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Por que a China é a grande heroína de Hollywood?

Por Evandro Lira

Há alguns anos atrás era impensável que Hollywood se preocuparia com os números de bilheteria de um outro país que não fosse os Estados Unidos. Hoje, no entanto, isso é bastante comum, afinal a bilheteria estrangeira vem se tornado a maioria do lucro de um filme. É só analisar alguns blockbusters lançados recentemente. Aquaman, da Warner, fez U$ 334 milhões no seu país de origem, enquanto fora, fez nada menos que U$ 809 milhões. Vingadores: Guerra Infinita, o filme de super-herói que mais lucrou na história, fez mais de um 1 bilhão de dólares só nos países estrangeiros. Até Venom, longa da Sony que foi super mal recebido pela crítica, fez U$ 641 milhões internacionalmente. Mas existe um país específico que tem feito a maior diferença na hora de contabilizar os lucros dessas produções: a China.

Vamos pegar os mesmos exemplos para observar como o mercado chinês tem se destacado entre todos os outros. Dos U$ 641 milhões de Venom arrecadados no mercado internacional, U$ 272 é só dos cinemas da China. Isso é mais do que o filme arrecadou no próprio país. Enquanto isso, Guerra Infinita lucrou U$ 359 milhões por lá. No Brasil, por exemplo, Guerra Infinita arrecadou U$ 66 milhões. A diferença é exorbitante e por causa desses números, os produtores dos Estados Unidos têm voltado os seus olhos para o mercado chinês como essa grande potência do cinema.

Em 2014, já se previa que a China poderia ultrapassar os americanos nessa área até o fim da década. E demorou só 4 anos para que isso acontecesse. Em 2018, o país asiático conquistou o topo do pódio do mercado cinematográfico, faturando cerca de 3,17 bilhões de dólares só no primeiro trimestre do ano. E, acredite, a maior parte dessa grana não são por causa dos blockbusters americanos, mas por causa dos seus filmes domésticos.

A China é conhecida por ser um país protecionista. Seus próprios produtos são extremamente valorizados, não sendo a toa que apenas em 2012 foi liberado pelo governo chinês a entrada de 34 filmes internacionais num ano. Esse número, aliás, é até hoje o máximo de filmes que a China permite. E como se faz para estar entre esses 34 longas exibidos por lá?

Todos os filmes são submetidos à uma análise antes de chegarem aos cinemas chineses. Não ter palavrões, cenas obscenas e nada que vai contra a ideologia do governo já te garante um tanto de pontos. Se o filme se passar na China ou tiver alguma participação de astros chineses então, sucesso! É por isso que marketing direcionado para o país e eventos com as estrelas do filme têm sido quase que obrigatório para os grandes lançamentos americanos.

Além disso, é possível notar que até mesmo algumas escolhas de roteiro e de casting são motivados pelo desejo do sucesso na China. Filmes como Homem de Ferro 3 e Arranha-Céu (estrelado por The Rock) foram pensados para agradar o público chinês ainda durante a pré-produção. O filme da Marvel possui uma cena de Tony Stark na China contracenando com atores super famosos por lá, cena essa que foi inserida apenas nas cópias chinesas do longa. Já Arranha-Céu se passa inteiramente no país e tem vários atores nativos.

A essa altura você já entendeu que a China se tornou um mercado essencial para o cinema norte-americano, mas o que deixa isso ainda mais evidente é perceber que alguns filmes foram literalmente salvos pelos asiáticos. Produções como A Grande Muralha, que conta a história de um britânico lutando contra monstros na Muralha da China, fez apenas U$ 45 milhões nos cinemas norte-americanos, enquanto conquistou U$ 170 milhões nas salas chinesas. Exemplo melhor ainda é Warcraft: O Primeiro Encontro de Dois Mundos, que arrecadou míseros U$ 47 milhões nos cinemas nos EUA e faturou U$ 221 na China, onde o game é extremamente popular entre os jovens.

Tem até grandes produções americanas que acabam demorando um tempo considerável para estrear na China, e os estúdios parecem contar os minutos para poder descobrir o saldo do filme por lá.

E se você se pergunta a razão dessa explosão do país no que diz respeito ao mercado cinematográfico, basta entender o contexto social deles, que nos anos 2000 começou a ascender economicamente e hoje é uma das maiores potenciais mundiais. Com o crescimento dos grandes centros urbanos, a classe média cresceu também, e sobra mais dinheiro para lazer e cultura, gerando mais salas de cinema, consumidores e mais gente investindo no negócio. Só que, diferente de qualquer outro lugar, cerca de um quinto da população do mundo vive na China, algo que convenhamos, dá uma força nesses dados!

Como fãs de cinema, não deixa de ser interessante acompanhar toda essa trajetória da China e observar os desdobramentos de Hollywood para tentar agradá-la. Torcer para que seus filmes favoritos do ano se saiam bem na China é, hoje em dia, algo que vale a pena ser acrescentado na lista de desejos de cada um.

Aproveite e confira os destaques de um dos atores de Hong-Kong mais celebrados da cultura popular!

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sobre o autor Evandro Lira

Bacharel em Cinema e Audiovisual, potterhead das antiga, filho dos filhos do átomo, fã de mais coisas do que deveria, frequentemente falando sozinho no Twitter. Segue: @evandroslira