Os Hellboys de Guillermo Del Toro são Joias Subestimadas!

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Os Hellboys de Guillermo Del Toro são Joias Subestimadas!

Por Lucas Rafael

Recentemente, visitei alguns amigos de longa data. Se tratam dos primeiros filmes Hellboy, dirigidos por Guillermo Del Toro. São dois longas que marcaram muito minha infância, e tento re-assistir o segundo deles ao menos uma vez por ano. Com a chegada da primeira prévia acerca do reboot de Hellboy, me vi na necessidade de revisitar ambas as obras de Del Toro. O ator Ron Perlman, que interpreta o personagem titular nestes dois filmes, falou recentemente sobre como a franquia ainda é uma ferida aberta para ele. Acredito que seja para todos nós. Ao menos é pra mim.

O primeiro filme de Hellboy, lançado em 2004, é uma prova de resistência criativa. É um longa que está à mercê de ser genérico, quase um enlatado de Hollywood para lucrar em cima de mais um personagem dos quadrinhos, financiado por executivos que não entendem direito o material-fonte. É um projeto que podia acarretar em um produto cínico e desalmado. Mas existe alguma coisa ali que impede a obra de destrilhar para esse caminho. Da atuação de Ron Perlman como Hellboy, ao cuidado no visual de personagens como Abe Sapien e Karl Ruprecht Kroenen. O resultado final mistura efeitos práticos com computação gráfica (que envelheceu um tantinho mal, diga-se de passagem) e se ambienta principalmente em ambientes escuros. Existe um esmero técnico digno de Oscar na paleta de cores das cenas noturnas, e alguns sets tentam com esforço canalizar a energia pulp atmosférica dos quadrinhos de Mike Mignola.

 

Hellboy (2004)

É essa qualidade subjacente do filme que parece lutar contra um vilão genérico e CGI barata que faz do primeiro longa de Hellboy algo especial. É a impertinência de Guillermo Del Toro em não querer assinar só mais um projeto para um grande estúdio.

Em entrevista passada, Mike Mignola, autor dos quadrinhos de Hellboy, afirmou que Del Toro o proibiu de participar das reuniões com o estúdio, porque ele não iria sobreviver a elas. Executivos, sendo as pessoas que financiam os filmes, contam com um dizer criativo imponente na composição da trama, algo que pode minar a visão de um diretor. Estes talvez sejam os grandes vilões do primeiro filme do Vermelho. 

Hellboy é uma figura complicada de adaptar. Existem HQs do personagem com uma pegada de filme B pulp, enquanto outras histórias do Vermelho são encharcadas de atmosfera e horror existencial com adornos góticos. O meu filme ideal de Hellboy seria algo como Evil Dead 2 encontra A Bruxa, mas sei que é uma ideia arriscada demais para se afundarem milhões de dólares em orçamento. Um homem pode sonhar. A questão é como a visão de Del Toro não altera a essência do Hellboy dos quadrinhos, mas a complementa.

 

Hellboy: desolação, melancolia, existencialismo e pancadaria.

Arcos dos quadrinhos como A Morte de Hellboy, que o novo filme pretende adaptar, flertam com algo mais épico e fantasioso, algo que o novo trailer até parece capturar bem. Mas não tão bem quanto Hellboy II: O Exército Dourado, de 2008.

Hellboy II é  meu filme super-heroico favorito, e eu o coloco acima dos Cavaleiros das Trevas e pertinho de Logan em meu ranking pessoal. É um filme no qual cada frame transborda de criatividade e cada criatura ou estrutura que aparece na tela demonstra que alguém na produção daquilo realmente se importava com o que estava fazendo.

Existe uma luz dourada banhando a fotografia do filme, concebendo um ar épico à narrativa desde as primeiras cenas, com o Hellboy garoto no trailer do professor Broom. As cenas de ação são bem coreografadas e existe um cuidado encantador nos sets do filme.

A cena na qual o príncipe Nuada mata seu pai, lutando contra seus guardas-costas em armaduras titânicas de pássaro é banhada em dourado, com folhas cálidas amarelas constantemente caindo do teto da estrutura para engrossar o ar de “conto de fadas” daquele ambiente. É um filme meticulosamente executado com carinho.  A cena do Mercado Troll é uma carta de amor aos efeitos práticos. Nela, existe uma criatura com a maquete de uma mini-capela na cabeça, e ela não é feita de CGI. É tudo real, palpável e crível.

 

Príncipe Nuada adentrando a corte de seu pai.

Hellboy II também te entretém constantemente. Ele estabelece bem seu vilão e motivações, e te leva de lugar encantador a lugar encantador sem parar. Após a cena do Mercado Troll, existe um embate entre Hellboy e um kaiju  (monstro gigante) que me faz pensar se não era Del Toro ensaiando para Pacific Rim.  

Quando o filme freia sua narrativa, a magia está entre os personagens. Você se importa com eles e com a relação entre eles. Quer que Hellboy se entenda com Liz e que eles firmem seu relacionamento para cuidar das crianças, sendo aceitos pela sociedade que agora está ciente de sua existência. Você quer que Abe encontre alguém que entenda ele em Princesa Nuala e, até o agente Maning consegue conquistar nossa simpatia com Hellboy constantemente implicando com ele.

Se o primeiro filme estabelecia aquele universo e explorava a sina sinistra da existência de Hellboy, o segundo é sobre os personagens, suas relações e seu futuro. Há um planejamento coeso nas temáticas do primeiro e segundo longas que me faz salivar por um terceiro.

Digo, existe uma cena na qual Ron Perlman maquiado de demônio se embriaga ao lado de Doug Jones vestido de homem-anfíbio ao som de Can’t Smile Without You enquanto eles confessam seus problemas amorosos. É um momento sublime que ressalta os laços dos personagens e sua humanidade.

 

Momentos…

Temos também a adição de Johann Krauss neste filme, e vê-lo lado a lado com Hellboy, Abe e uma Liz em seu traje da BRPD parece algo completamente história em quadrinhos, no melhor dos sentidos. É um filme sem vergonha alguma de abraçar suas origens coloridas.

 

Hellboy II: sem vergonha de abraçar sua essência cartunesca.

O terceiro ato do filme é épico, ambientado em uma ilha desolada na qual um gigante serve de passagem para uma cidade esquecida. Temos um Anjo da Morte assustador e imponente plantando os dilemas para o terceiro longa, enquanto o embate final explora muito bem as habilidades de cada personagem na hora de lidar com o exército dourado do título.

A luta final entre Hellboy e Nuada, usando a geografia do cenário na composição da ação é engenhosa, com o Vermelho usando sua mão direita para se proteger da lâmina e tudo mais. O longa termina com os agentes do BRPD se demitindo para viverem suas vidas, mas sabemos que o destino imposto em Hellboy pela sua mão de pedra vai voltar para assombrá-lo.

É um filme incrível, feito com um amor latente que prepara terreno para uma continuação promissora que nunca existiu, nem vai existir.

 

Guillermo Del Toro nos bastidores de Hellboy II

Não odiei o trailer do novo Hellboy, e acredito na competência dos envolvidos para a entrega de um filme digno. No entanto, não consigo sacudir a sensação de que existe um cinismo hollywoodiano já impregnado no projeto. Talvez eu seja órfão demais da visão de Del Toro para este universo, de seu cuidado em trabalhá-lo com inventividade e energia. Talvez o fato de não termos um terceiro Hellboy assinado pelo diretor ainda seja uma ferida aberta não só para Ron Perlman, como também para a cultura popular.

Confira imagens do reboot na galeria abaixo:

Hellboy chega aos cinemas em abril de 2019.

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sobre o autor Lucas Rafael

Redator. Entusiasta de coisas demais