dezembro de 1994. Era um prazo muito apertado, mas tanto a Capcom quanto o estúdio acreditavam no potencial da adaptação. A Capcom, aliás, financiou boa parte do orçamento do filme, de modo a ter um controle maior da história que seria contada.

O próximo passo foi divulgar o elenco. Jean-Claude Van Damme, um dos maiores astros de ação da década de 90, seria o protagonista, no papel do Coronel Guile. E foi aí que o “sentido aranha” dos fãs começou a formigar. Nos jogos, o personagem principal é Ryu, e uma celebridade do calibre de Van Damme não iria aparecer simplesmente como um coadjuvante. Então Guile seria o grande herói do filme? E quanto a Ryu, como era que ficava? Algo não estava certo…

O que deu mais credibilidade ao filme foi o ator Raul Julia (Amazônia em Chamas, A Família Addams), ganhador de muitos e merecidos prêmios por trabalhos anteriores e um ator respeitado e procurado. Ele seria Bison, o grande vilão dos games, e apesar de não ter o porte físico que o personagem tem na outra mídia, pelo menos tinha um figurino parecido.

Outras nomes do elenco eram a cantora Kylie Minogue como Cammy, anos antes de estourar nas paradas de sucesso com “Can’t Get You Out Of My Head”, e Ming-Na Wen, mais conhecida hoje pelo papel da agente Melinda May em Agents of S.H.I.E.L.D., como Chun-Li.

Hype instaurado, hora de começarem as gravações. E foi aí que o sonho se tornou um pesadelo.

Jean-Claude Van Damme como Guile: ator estava em uma péssima fase com drogas e quase pôs tudo a perder

Para começar, o astro do filme, Jean-Claude Van Damme, estava em uma época onde seu vício em cocaína era incontrolável, se atrasando para as filmagens e prejudicando toda a agenda de produção por meses, isso quando aparecia. Para mantê-lo na linha, o diretor Steven E. de Souza, um veterano do cinema de ação, contratou uma pessoa para mantê-lo na linha, mas essa pessoa só piorou tudo, trazendo drogas para o astro consumir dentro de seu trailer.

Com o orçamento cada vez mais apertado – só o salário de Van Damme tirava $8 milhões dos $35 milhões reservados à produção – o diretor teve que se desdobrar para entregar o filme na data estipulada e agradar tanto a Capcom quanto a Universal, o que o obrigou a dividir a produção em dois. As cenas mais dramáticas e com mais diálogos seriam gravadas em um estúdio na Austrália, enquanto as cenas de ação, em outro estúdio, em outro país. Isso transformou o filme em uma enorme bagunça nos bastidores.

Não ajudava nada o fato de que Van Damme era alguém muito difícil de se trabalhar, muitas vezes se recusando a sair de seu hotel enquanto não se sentisse pronto. Já Kylie Minogue e Raul Julia receberam muitos elogios por parte do resto do elenco e da produção, sempre profissionais e generosos com todos os presentes.

Aos trancos e barrancos e enfrentando cada vez mais problemas, o filme finalmente saiu… e os fãs não estavam preparados. Infelizmente, no mau sentido.

A trama não poderia ser mais diferente da do jogo. No longínquo país de Shaladoo (que no game é uma organização criminosa), o general Bison, ditador da região, fez centenas de civis reféns. Para resolver a situação, as união das nações unidas manda o coronel Guile até lá para lidar com o vilão, o que o faz encontrar vários personagens do game – todos devidamente descaracterizados, é claro – pelo caminho.

Aqui, Ryu e Ken são dois golpistas que fazem tudo para se dar bem, Chun-Li é uma repórter, Honda e Balrog são seus ajudantes, Dhalsim é um cientista, Sagat é um traficante de armas e por aí vai. Piora: Blanka é um antigo amigo de Guile transformado em um monstro por Bison sem motivo aparente, só porque sim.

Para todos os efeitos, é um filme de guerra. Um muito, muito ruim, o que a produção deixava transparecer a cada minuto de projeção. E a crítica foi impiedosa, beirando aos xingamentos em suas análises do longa. O mesmo podia ser dito dos fãs, que não gostaram nada de verem seus personagens preferidos tão diferentes do que estavam acostumados.

Apesar das críticas negativas, o filme foi um sucesso de bilheteria, arrecadando o triplo de seu orçamento inicial, algo que só aumentou quando ele chegou ao mercado de home video. Apesar disso, uma sequência nunca veio, embora a cena final tivesse deixado isso no ar.

Ming-Na Wen como Chun-Li em Street Fighter: A Batalha Final

Ok, todos concordamos que o filme não é bom, mas ele tem lá seu valor, tendo ganhado um séquito fiel de adoradores nos anos que se seguiram. Fazendo um pouco de justiça, se ignorarmos que se trata de uma adaptação de Street Fighter, o longa é um dos mais legais de Van Damme, com coreografias de luta bacanas – embora toscas, e por isso, divertidas -, diálogos sem pé nem cabeça e muitos tiros e explosões, como todo bom filme de ação dos anos 80 e 90 deveria ser. Assisti-lo com os amigos é uma experiência melhor ainda, já que rir dos problemas técnicos e dos efeitos especiais pobres é muito mais legal quando se está acompanhado.

Também precisamos levar em consideração a atuação de Raul Julia como Bison. O ator, que enfrentava um severo câncer de estômago durante as gravações, desempenhou seu papel com um profissionalismo ímpar, tendo estudado os trejeitos e personalidades de vários ditadores da vida real para compôr seu Bison. Segundo ele, era uma “abordagem Shakespeariana” de um tirano, fazendo o personagem parecer mais com Ricardo III do que um vilão de um vídeo game.

Street Fighter foi seu último trabalho no cinema e lhe rendeu uma indicação póstuma como melhor ator coadjuvante no Saturn Awards, uma das premiações mais tradicionais e importantes do cinema e da TV. O filme, aliás, é dedicado à ele.

Raul Julia como Bison em Street Fighter: este foi o último trabalho do ator no cinema

Street Fighter: A Batalha Final não é e nunca será um bom exemplo de um filme baseado em um game, mas em toda sua cafonice e clichês de ação, serve como um retrato de seu tempo, uma época em que todos os filmes de ação de sucesso eram assim. Caso você seja um fã fervoroso do game, é melhor passar bem longe, mas se você quer apenas se divertir apontando todas as diferenças entre os dois produtos, dar risada do que o filme tem de pior e curtir uma porradaria de qualidade, este filme é para você. Com certeza, ele “dá a volta”, e de tão ruim, se torna bom.

Esse filme não vai “ao encontro do mais forte”, mas tem seus momentos. E isso é mais do que se pode dizer de outras adaptações por aí.

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sobre o autor Raphael Martins

Já fui um pouco de tudo: apresentador de TV, repórter, roteirista e hoje sou redator nesse noblário site. Gosto de longas caminhadas na praia, HQs, games, tokusatsu, cinema e filé com fritas. Você pode trocar uma ideia comigo e me ver reclamar da vida no Twitter @aqueleraphael