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Os perigos da nostalgia desmedida

Por Raphael Martins

Era uma vez um rapaz chamado Dunha.

Dunha trabalhava em uma fábrica de perucas comestíveis e, na visão dele, era um cara legal. Trabalhador, honesto, de poucos amigos, na casa dos 30 anos e com um vício cada vez mais comum em uma época onde se encontra facilmente de tudo na internet: o passado. Inclusive o que ele não viveu.

Como era de poucos amigos, ele não tinha muitas pessoas com quem conversar sobre suas memórias de infância, ou sobre os programas que gostava de assistir quando era adolescente, sobre jogos antigos e points da sua cidade há muito desaparecidos. Na verdade, ele queria que fosse assim. O mundo já não era mais o mesmo, ficara “chato”, pensava ele. Ele estava satisfeito com seus três únicos amigos, Nilsinho, Tiaguinho e Bruninho, todos na mesma faixa de idade de Dunha, apesar dos diminutivos. Todo resto era “molecada retardada”.

E como estava chato esse novo mundo em que ele vivia. Seus programas de TV favoritos, os quais ele tem o hábito de ver chamadas antigas no Youtube, não existiam mais. Que absurdo, cancelar o Vídeo Show, um programa tão tradicional da televisão brasileira! Ele não assistia desde 1993, mas ainda assim, achava um ultraje. Sinal dos tempos. “O mundo está chato.”

Representação visual de Dunha: levemente fidedigna

Na época dele, as crianças assistiam o Xou da Xuxa, a TV Colosso, a Mara Maravilha. Os desenhos formavam caráter, não eram iguais a essas “besteiras sem cérebro” que passam hoje em dia, que deixava os pequenos “retardados”. Hora de Aventura? Teen Titans Go? Um lixo cancerígeno que tratava o público como acéfalo, feito para construir uma geração de idiotas. Bom mesmo eram os Comandos em Ação, o He-Man e a She-Ra.

-Mas ô Dunha, She-Ra? Isso não era desenho de menina, rapaz? – Diz Nilsinho, logo após berrar um sonoro palavrão depois de perder mais uma vida no Alex Kidd.

-Nilsinho, fica na tua que tu não sabe das coisas. She-Ra era legal, curtia pra caramba o Arqueiro. Esse desenho novo feito por feministas gordas de cabelo colorido é um lixo completo, aquele povo devia ser era preso!

-Calma, cara. Também não precisa esquentar. Eu, hein. Esse Dunha…

Dunha nunca havia visto um episódio completo de She-Ra na vida. A ligação dele com esse desenho era puramente movida a nostalgia, de assistir televisão e ver a chamada dos desenhos do Xou da Xuxa entre um comercial e outro.

A versão 2018 de She-ra: mantenha fora do alcance de Dunhas

E como ele amava aqueles comerciais antigos. Aqueles em que as mulheres apareciam seminuas em anúncios de cerveja, ou o do menino que fingia um afogamento para lascar um beijo na salva-vidas ou colocava um espelho no pé para ver a calcinha da professora, bem mais velha. Hoje em dia, o politicamente correto destruiu tudo. Desgraçados. “O mundo está chato.”

Dunha tinha dois passatempos preferidos na internet: conversar com seus iguais no grupo “Nostalgia do Zap” e comentar em sites de cultura pop na internet. Dunha, também conhecido como “O paladino de Grayskull” na rede, era o terror da sessão de comentários de qualquer site, portal ou rede social. Ele se sentia compelido a dizer “umas verdades” sobre tudo o que acontecia no meio nerd. Anunciaram um novo Thundercats? Lá estava ele, esbravejando no Facebook sobre como sua infância foi completamente destruída e o mundo estava perdido. E a versão só com mulheres de Os Caça Fantasmas? Dunha perdeu a amizade de Talita, sua amiga desde a época do primário, por achar que o filme era “propaganda feminazi” para “castrar o homem moderno”. Ninguém poderia substituir Bill Murray e companhia. Dunha não percebia, mas aos poucos, cada vez mais pessoas iam deixando de segui-lo em suas redes sociais, inclusive membros de sua própria família.

Mas ele não era de todo ruim, pelo menos era o que achava de si mesmo. Era um homem de princípios, mas flexível. Certa vez, ele tentou dar uma chance a uma nova série da franquia Kamen Rider, que ele amava quando era criança. Não aguentou 5 minutos. Como aquele carinha com roupas coloridas, penteado que seria considerado gay nos anos 90 e com rostinho de modelo poderia ousar se chamar de Kamen Rider? O único Kamen Rider se chamava Isamu Minami, e ninguém poderia tomar seu lugar. E lá se foi Dunha, externar toda sua fúria contra o tokusatsu moderno em grupos de fãs pela internet afora, como um apóstolo tentando pregar a palavra de Cristo por terras desconhecidas.

Para Dunha, esse é o primeiro e único Kamen Rider… embora tenham existido 10 antes dele

Também tentou curtir algum jogo mais atual no Playstation 4 em uma das únicas locadoras que ainda persistiam em sua cidade. Pegou Street Fighter V para jogar, se aventurando pela primeira vez no modo online de algum game. Levou uma coça homérica, e 20 minutos depois, pagou a jogatina, desabafando com Dedé, o dono da locadora, sobre a experiência.

-Como essa porcaria de jogo pode se chamar de Street Fighter? Não dá pra ganhar uma, tá diferente demais! Eu achei que era igual ao do Super Nintendo!

-As coisas tão diferentes agora, Dunha. O negócio agora é o cenário competitivo. Dá pra se divertir ainda, é só pegar mais leve. Chama o Tiaguinho pra jogar com você, ele te ensina.

-Que mané competitivo o que! Eu vou é embora!

Street Fighter V: lixo moderno (de acordo com o Dunha)

Só seus três únicos amigos lhe entendiam, e olhe lá. Só o grupo do “zap” poderia lhe fazer sentir bem de novo, como se ele pudesse voltar à uma época mais simples, onde o mundo não fosse chato e ele pudesse gostar de alguma coisa de novo. No cinema não tinha mais filme “de macho“, com explosões, músculos, porradaria e frases de efeito, apenas heróis da moda com roupas coloridas. A TV não passava mais animes em horário nobre. Mas ali estava ele, firme em sua convicções, parado… parado no tempo.

E foi em uma noite insone e quente de verão que Dunha teve uma epifania: ele não sentia o tempo passar porque nunca havia passado por ele. Outros amigos e conhecidos que tivera cresceram e se afastaram, casaram e não casaram, foram felizes e não foram, afinal, a felicidade é cíclica… mas ele não. Ele se apegou com tanta força à ilusão de um passado perfeito e simples que na verdade nunca foi real que ficou no escuro e se perdeu no meio do caminho, batendo com o joelho na quina da mesa da vida. Ele acreditou no que quis acreditar com tanta convicção que o mundo que o cercava continuou sem ele. E descobriu, da pior maneira, que o passado é um ótimo lugar para se visitar, mas um péssimo lugar para se ficar.

Agora, realmente, o mundo estava chato.

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sobre o autor Raphael Martins

Redator, apresentador e roteirista. Gosto de longas caminhadas na praia, Star Wars, tokusatsu, anime e filé com batata frita. Deixo as pessoas constrangidas. Você pode trocar uma ideia comigo no Twitter: @aqueleraphael